Nem o futebol tira a TV Brasil do traço

TV Brasil: ninguém sabe, ninguém, viu

TV Brasil: ninguém sabe, ninguém viu.

Principal investimento realizado em 2013, as partidas da Série C do Brasileirão não ajudaram a TV Brasil a sair do zero no ibope paulistano.

Conforme monitoramento obtido no site ExperTV, a emissora estatal marcou no sábado, 20 de julho, 0,2 pontos de média diária (audiência calculada entre 7h e 0h).

A TV Brasil perdeu para Globo, Record, SBT, Band, RedeTV!, Cultura e Rede Vida. No arredondamento, empatou com seis nanicas: Record News, MTV, Rit, CNT, Gazeta e Mix. Só a Rede Brasil, dona de clássicos como “Maçonaria na TV”, “Semana da Presidenta” e “Circo do Atchim & Espirro” conseguiu a proeza de ser menos sintonizada.

O pico de audiência da TV Brasil foi de 0,5 ponto, alcançado às 17h49. A Série C, adquirida por R$ 10 milhões, obteve média de 0,03 em sua faixa (18h30-21h), o equivalente a 1.860 domicílios.

Confira o ranking completo do sábado (20/7)

GLOBO – 12,4
RECORD – 5
SBT – 4,5
BAND – 2,1
REDETV! – 0,8
CULTURA – 0,8
REDE VIDA – 0,3
RECORD NEWS – 0,2
MTV – 0,2
CNT – 0,2
MIX – 0,2
RIT – 0,2
GAZETA – 0,2
TV BRASIL – 0,2
REDE BRASIL – 0,1

Leia Também: Um dia com a TV Brasil

Um dia com a TV Brasil

tv-brasil

Monica Bergamo publicou na edição de 22 de maio da Folha de São Paulo dados “confidenciais” sobre a audiência da TV Brasil.

Os números em questão, enviados aos conselheiros da EBC (Empresa Brasileira de Comunicação), são bastante desalentadores.

Lançado em 2008 para colaborar com a “democratização da mídia”, o canal marcou na capital paulista apenas 0.05 de ibope entre os dias 15 e 21 de abril. No dia 14 de abril, durante a programação infantil, o melhor resultado do mês: uma hora seguida com 0.6 – a única sem “traço” (leia-se zero audiência). Protofascismo de controle remoto?

A publicação destes números me causou um grande e sincero espanto. 0.05 é um resultado muito ruim, mesmo para quem não tem compromisso de fazer sucesso. A MTV, emissora segmentada, não fecha uma semana com 0.05. O culto da Igreja Universal exibido durante a madrugada na RedeTV! não marca 0.05. Para aplacar minha dúvida sobre a repulsa do público, resolvi fazer o que ninguém faz com frequência. Eu sintonizei a emissora. Por um longo período. Doze horas. Um diagnóstico certamente surgiria. E, de fato, surgiu.

Comecei a maratona às 10h00. A primeira coisa que surgiu na tela foi uma batata. Antes que eu pudesse raciocinar, mais três batatas surgiram. Após uma piada muito ruim, elas começaram a cantar. A música era pior que a piada. No fim da apresentação, outra piada. Vibrei com os créditos finais. Cinco demorados minutos. Um detalhe chamou minha atenção.  A animação não era brasileira, mas sim americana. Paradoxal, diria.

Até a hora do almoço, vi uma porção de desenhos educativos. Todos muito adequados às crianças. Até uma versão genérica de Mafalda eu descobri. Chama-se Cedric. Tenho certeza que ele seria candidato a deputado pelo partido da Marina Silva. Escrevo isso porque, sem desmerecer o desenho, os dois pensam de maneira parecida.  Entre uma e outra atração, as batatas “American Idol” voltavam. E com elas, uma questão: por que o país da cota nacional na TV paga não incentiva as produções tupiniquins em uma TV pública?

A grade infantil da TV Brasil teve uma breve pausa entre 12h00 e 12h30. É nesta faixa que o canal exibe a primeira edição de seu telejornal, o “Repórter Brasil”. Como eu sabia que a edição principal era exibida às 21h00, não fiz uma análise muito crítica. Mas não deixei de reparar no cuidado dos repórteres com os releases do Governo.

Como eu já suspeitava, as batatas retornaram assim que o noticiário acabou. Após outra piada desastrada, resolvi chamar uma delas de “Bruno Mazzeo”. Era a metida a intelectual. No fim da canção, pensei na regressão do mercado musical. De 1998 para cá, tivemos padres cantores, pastores cantores, o Otto e as batatas.

Se a boa vontade na hora de apostar em novidades locais inexiste, a TV Brasil me pareceu bem esperta na hora de escolher os produtos consagrados. Para inflar a grade vespertina, ela exibiu “Cocoricó” e “Peixonauta”, duas grifes da animação para as crianças. Às 16h00, após “Clube do Travesseiro”, um seriado americano ruim como os folhetins de Iris Abravanel, a maratona infantil teve um ponto final.

Mais seis horas

O primeiro programa adulto que eu pude conferir não foi exatamente uma novidade. O “Sem Censura” é um velho conhecido. Exibido desde os tempos de TVE, seu formato jamais mudou. Vários figurões da cultura e da política ficam reunidos em torno de uma mesa.  Por 90 minutos, fazem uma acirrada competição para definir quem fala mais bobagem. O empate é o placar mais frequente. Leda Nagle decide o campeão.

Às 18h00, depois de um programa sobre esportes radicais, conferi um experimento chamado “Estúdio Móvel”. Nele, a apresentadora, um protótipo de moradora cool da Vila Madalena, convida o público para uma expedição em busca de novos talentos e elementos de resistência criativa. Peguei no sono quando os convidados começaram a falar sobre “pensamento corrente da população”. Acordei às 20h35, no meio da propaganda eleitoral obrigatória. Segundo a grade de programação, deixei de conferir alguns enlatados e um programa de Ancelmo Gois.  Fiquei aliviado.

A primeira risada do dia custou para aparecer. Só às 20h40 eu gargalhei. Foi no momento em que uma senhora apareceu (pensei ser a batata cantora nos primeiros segundos) para anunciar o início de um programa chamado “O Púbico na TV”. Achei bem sacada a ironia. Colocar a palavra “público” no título de um programa que dá traço de ponta a ponta. Não sei se eu pensaria nisso.

O tema do tal programa, criado para a ouvidoria da EBC responder dúvidas do público (aqueles e-mails dos participantes do “Teste de Fidelidade” parecem mais verossímeis que e-mails de telespectadores da TV Brasil), era teledramaturgia.

Três minutos bastaram para a apresentadora do “O Público na TV” e a convidada, cujo nome felizmente não me recordo, enveredarem para o fetiche do controle de mídia.

Para elas, o grande problema da teledramaturgia brasileira é a influência da iniciativa privada. Pelo que eu entendi, o país tem gente mal educada e despreparada porque as novelas exibem sacolas do Carrefour quando deveriam propagar a ética e a moralidade. A classificação indicativa não daria conta desta questão porque ela não é suficiente pro governo avaliar quais programas influenciam o jeito de ser das pessoas. A EBC tem muito apreço a valores, desde que nenhum deles seja a liberdade.

Durante o intervalo comercial, a preocupação da TV Brasil em oferecer dramaturgia de qualidade foi ilustrada com o anúncio de um seriado francês. Enquanto importuna as emissoras, que mal ou não produzem novelas e séries, movimentando o mercado, a rede estatal exibe produções francesas. E produções francesas ruins, como “O Conde de Monte Cristo”.

No retorno do programa, a apresentadora, apanhando do teleprompter, chamou algumas gravações do público. Em um momento, a expressão “influência maléfica da TV e da internet” foi utilizada. Nem a lepra foi tão ofendida. Outra telespectadora, e parabenizo a equipe do programa pelo esforço de localizá-la, perguntou o total de horas que uma criança pode ser exposta à TV. Como se a TV fosse Césio 137.

A última parada da noite foi a edição principal do “Repórter Brasil”. Mesmo sem sua estrela, Emir Sader,  o jornal é bastante interessante.  A vinheta de abertura, por exemplo, reúne todos os elementos da identidade nacional.  Da nossa diversidade de fachada, da nossa união fantasiosa. Em flashes, aparecem índios, crianças e as bicicletas, promovidas à condição de resistência no ano passado.

As pautas eram pouco informativas. Para um jornal de 60 minutos, a única cobertura bem feita foi a de esportes. Uma feira de “comércio justo” foi o grande destaque. Não sei quanto custou essa feira, mas ela não trazia nenhuma inovação. Difícil entender a novidade na negociação entre produtor e consumidor. Só mesmo quem vê maléfica influência da TV e da internet pode desconhecer princípios básicos do mercado.

Outro destaque foi uma feira de cultura LGBT. Procurei o Laerte em todos os momentos, mas não encontrei. Vai artesanato, vem artesanato, a matéria mostrou algumas pessoas encenando esquetes contra as doenças sexualmente transmissíveis. Foi possivelmente a maior ofensiva brasileira contra a AIDS desde sempre.

Aguardei a despedida dos três âncoras – o jornal tem mais apresentadores do que telespectadores – para trocar de canal. Conferir algo sem batatas, Leda Nagle e gente descolada.

A TV Brasil foi inventada para atender a “antiga aspiração da sociedade brasileira por uma televisão pública nacional, independente e democrática”, uma dessas máximas graciosamente inventadas para conferir um pouco de superioridade aos brasileiros.  Ela não é nacional, porque abusa do conteúdo estrangeiro. Também não é democrática, porque apenas implica com a iniciativa privada. Só é independente. Independente de público.  E vai continuar assim por um bom tempo. Porque é feita por gente que não entende a TV. Por gente que não entende o público. Por gente que entende e avalia a semiótica do traço. Traço que não sai barato.