Aquele da sitcom mais popular de todos os tempos

Friends: todo ano a Warner lança uma caixa comemorativa de DVDs e Blurays.

Friends: todo ano a Warner lança uma caixa comemorativa de DVDs e Blu-rays.

Friends é a pior sitcom da TV americana. Repito. Friends é a pior sitcom da TV americana.

Por que eu repeti a frase acima? Pra ilustrar a estratégia – bem sucedida, reconheço – da série produzida pela Warner entre 1994 e 2004.

Quantas vezes Joey, Phoebe, Ross, Chandler, Monica e Rachel viveram as mesmas situações? É muito comum os jornais brasileiros classificarem as sitcoms como produtos imutáveis. Isto é enganar o leitor. Sitcom não é sinônimo de repetição de situações. O “situation” é cenário, local, o ecossistema da história, não um déjà-vu de roteirista preguiçoso. Vide The Office, série de Ricky Gervais que conseguia um excelente resultado na versão americana (a original é inglesa, protagonizada pelo próprio Gervais) até Steve Carell se despedir do elenco.

Ela é a única sitcom a trabalhar na base da rebobinagem? Claro que não. “Two And A Half Men”, “Dharma & Greg”, “Reba”, “Son Of A Beach” e outras dezenas fazem uso do mesmo truque.  Porém, nenhuma das produções citadas é fraca como “Friends” no conjunto artístico.

Matt LeBlanc é uma espécie de André Marques brasileiro. Consegue, sem esforço, bater Billy Gardell e Thomas Gibson na escala Augusto Boal de vergonha alheia.  Lisa Kudrow e Courtney Cox nem parecem atrizes.  Mesmo enfiadas em roteiros fraquíssimos, como “PS Eu Te Amo” e “Cougar Town”, foram incapazes de obter destaque. Se elas se aposentaram, ninguém reparou.

Para compensar o looping de piadas e a charlatanice dos intérpretes, os fãs de Friends abusam do argumento “a série é boa porque simboliza a amizade”. Amizade não é isso. Série boa não é isso.

O bom negócio da HBO

"O Negócio": novo drama da HBO.

“O Negócio”: novo drama da HBO.

A HBO aprendeu com o erro de “FDP”.

Sua nova série, “O Negócio”, focada em um grupo de prostitutas que aposta em ações de marketing para turbinar a lista de clientes, passou longe da tentação do estereótipo.

Não há vitimismo, crítica social ou filosofia barata a respeito do direito de vender o corpo. Nem análise ideológica do papel da propaganda no homem contemporâneo.

As personagens, dúbias sob o aspecto moral, demonstram o tempo todo controle sobre o que pensam e fazem, ignorando o caráter duvidoso de suas opções e a influência deste comportamento à imagem delas. São o que são. Cobram o que pensam valer.

Ao focar a psicologia em detrimento da sociologia, “O Negócio” manda um ótimo recado: há espaço para uma ficção menos romântica na TV.

O que você não deve assistir no fim de semana #4

A expressão do cão explica tudo.

A expressão do cão explica tudo.

Comédias, “prestação de serviço” e azia em hospital.

Eis o resumo do que você deve evitar ao zapear neste fim de semana.

Fique longe de…


Missão Madrinha de Casamento

TC Pipoca, Sexta, 23h50

Por que não assistir? É um “Diário de Bridget Jones” com gente mais chata. Aqui, o objetivo da protagonista nem é o amor, mas sim ser madrinha de casamento da melhor amiga – daí o título, que lembra produções da Disney. Ao que parece, as mulheres encalhadas não se contentam em ter azar no amor. Elas também fazem questão de ter azar na hora de virar filme.


Billi Pig

TC Fun, Sábado, 20h05

Por que não assistir? Só considera positivo o derrame de filmes nacionais quem não os assiste. Prova cabal de minha teoria é o filme “Billi Pig”. Grazi Massafera e Selton Mello (quando ele vai parar?) interpretam um casal que se envolve com um traficante para realizar o sonho da vida mansa. Seu sonho ao cruzar com este longa vai ser o de apertar o “power” do controle remoto em tempo recorde.


Marley & Eu 2

TC Fun, Sábado, 22h

Por que não assistir? Porque assistir sequência de filme ruim não diminui a passagem pelo purgatório. Faça como Owen Wilson e Jennifer Aniston: ignore.


Missão Pet

NatGeo, Domingo, 12h

Por que não assistir? A versão “made in Brazil” de “O Encantador de Cães” é liderada por um veterinário mais new age que a Enya.


Grey’s Anatomy

Sony, Domingo, 20h

Por que não assistir? “Grey’s Anatomy” devolveu às séries médicas uma porção de estereótipos que nunca deveriam ter saído da quarentena.

Series finale de “House” foi certeiro

English: 2009 FOX WINTER TCA: (L-R) Hugh Lauri...

 Hugh Laurie  durante gravação

Séries icônicas, relevantes, como é “House”, raramente agradam em seus finais. Baseadas em uma abordagem psicológica dos personagens, o norte  do ensemble show, elas acabam sem respostas claras. Sem o letreiro “fim” acompanhado por música festiva.

É verdade que no caso específico de “House” não existe tristeza no minuto derradeiro. House e Wilson resolvem sair por aí. Um morreu – legalmente – e o outro em breve seria derrotado por um câncer terminal. Assim, decidem aproveitar ao máximo a lindíssima amizade iniciada em 2004. Mas a que custo surgiu a falsa impressão de felicidade ilustrada?

Vejamos. “Everybody Dies” começa com nova crise do médico. Melhores que os embates de House com pacientes, equipes, diretores, cidadãos e psicólogos são seus embates internos. Deles surgiram duas passagens maravilhosas da série: a brilhante analogia da morte registrada em “Wilson’s Heart” e o tilt do final da quinta temporada, quando ele alucina.

Aqui, o flerte com o suicídio foi novamente intenso. Amber, a asa negra de House nas cenas clássicas citadas acima, volta a provocá-lo. Não só ela, aliás. Em um esforço valioso, alguns dos nomes já “aposentados” no seriado voltaram para participações especiais. Cuddy, questão contratual bem resolvida e divulgada, não compareceu. Nem precisava.

Ele se recupera a tempo, é claro. Renova as forças e vai adiante. Alguns fãs o compararam à fênix. Uma grande bobagem, porque a retomada é válida apenas até a próxima crise. O personagem simulou a própria morte, sacaneou Wilson durante o funeral de mentirinha, mas continua preso a seus temores de solidão, que só vão piorar. Afinal, ele perderá o melhor amigo. É irreversível. Logo, não tem letreiro “fim” acompanhado por música festiva. O “people don’t change” é um mantra metalinguístico.

Muitos viam em “House” a história de uma pessoa complexa em busca da alegria. Em nenhum momento isso foi passado por David Shore, criador deste que é o melhor drama produzido para a TV aberta americana desde Twin Peaks. A série sempre abordou algo muito mais interessante: a incapacidade de ser feliz. Atrás do humor negro, da inteligência emocional e da personalidade apurada interpretada pelo genial Hugh Laurie havia alguém interessado em encarar a vida como todos vivem. Não porque é melhor, mas sim por ser mais fácil. Menos doloroso.