Adeus, Globo

Sorria, você viu a peça revolucionária mais popular do Brasil

Sorria, você viu a peça revolucionária mais popular do Brasil.

Assisti ao programa do Marcelo Rezende por quase um mês. Esforço mínimo se comparado ao embate de doze horas com a TV Brasil, registrado aqui. Afinal, a TV estatal não tem um apresentador mal humorado – só um comentarista meio caduco. Ou o lente nervosa (não é o Michael J. Fox). Ou a menina que se esquece de botar “exclusivo” na tela. Eu, por exemplo, trocaria o Guido Mantega por qualquer um desses seres. E o Ministro da Pesca, cujo nome nem a Dilma Rousseff sabe.

Sou um quebrado do tipo que leva jornal do Extra ao Carrefour pra cobrir o preço do sabonete, mas não me obriguei a ver o “Cidade Alerta” porque cortaram a TV a cabo de casa. Ok, cortaram sim. Mas havia uma razão sociológica embasando essa escolha. Queria entender a “onda de protestos” tupiniquim. Compreender a primavera brasileira. Pena o esforço ter sido inútil.

Entre a cobertura da Record e as informações colhidas na internet, aprendi somente três coisas. A primeira: o GC atrapalha a visão do Marcelo Rezende. A segunda: o discurso das manifestações foi sequestrado mais vezes que o Silvio Santos. A terceira: qualquer grupelho com faixas pode bloquear uma via pública para defender algo estúpido – da esquerda CHAUÍnista à direita bolsonariana.

Hoje, 1º de julho, o gigante inicia uma nova batalha. Agora é a TV Globo quem aparece na mira. Segundo os participantes cadastrados na página do Facebook, ponto de encontro dos revolucionários, a luta encampava a alienação, a manipulação e o direito à livre informação. Um dos mais atuantes do grupo, que ainda não consegui identificar se era homem, mulher ou o Laerte, alertava sobre uma grave conspiração das elites. Como eu fui o último do colégio a reparar que Bentinho sentia ciúme do Escobar – quando eu enfim caí na real um pessoal da minha sala já tinha até redigido um manifesto pela ausência do beijo gay -, resolvi não me pronunciar. Apenas imaginei Amaury Jr e o elenco de “Mulheres Ricas” engatando um golpe regado a champanhe. É a temida elite brasileira, amigos.

De fato, existem vários motivos para se detestar a Globo. Eles nunca acertaram uma série dramática em quase 50 anos de trajetória. Editaram “Twin Peaks” com as mãos do Edward.  Exibiram “Damages” às 3 da madrugada. Nunca orientaram o Arnaldo Jabor a incendiar as matrizes daqueles filmes horríveis dele. Deixaram a Regina Casé apresentar um programa dominical.

Conforme as queixas foram surgindo, notei que nada esbarrava na alienação, na manipulação. ou no direito à livre informação. Diferentemente do chamado no Facebook, ninguém fantasiado aparece na tela da Globo me obrigando a fazer algo. Diferentemente do chamado no Facebook, a Globo não adultera grosseiramente números para referendar suas ideias, por piores que elas eventualmente possam ser. Diferentemente do Facebook, a Globo nunca pediu a expulsão de concorrentes com linha editorial dissonante. No máximo, esticou a novela das 9 para ampliar a liderança. Preservou um jogador do BBB.

Os jovens – sim, sempre são os jovens – metidos no tal “Dia sem Globo” querem expulsar a emissora do país porque “ela é danosa para a mente e o coração progressista do povo”. Não sei quem inventou que o brasileiro é um progressista de corpo e alma, mas este  estúpido argumento, mais rodado que a frota da Viação Sambaíba, é evocado pelo menos quatro vezes por ano. Você talvez não se recorde, mas já estamos no segundo “Dia sem Globo” de 2013. O primeiro aconteceu em abril, puxado pelos evangélicos, cansados com o – segura o riso – progressismo da emissora a respeito do casamento gay. O resultado? Nenhum. A Globo, progressista no trajeto de ida, reacionária no trajeto de volta, continuou líder.

Apesar do insucesso do “passe livre” do ibope, é preciso reconhecer: nem tudo é balela dentro do “Dia sem Globo”. Ele também tem seu lado versado. No país da poltronice intelectual, o mais sábio é aquele que cria conflito no centro da poltrona. Sem precisar levantar a bunda. Ler jornal é um choque de realidade. Abandonar o romantismo político do professor de Geografia do Ensino Médio está fora de cogitação. Enxergar o mundo sem o antagonismo entre esquerda boa e direita má é um ultraje ao projeto folhetinesco, poético, dos neologismos e protofascismos. Neste sentido, estes brasileiros com ânsia cidadã coçam as frieiras dos dedos do pé na mais santa paz. Porque combatem a própria preguiça e a própria ignorância restringindo os próprios vícios e mazelas à inerte imagem do Louro José.

No fim das contas, a única conclusão possível é a de que o “Dia sem Globo” não foi inventado para dar certo. Ele existe apenas para fingir que alguém se importa com o país. É a ficção do gigante que poderia ter sido, mas optou pelo “nunca vou ser”. No Brasil, o verbo mudar só é empregado nas causas que não podem ser executadas. Não por acaso. Ninguém quer ter trabalho. Ninguém quer perder a novela do nosso retumbante fracasso.

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FHC supera audiência de Ivete Sangalo no “Canal Livre”

FHC na Band: maior audiência do "Canal Livre" em 2013.

FHC na Band: maior audiência do “Canal Livre” em 2013.

A participação de Fernando Henrique Cardoso no “Canal Livre” de ontem, 23 de junho, garantiu média de 3,3 pontos no ibope para a Rede Bandeirantes. O resultado, três vezes acima da média habitual do programa, superou a edição especial dedicada à cantora Ivete Sangalo, que bateu 2,7 pontos, até então o recorde da atual temporada.

Durante a entrevista, que pode ser conferida aqui, o ex-presidente abordou, entre outros assuntos da esfera política, as manifestações populares realizadas que têm acontecido recentemente no Brasil e o trabalho de Dilma Rousseff no Governo Federal.

A revolução foi televisionada – Parte II

A democracia fumegante e incandescente de alguns brasileiros.

A democracia fumegante e incandescente de alguns brasileiros.

O sexto grande ato contra a tarifa, realizado ontem, dia 18 de junho, em São Paulo, foi o mais curioso de todos. Porque rompeu com teorias manjadas e estúpidas para lançar novas teorias manjadas e estúpidas. Não sobre causas sociais, mas sobre a relação dessas causas com a mídia.

O Brasil que chorava a falta de imprensa nas suas coberturas populares, citando Agenda Setting e alguns estudos absolutamente desconexos, finalmente contou com apoio “daquelas sete famílias que dominam os meios de comunicação”. Às 19h15, todas as cinco redes nacionais exibiam imagens da manifestação, até então pacífica. Até mesmo o SBT fez o solene esforço de abandonar seus enlatados aborrecidos para levar um pouco de informação ao público. A audiência caiu, é verdade, mas lá estava ele. A Globo derrubou sua novela das 18 horas pra exibir um Plantão. A Record e a Band fizeram coberturas extensas, a exemplo do quinto dia, relatado aqui.  A RedeTV!, que sempre teve bom de jornalismo, cancelou parte de seus programas. Poderiam não caminhar lado a lado com quem lotava as ruas de São Paulo, mas não ofendiam, não diminuíam, não desencorajam o movimento.

Qual a reposta de um grupelho de vândalos – justamente o que exige o fim das concessões de algumas redes em nome de uma democracia curiosamente totalitária? Violência, é claro. Incendiaram um carro da Record. Agrediram Caco Barcelos. Jogaram vinagre na repórter Rita Lisauskas, da Band.

A imprensa reacionária e fascista fez algo? Não. Fez questão de ressaltar que as ocorrências partiram de exceções. De gente que não representa o espírito das dezenas de milhares de pessoas que lotaram a Praça da Sé por uma mobilização. Nem os saques foram capazes de mudar a postura das emissoras. De todas elas. Que formaram, repito, um verdadeiro pool antes dos telejornais do horário nobre.

As ocorrências de São Paulo não foram as únicas. Infelizmente, as exceções, lideradas por partidos políticos que não batem, somados, 1% da preferência, também agiram em outras capitais e também em cidades do interior. No SBT Brasil de hoje, 19 de junho, várias pessoas atrapalhavam a entrada ao vivo de um repórter no Rio de Janeiro para berrar “mídia fascista e sensacionalista”. “Mídia fascista e sensacionalista”? O SBT? Perdão, mas só se a Vovó Mafalda for reacionária. Como ela só anunciava desenhos, confesso não ter reparado antes, mas prometo me concentrar daqui pra frente.

De qualquer maneira, fica uma questão, que certamente ficará sem resposta, para essas virtuosas e exaltadas exceções: a mídia só vai ser aceita quando for controlada por vocês e seus pares? Se essa é a veia democrática de vocês, sinto em dizer, mas vocês são mais reacionários e fascistas que todas as famílias do Brasil. Donas ou não de meios de comunicação.

A revolução foi televisionada

A população visitou o Congresso. Essa é a imagem que vai estampar as casas dos jornais e revistas semanais.

A população visitou o Congresso. Essa é a imagem que vai estampar as casas dos jornais e revistas semanais.

O “5º Grande ato contra o aumento das passagens” teve extensa cobertura de Record, Globo News e Band, canais que já haviam dedicado bom espaço de suas grades nas primeiras manifestações realizadas.

A transmissão da Record teve início às 17h00, ainda no “Programa da Tarde”, revista eletrônica vespertina. Britto Jr. recebeu um dos comentaristas de segurança da rede, exibiu imagens do Comandante Hamilton e se despediu às 17h20 para dar lugar ao “Cidade Alerta”, ancorado por Marcelo Rezende.

A Globo News, primeira a exibir imagens também dos protestos de Brasília, Rio de Janeiro, Salvador e Belo Horizonte, iniciou os trabalhos às 17h15, quando cancelou a reprise do programa “Manhattan Connection”.

A Band foi a última a integrar este “pool”, por volta das 17h45, com o “Brasil Urgente”, em horário alternativo por conta da Copa das Confederações – as demais emissoras promoveram coberturas menores ou inseriram boletins em suas programações, caso da Globo, que, em algumas praças, mutilou “Flor do Caribe”.

Última a entrar no ar, a Band compensou os cerca de 60 minutos perdidos por Datena cancelando o culto de RR Soares e promovendo uma espécie de “Brasil Urgente 2”.

Cabreiro desde a quinta-feira (13), quando sofreu na mão de uma pesquisa interativa, o apresentador dosou bastante seus posicionamentos, para evitar novas surpresas. Limitou-se a informar, em parceria com Márcio Campos, os passos das manifestações nas capitais, e a divulgar mensagens para conscientizar os telespectadores sobre as situações de tensão que devem ser evitadas. Ou seja, promoveu a prestação de serviço, sempre boa opção quando o assunto é TV ao vivo.

A Globo News, disparada a melhor transmissão da TV paga, repetiu sua fórmula tradicional: espalhou a cobertura ao longo de seus programas. A transmissão começou com Sidney Rezende, foi transferida para Leilane Neubarth e obedeceu normalmente a escala de apresentadores até a entrada do “Jornal das 10”. O “Em Pauta” e a faixa segmentada das 21 horas não foram levados ao ar.

O preparo da equipe de externas chamou positivamente a atenção na maratona até as 22 horas. Os links eram bem distribuídos e aconteciam com muita agilidade. As confusões em Brasília e Rio de Janeiro evidentemente ganharam mais atenção. O ímpeto em demonstrar que uma minoria perdeu o bom senso na manifestação carioca foi o único ponto aborrecido.  Sobretudo porque o telespectador é sensível e sabe diferenciar ações planejadas e descontroles – uma multidão de 100 mil pessoas, sabemos, é muito suscetível a descontroles.

A Record fez o melhor trabalho da noite. Muito pelo desempenho de Marcelo Rezende. Existe, para alguns, a ideia de que jornalistas como ele e Datena não servem para outra coisa que não seja gritar. Ledo engano. Porque o conhecimento popular que eles ostentam é uma ferramenta invejável na hora de examinar um movimento popular.

Em sua overdose de “corta pra mim”, ele costurou o melhor relato da segunda-feira.

Apesar de brigar pelo ibope paulistano, Rezende exibiu com destaque imagens de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre e Salvador.

Nos trechos opinativos, demonstrou profundo envolvimento com o tema do transporte público. Citou reportagem da Folha de São Paulo que calculava o tempo de trabalho gasto pelo paulistano para pagar a tarifa, relacionou as incoerências governamentais e avaliou os passos dos protestantes objetivamente, sem demonizar ou romancear a notícia. Chegou a 13 pontos de pico, o que incentivou a Record a prosseguir a cobertura dentro do “Jornal da Record”.

100 mil pessoas no Rio de Janeiro. Pelo menos 70 mil pessoas em São Paulo. Mais dezenas de milhares de pessoas espalhadas país afora. A revolução foi orgulhosamente televisionada. Com seus deslizes, com seus destemperos e, mais relevante, com seus trunfos. Um dia de transparência. Com a Record, na voz de Marcelo Rezende, citando a Globo. Com a Globo, em link no Jornal Nacional, assumindo-se como objeto de protesto.

O Brasil, às vezes, nos surpreende. Para o bem.