A roda do “Esquenta”

Regina Casé conseguiu um programa pior que "Muvuca".

Regina Casé conseguiu um programa pior que “Muvuca”.

Arlindo Cruz acaba de aparecer em meu televisor.

Ele é o anfitrião de “Esquenta”, projeto exibido pela Globo antes do futebol, aos domingos.

Criado para aproximar a maior emissora do país ao grupo socioeconômico objeto do desejo, a classe C, o projeto não economiza nas gírias e gatilhos populares para jurar amor eterno ao povo.

Em 21 de setembro, por exemplo, o espirituoso redator do programa inseriu no script do sambista a frase “entra na roda, Regina Casé”.

A originalíssima tirada era um chamado para o tema daquela edição de “Esquenta”: a capoeira.

Vestida como um atabaque, a apresentadora obedeceu prontamente o pedido do colega de palco, que estava coberto de correntes e atrofiado em um sofá.

Antes de colocar água no feijão, Regina chamou seus convidados famosos, aqueles que, no fim das contas, tomam conta dos quase 90 minutos de gravação.

Paula Fernandes foi a primeira. Ovacionada, parecia não entender a reação do público. O que faz sentido, se considerarmos aquela voz insuportável e as letras enfadonhas.

Rodriguinho veio a seguir. Ex-vocalista do Travessos, grupo de pagode famoso em 2000, ele é um reconhecido compositor de músicas românticas. Ou pensa ser. Ou pretende ser.

MC Marcely, funkeira cheia de atitude, também conversou com Regina. Não escreverei nada sobre o encontro porque o dialeto praticado por elas era impraticável. Deborah Secco também estava lá, perdida em um ponto distante, ao lado de pessoas cujos nomes eu convenientemente deixei de anotar.

Beth Carvalho fechou a escalação. Há muito tempo sem lançar sucessos, ela tem se especializado em conceder entrevistas absurdas. Em 2011, para o iG, afirmou, por exemplo, que as armas nas favelas cariocas são enviadas pelos americanos “para acabar com a cultura dos morros”. E que Cuba não precisa de um segundo partido político porque é um “contra todo o imperialismo dos Estados Unidos”. Democracia na laje.

Sem precisar creditar mais ninguém do império dos artistas, a eterna musa de “Os Sete Gatinhos” começou a importunar os capoeiristas enfileirados no palco, àquela altura atordoados pelas bobagens ali repetidas.

Primeiro, Regina classificou a capoeira como “esporte da liberdade”. Logo depois, mudou o título para “esporte da inclusão”. Quando ensaiava um terceiro poder para o esporte, o que o colocaria em condição de rivalizar com o Capitão Planeta, acabou interrompida por uma demonstração ensaiada pelos coitados dos atletas.

Como nos musicais do Castelo Rá-Tim-Bum, os versos que embalaram a roda de capoeira ganharam legendas coloridas. Não sei se foi uma maneira da Globo chamar a classe C de analfabeta. De fato, há todo um esforço dos presentes em espancar a concordância nominal. Contabilizei dois “As pessoa” durante o show. Um deles rolou durante o merchandising de uma empresa de refrigerantes.  Porém, o pisca-pisca pode, com facilidade, ser também uma tentativa de relacionar o grafismo ao guarda-roupa de Casé.

Infelizmente, o humor em “Esquenta” vai além da coloração do cabelo de Beth Carvalho. No meio do programa, uma personagem (?) resolve implicar com os outros para uma daquelas brincadeiras voluntárias muito voluntárias. É quase o mesmo recurso utilizado pelo Café com Bobagem em 1999, quando os intervalos do “Domingo Legal” eram gravados e redublados. A referência causava riso pela grosseria. A versão nova causa tristeza.

Por fim, há um quadro de sabedoria popular. No caso, nada de português ou matemática, mas sim aquelas sacadas geniais que colocam o país em penúltimo lugar no ranking de conhecimento – e em último no ranking de criatividade.

De olho no talento e no incentivo profissional, a produção se encarregou de trazer três marmanjos vestidos de dinossauro. O festival de pulos e roncos garantiu 15 pontos de audiência – um acima da média obtida pelo programa todo.

Apesar de ilustrar a classe C como uma horda de brasileiros sorridentes, avulsos e interessados em futilidades, “Esquenta” é celebrado pelo público – e pela própria Globo – como uma resposta ao elitismo da TV aberta. Tenho certeza que os americanos têm alguma coisa a ver com essa história.

O harém de Khaled

Khaled tocou em todas as rádios de São Paulo. Desde a rádio moderna até a rádio popular, todos executaram "El Arbi".

Khaled: o disco dele chegou ao top 10 de álbuns mais vendidos em São Paulo e Rio de Janeiro.

Você lembra do argelino Khaled?

No fim de 1999, muito antes de Glória Perez lançar “O Clone”, o Brasil viveu uma desagradável onda “arabian nights”.

Dono do hit “El Arbi”, ele apareceu em todas as paradas de videoclipe imagináveis e embalou animados quadros de dançarinas do ventre.

Para celebrar tamanho sucesso, sua gravadora o convocou para uma turnê pelos programas de TV mais queridos e populares do Brasil.

O vídeo abaixo traz a gloriosa a apresentação dele em uma edição de 2000 do “Domingão do Faustão”.

Notem, antes de qualquer coisa, a cara de turista bobo do cantor. A impressão que fica é a de que ele não abandonaria o sorriso mesmo que estivesse no Largo de Osasco. Ou ao lado de Eduardo Suplicy em um concurso de covers do Bob Dylan.

Por fim, reparem no recorde obtido por ele durante seu número (o primeiro corte de Faustão aparece com mais de 2 minutos de vídeo), e na abordagem muito elegante de Regina Casé, que praticamente empacotou o homem no palco para sair, logo em seguida, sacolejando como um trem da linha 7 da CPTM.

Em tempo: como era rotina naquela época, Faustão não venceu Gugu, apesar do inusitado espetáculo.