Quando o tosco não é engraçado

Peça de "Vai Que Cola".

Peça de “Vai Que Cola”.

Topa um exercício, leitor?

Feche os olhos. Esvazie a cabeça. Por gentileza, lembre todos os personagens de “A Praça é Nossa” que você odeia. Dois minutos é tempo mais que suficiente. Agora, imagine todos esses seres abarrotados de bordões falando ao mesmo tempo, com a gargalhada de Carlos Alberto de Nóbrega servindo de BG.

Você me odeia, leitor. Tem toda a razão.

“Vai Que Cola”, a sitcom do Multishow, pode ser resumida no exercício acima. Oito personagens óbvios estão reunidos em uma pensão na zona norte do Rio de Janeiro. Em um palco giratório, perfilam todas as minorias do humor. Tem o ladrão, a piriguete, o cidadão com os olhos saltados, o bonitão burro, o homossexual, a moça que não tem falas porque é bonita, a obesa divertida e a mãezona. Faltou apenas o brasileiro sonhador, aquele que emenda treze frases sobre superação e se despede sambando, mas não duvido que apareça um até o fim da temporada, lá por agosto.

O episódio piloto, exibido na segunda-feira (8), 22h30, teve quase uma hora de duração, o dobro de uma sitcom tradicional. Apesar da extensão inflacionada, simplesmente não ri das piadas cantadas pelo elenco. Desaprovei o trocadilho do lutador de boxe que virou bandido e acabou preso no primeiro assalto. Ignorei as gracinhas com “tcheca” e “pinto”. Cochilei na piada sobre corrupção.  Lamentei a reciclagem dos menes do Facebook. Nem o fator “tosco”, capaz de agregar algum riso a sitcoms deploráveis, como “Reba” e  “Dharma & Greg”, conseguiu colaborar. Enfim, tudo fica mesmo mais difícil quando um roteirista faz malabarismo para encaixar a sacada “Eu trabalho com reprodução. Faço Xerox”.

O esforço dos profissionais envolvidos na série para transformá-la em um “Sai de Baixo” moderno foi outro problema grave. Paulo Gustavo realmente acredita que é um Miguel Falabella. Não é. Pode ser um dia, mas hoje a diferença é abissal. Suas improvisações no já ruim texto de “Vai Que Cola” tornaram o espetáculo ainda mais embaraçoso diversas vezes. Ele pode argumentar que o público presente na gravação deu risada o tempo todo. É verdade. Mesmo quando os atores erravam as falas era possível ouvir a reação dos espectadores. Mas também é preciso lembrar que brasileiro aplaude pôr do sol, hino nacional e Bruno Mazzeo.

O Multishow encomendou 40 episódios de “Vai Que Cola”. A gargalhada do Carlos Alberto de Nóbrega faria diferença.

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O Chapolin Colorado da Globo

Marcelo Adnet começou mal.

Marcelo Adnet começou mal.

 

Espero sinceramente que na última sexta-feira você tenha feito algo melhor do que assistir a estreia  de “O Dentista Mascarado”, a atual aposta de modernização da dramaturgia global.

Para quem suspeitava ter sintonizado o fundo do poço quando testemunhou “Como Aproveitar o Fim do Mundo”, os cerca de 40 minutos da nova série não poderiam ser piores. Nem mais monótonos.

Fernanda Young, uma das criadoras do projeto, também envolvida na tragédia citada acima, é provavelmente a maior culpada pelo resultado final. Certa vez, o programa de Luciana Gimenez instalou um “palavrômetro” para registrar os impropérios repetidos por Dercy Gonçalves em um especial preparado para a comediante. Pois bem. A ideia poderia muito bem ter sido replicada pela Globo durante o piloto de “O Dentista Mascarado”. Afinal, o que mais se repetiu nas falas foi a palavra “merda”, com uma ou outra variação para “bosta”.

Não é uma reclamação puritana. Pelo contrário. Palavrões são sempre bem-vindos. Algumas das passagens mais felizes de Tony Soprano, o auge da TV,  têm pelo menos 30 segundos de ofensas.  Eles conferem legitimidade. O problema é confundir maturidade de discurso com uma dúzia de “cocô”. Ou dois “PQP”. Fernanda Young acha que os palavrões dos textos dela trazem alguma profundidade para seu trabalho. Funciona? Claro que não. A impressão é de que Fernanda Young quer ser uma mistura de Tina Fey com Larry David. O que ela precisa saber é que não passa de um grosseiro pastiche de Dercy Gonçalves com torcedor do Palmeiras.

Marcelo Adnet não foi uma decepção. Porque não se pode esperar nada do Marcelo Adnet. O auge dele foi um programa de 15 minutos na MTV. Ele imitava Silvio Santos cantando Guns. Depois imitava Silvio Santos cantando um sucesso do axé. Quando o homem do baú cansava, e imitadores de Silvio Santos sempre cansam, ele colocava o José Wilker em uma situação inusitada. É um formato de humor absolutamente honesto e, sim, muitas vezes engraçado. Porém, absolutamente oposto à ficção. Não adianta nada colocar Otavio Augusto e Diogo Vilela pra contracenar com um humorista que não sabe interpretar. E é estranho a Globo, referência em novelas, não notar isso.

“O Dentista Mascarado” não causa gargalhadas. No máximo um sorrisinho amarelo aqui e acolá, mérito exclusivo de Tais Araújo, que soube fazer uso das piadas de salão entregues a ela. Além de não gerar risadas, a série não instiga. Nem convence. Algumas passagens da série foram mais cínicas e forçadas que aquela redação do ENEM patrocinada pela Nissin Lámen, por exemplo. O Brasil continua sem sua “Curb Your Enthusiasm”, mas já pode comemorar, porque tem um Chapolin Colorado para chamar de seu. É essa a nossa inovação.