O que você não deve assistir no fim de semana #13

"O Palhaço" tentou vaga no Oscar. Riram da cara dele.

“O Palhaço” tentou vaga no Oscar. Riram da cara dele.

“Glee – O Filme”
Sexta, 10h55, Telecine Fun

Por que não assistir?  fosse brasileiro, “Glee” seria uma mistura de “Malhação” com os calouros do Raul Gil. O show traz os personagens interpretando os singles mais bem sucedidos dos primeiros anos de série, como “Don’t Stop Believin’”,  “I’m Slave 4 U” e “Teenage Dream”. Em algum momento da apresentação será exibida uma homenagem (vingança?) para Amy Winehouse. A produção é gravada como se fosse um documentário, apenas com imagens colhidas durante a turnê Glee Live! In Concert. É um bom sinal, porque livra os adultos de cenas vergonhosas. Afinal, se não é possível se convencer de que aqueles jovens são cantores, é menor ainda a certeza sobre o talento deles enquanto atores.

“Nixon”
Sábado, 16h20, Telecine Cult

Por que não assistir? A maior punição imposta a Nixon foi ter sua história contada por Oliver Stone. O ar caricato do ex-presidente, interpretado por Anthony Hopkins, as entrelinhas revolucionárias do diretor e a edição arrastada contaminam por inteiro a obra. Não serve como registro histórico, não serve para entreter. A quem se interessa pelo assunto, uma dica: “Frost/Nixon”. Este, sim, um filme de verdade. E legitimamente venal em relação ao ex-presidente americano.

“O Palhaço”
Sábado, 22h00, Telecine Cult

Por que não assistir? História de um palhaço que pensa não ter mais graça e parte rumo a um novo sonho. O palhaço em questão é interpretado por Selton Mello. Ele fica o filme todo com aquela expressão de homem traído na própria cama, para demonstrar seu talento. Amigo palhaço, fique tranquilo. Enquanto houver cinema nacional, você sempre será um pouco engraçado.

“Kate + 8”
Sábado, 23h59, Discovery Home & Health

Por que não assistir? Tudo vira reality show nos Estados Unidos. “Kate + 8” acompanha a mãe de sêxtuplos e gêmeos. Com aquele insuportável toque cultural dos programas americanos (o episódio que vai ao ar neste dia, por exemplo, traz uma visita da gangue a um museu), queima 30 minutos na cara grande. Há quem goste, ache inusitado, mas, sinceramente, se a Kate esqueceu de tomar a pílula, por que a TV deve pagar o pato?

“Clássicos”
Domingo, 11h45, Cultura

Por que não assistir? A Cultura odeia seus telespectadores. Por que diabos exibir reprises de sinfonias quase na hora do almoço?  Quem não cochilar em cima do prato de macarronada corre o risco de morrer de azia com “Doctor Who”, às 14h30.  Alguns traços são absurdamente justificados.

“Sessão de Terapia” e o mito Selton Mello

"Sessão de Terapia" é a principal série do GNT.

“Sessão de Terapia” é a principal série do GNT.

Como todos sabem, uma lei entrou em vigor no fim de 2012 obrigando a TV paga a exibir uma cota de programas nacionais. Graças a ela, nós, assinantes, fomos agraciados com 8 reprises mensais de “2 Filhos de Francisco” e uma enxurrada de séries nacionais. Uma pior que a outra. Uma mais pitoresca que a outra. Entre elas, uma se destacou por ser especialmente equivocada – e festejada.

Adaptada e dirigida por Selton Mello, o Silvio Santos da dramaturgia brasileira, “Sessão de Terapia” foi lançada no GNT com a promessa de amadurecer as produções nacionais. Muitos colunistas de TV compraram a ideia e fizeram o que estão acostumados a fazer: elogiar sem ver. A série chegou a ser comparada qualitativamente à versão original, assinada pelo israelense Hagai Levi. Nem a Palestina provocaria tanto.

A verdade é que “Sessão de Terapia” não tem nada de “BeTipul” ou “In Treatment”, sua versão mais famosa. Apenas sua estrutura, como não poderia deixar de ser, é igual. Psicoterapeuta atende de segunda a quinta-feira quatro pacientes. Na sexta-feira, reciclagem, com o especialista visitando sua orientadora.

Zécarlos Machado interpreta Theo, o doutor da versão brasileira. Sua expressão cansada, acompanhada pelo tom de voz de atendente da “LBV”, já seria suficiente pra induzir os pacientes ao suicídio. Infelizmente, eles resistem. Justamente por serem tão ou mais decepcionantes.

Maria Fernanda Cândido é a cliente com medo de relacionamentos. Na história, ela abre a semana de atividades do consultório do Dr. Theo, a quem nutre sentimentos. Cada suspiro de sua personagem dura, em média, 30 segundos. Não por charme, mas por absoluta inoperância na interpretação. Sua melancolia é facilmente confundida com autismo.

Sérgio Guizé, o único ator da série a entender o sentido de ambiguidade, tem em mãos o papel do atirador de elite que mata uma criança e começa a sentir o peso do erro. Não encanta, porém não piora o nível do programa. Caso bem diferente de Bianca Muller, a paciente das quartas-feiras, uma adolescente ginasta que começa a frequentar a terapia após um acidente de trânsito.

Péssima atriz, Muller, declarada aposta de Selton Mello, chama atenção ao confundir dramaticidade com berros. Em um dos episódios, após tentar o suicídio, ela vai à sessão acompanhada pela mãe. Os diálogos e as interpretações beiram as simulações exibidas pelas igrejas evangélicas.

Mariana Lima e André Frateschi formam um casal em dúvida sobre a vida a dois e a decisão de abortar ou não o iminente filho. As brigas conjugais são indignas de qualquer nota positiva, bem como a interação com o terapeuta. Uma semana de aprendizados em “Malhação” faria bem aos profissionais.

Selma Egrei, intérprete da orientadora é, apesar da participação em “Nosso Lar”, uma atriz respeitável, o que explica a discreta melhora da série nos episódios das sextas. Maria Luísa Mendonça, convidada para viver a esposa de Theo, não é um destaque porque ainda não aprendeu a aparecer na TV sem cara de assustada. Creio que nunca aprenderá.

A trilha sonora da série é outro problema. Planejada para favorecer os dramas, ela só amplia o mal estar. O contraste da  personalidade da música com a surdez dos personagens é um espetáculo deprimente que eu não recomendo a ninguém.

Assim, o único elemento de boa sorte presente em “Sessão de Terapia” é mesmo o nome de Selton Mello nos créditos. A garantia de sua longevidade (a segunda temporada estreia em setembro) não reside em sua qualidade ou nos índices de audiência, mas sim nas onze letras de seu diretor, cujo esforço em ser relevante resultou em uma espécie de escudo contra críticas.

Como o jogador ruim de bola que vira ídolo da torcida por demonstrar raça, Mello virou o mito de um país carente de novidades no cinema e na TV. Direção de videoclipe, participação em filme, presença na série especial da Rede Globo, eliminação precoce na briga pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Ele está em todas. Para o Brasil, o importante não é vencer, mas ter alguém disposto a pintar a cara com suas cores. Alguém disposto a tentar. Pode ser que Selton Mello nunca acerte um projeto na vida. Mesmo assim, será para sempre o grande mito da renovação de nossa cultura audiovisual. Porque tentou. Porque tentou sem pedir a ajuda de ninguém.

Por conveniência, aplaudimos qualquer pessoa.