A revolução foi televisionada – Parte II

A democracia fumegante e incandescente de alguns brasileiros.

A democracia fumegante e incandescente de alguns brasileiros.

O sexto grande ato contra a tarifa, realizado ontem, dia 18 de junho, em São Paulo, foi o mais curioso de todos. Porque rompeu com teorias manjadas e estúpidas para lançar novas teorias manjadas e estúpidas. Não sobre causas sociais, mas sobre a relação dessas causas com a mídia.

O Brasil que chorava a falta de imprensa nas suas coberturas populares, citando Agenda Setting e alguns estudos absolutamente desconexos, finalmente contou com apoio “daquelas sete famílias que dominam os meios de comunicação”. Às 19h15, todas as cinco redes nacionais exibiam imagens da manifestação, até então pacífica. Até mesmo o SBT fez o solene esforço de abandonar seus enlatados aborrecidos para levar um pouco de informação ao público. A audiência caiu, é verdade, mas lá estava ele. A Globo derrubou sua novela das 18 horas pra exibir um Plantão. A Record e a Band fizeram coberturas extensas, a exemplo do quinto dia, relatado aqui.  A RedeTV!, que sempre teve bom de jornalismo, cancelou parte de seus programas. Poderiam não caminhar lado a lado com quem lotava as ruas de São Paulo, mas não ofendiam, não diminuíam, não desencorajam o movimento.

Qual a reposta de um grupelho de vândalos – justamente o que exige o fim das concessões de algumas redes em nome de uma democracia curiosamente totalitária? Violência, é claro. Incendiaram um carro da Record. Agrediram Caco Barcelos. Jogaram vinagre na repórter Rita Lisauskas, da Band.

A imprensa reacionária e fascista fez algo? Não. Fez questão de ressaltar que as ocorrências partiram de exceções. De gente que não representa o espírito das dezenas de milhares de pessoas que lotaram a Praça da Sé por uma mobilização. Nem os saques foram capazes de mudar a postura das emissoras. De todas elas. Que formaram, repito, um verdadeiro pool antes dos telejornais do horário nobre.

As ocorrências de São Paulo não foram as únicas. Infelizmente, as exceções, lideradas por partidos políticos que não batem, somados, 1% da preferência, também agiram em outras capitais e também em cidades do interior. No SBT Brasil de hoje, 19 de junho, várias pessoas atrapalhavam a entrada ao vivo de um repórter no Rio de Janeiro para berrar “mídia fascista e sensacionalista”. “Mídia fascista e sensacionalista”? O SBT? Perdão, mas só se a Vovó Mafalda for reacionária. Como ela só anunciava desenhos, confesso não ter reparado antes, mas prometo me concentrar daqui pra frente.

De qualquer maneira, fica uma questão, que certamente ficará sem resposta, para essas virtuosas e exaltadas exceções: a mídia só vai ser aceita quando for controlada por vocês e seus pares? Se essa é a veia democrática de vocês, sinto em dizer, mas vocês são mais reacionários e fascistas que todas as famílias do Brasil. Donas ou não de meios de comunicação.

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“Caro Francis”

Francis faleceu em 1997.

Francis faleceu em 1997.

 

O brasileiro é naturalmente adepto ao conchavo. Ao acobertamento. Ao silêncio escuso. Ao oportunismo barato. Este temperamento viciado e covarde, carregado em berço esplêndido, jamais acabará. É fator de identidade nacional. Tão influente quanto o batuque em nossas manifestações artísticas, é o atestado para o fisiologismo de nossos líderes.  Não por acaso, sempre encontrou poucos opositores. Cada vez mais raros.

Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, o Paulo Francis, era um desses incomuns exemplares avessos ao conformismo e ao caráter flexível dos brasileiros. Do trotskismo ao casamento com o capitalismo, nunca traiu o princípio básico para a construção de um país maiúsculo. A manifestação. A troca de ideias. A fundamentação da opinião.

“Caro Francis”, documentário de Nelson Hoineff, carrega em seus 98 minutos a alma do jornalismo opinativo brasileiro. Paulo Francis, por décadas, foi soberano no dever de opinar. Em todas as empresas onde trabalhou, sempre fez uso de uma única matéria-prima: a ousadia de discutir. Debater. Sem medo de mudar de ideia.

Diferentemente do esperado pelos detratores, o roteiro do documentário não foge de tópicos desagradáveis nem romantiza o caso Petrobrás. Os amigos participam, claro, mas não houve qualquer restrição aos inimigos. Até mesmo Fernando Jorge, que sempre acusou o jornalista de ser plagiário, participou. Para repetir a mesma acusação de sempre, mas participou. O fracasso literário de Francis foi outro assunto honestamente abordado. Como era de se esperar, a lente que abordou o profissional da opinião permitiu ao espectador opinar sobre o homem retratado. Crítica é apenas crítica, afinal.

Em um país como o Brasil, onde os blogueiros sentem orgulho de defender o governo,  o jornalismo virou sinônimo de bajulação e o pluralismo se tornou desculpa para perseguir veículos de comunicação com orientações ideológicas diferentes, o Caríssimo Paulo Francis faz mesmo muita falta.