O amadurecimento das séries

Tony Soprano

Tony Soprano, a grande obra de James Gandolfini

John Boy que nos perdoe, mas na televisão moderna ninguém se interessaria no cotidiano da família Walton. Nem suportaria a aborrecida cena do “Boa Noite”. Basta uma passada despretensiosa pelos números de audiência ou pelo volume de downloads para notar uma mudança radical no comportamento dos telespectadores.

O romance, o antagonismo clássico e as comédias com fundo familiar estão decididamente distantes do desejo do grande público, inclusive no Brasil, onde os índices das novelas estão em queda e os dos “enlatados” em alta.

Além da falta de tempo disponível para as pessoas acompanharem religiosamente a novela, ou mesmo um show à moda antiga, tipo Dallas, um fator de nome desconhecido no Brasil foi extremamente determinante para esta reorganização do mercado: a série Hill Street Blues.

Exibida na NBC, HSB não apostava em heróis, vilões ou soldados dotados de coragem absurda ou fonte sobrenatural de força. A aposta era na ordem natural dos acontecimentos. E no desenvolvimento psicológico dos personagens, o que ficou conhecido por ensemble show. 

Tratado quase como um experimento, uma espécie de episódio piloto, o ensemble  ganhou a confiança dos executivos e “enterrou” o formula show, cuja mecânica privilegiava a temática, no ano de 1990, quando a ousadia de David Lynch foi colocada em horário nobre na TV americana. Foi a busca pelo assassino de Laura Palmer, adolescente moradora da pequena e fictícia Twin Peaks, a faísca para a explosão de humor negro e ousadia dos projetos da televisão.

A obra, jamais exibida integralmente na TV aberta brasileira, tinha como temática os sonhos americanos. O caráter dúbio dos personagens, as entrelinhas carregadas e a repercussão, maior que a de HSB, trataram de eliminar a possibilidade de um retrocesso na qualidade das séries e abrir caminho para The Shield, Treme, Dexter, True Blood e A Sete Palmos.

Celio Ceccare, consultor e especialista em séries de televisão, reconhece a primazia conceitual da série policial, indicada pelos críticos mais exagerados como o embrião da espetacular “The Wire”, mas destaca outras duas produções para demonstrar a ascensão da complexidade: Família Soprano e The West Wing.

“As duas foram passadas como projetos autorais. West Wing é pra sempre a série do Aaron Sorkin, assim como David Chase é o criador de Sopranos. A maior parte das séries hoje em dia se configura através disso. Boardwalk Empire foi vendida como a série do Scorsese. Mad Men, do mesmo cara de sopranos. Elas ganharam um timbre”.

“The West Wing”, exibida em TV aberta nos Estados Unidos, foi produzida entre 1998 e 2006. A temática não poderia ser mais interessante: geopolítica. Mais especificamente: Conflitos na Casa Branca. Lançada na Era Clinton, a série atravessou o 11 de setembro, retratado em episódio especial considerado histórico, e a crise – moral, não a econômica – do governo Bush.

“Familia Soprano”, a série de maior sucesso da HBO, ilustra o cotidiano de um outro tipo de poder: a máfia. O sucesso de público e crítica esteve no contexto crítico da produção. As entrelinhas, e isto vale para tudo o que tem a assinatura de Alan Ball, contam mais histórias do que as falas dos atores.

“A série é bem maior do que a história de um mafioso. Ela mostra uma América onde os valores não têm mais importância e a cobiça e a pressão se tornam tamanhas que um chefe da máfia não consegue mais aguentá-la. O Tony Soprano se torna um herói exatamente por isso. Pois mesmo com todo o poder que ele tem, ele não consegue exatamente o que quer, ou saber o que quer”, afirma Ceccare, que realizou um estudo de Filosofia embasado na série.

Telas grandes, ideias não tão grandes assim

Uma questão, lançada de modo muito sutil pelo crítico Cassio Starling Carlos na publicação “Em Tempo Real”, a única de abordagem teórica e crítica sobre o desenvolvimento das séries, envolve diretamente a “moral” do cinema.

O argumento é direto. Se na década de 70 a televisão apostava nas comédias fáceis, nos dramas policiais de solução rápida ou na fantasia desenfreada, o cinema se encarregava de entreter os adultos, com enredos arrojados, originais e realistas. No século 21, houve a inversão destes valores. Os pais ficam em casa conferindo obras primas como A Sete Palmos, Mad Men e Banshee, enquanto os filhos colocam os óculos 3D.

A hipótese, nada pretensiosa, tem uma fundamentação que justifica, em parte, as diferenças entre cinema e seriado. O recurso do tempo, moldado pelos produtores para permitir o desenvolvimento meticuloso de tramas e personagens, tem prazo de validade nos filmes. Enquanto Alan Ball teve algumas horas pra desenvolver Beleza Americana, ele já contou com cinco temporadas para expor o enredo de True Blood – a sexta não contará com participação direta dele.

“Se você imaginar uma tela de pintura, o que acontece: a série se torna um ambiente propício para maior exploração dos personagens, o que o tempo em cinema não propicia. Como você tem uma tela maior, o produto vai ser diferente do que o do cinema, onde você tem de 90 a 120 minutos. O Scorsese foi para a HBO porque a história que ele tem pra contar precisa desse espaço maior para se desenvolver, assim como o Tarantino queria que Bastardos Inglórios fosse uma minissérie.”, diz Celio.

O outro aspecto apontado pelo especialista para ilustrar a diferença entre as estruturas narrativas é de ordem estratégica. O caminho para a recuperação dos recursos investidos na fita foi subvertido, exigindo uma resposta nova e imediata.

“Os grandes estúdios não têm interesse em fazer um grande filme, mas sim um evento, pois o sucesso comercial de um filme não se constrói mais como antigamente, com a crítica e a recepção do filme. Hoje há uma construção de marketing muito anterior ao lançamento, para a construção do hype e a recuperação instantânea do investimento”.

Good Night, John Boy. Good Night, Movies.

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Está mais fácil saber quem matou Laura Palmer

Twin Peaks: Definitive Gold Box Edition. This ...

O box traz todos os episódios e excelentes extras. 

“Twin Peaks” sofre uma espécie de maldição no Brasil.

A primeira exibição, isto em 1991, na Globo, foi um retumbante fracasso de audiência.

Resultado? Guilhotina e geladeira.

21 anos depois, nova tentativa, desta vez no canal pago Viva.

Inserida na sessão “Clássicos em Série”, até começou bem. Mas, digamos, não teve oportunidade de terminar. Foi rifada. Está novamente no ar, aos sábados, mas, com um retrospecto tão feliz, quem se atreve a tentar de novo?

Bem, pelo menos temporariamente, os esforços poderão cessar.

A rara edição dourada de “Twin Peaks”, que reúne todos os episódios da primeira e da segunda temporada, além de fartos extras, voltou a pingar no mercado.

E com preço especial.

Parte de uma promoção da Livraria Cultura, ela pode ser adquirida por 40 reais.

Na loja do Conjunto Nacional a busca era bastante significativa. Um colaborador reportou a existência de 270 peças no estoque durante a manhã da sexta-feira (24). Às 21 horas do mesmo dia, o volume era bem menor.

Para evitar decepções, aviso desde já: a versão brasileira de “Twin Peaks Definitive Gold Box Edition” é bem mais simplória que a americana. Mas o que realmente importa está lá.