Os dez anos do “Pânico”

"Pânico" trocou a RedeTV! pela Band em 2012.

“Pânico” trocou a RedeTV! pela Band em 2012.

Quem acompanhou a estreia do “Pânico” em 28 de setembro de 2003, na RedeTV!, dificilmente imaginaria que Emilio Surita e seus comandados celebrariam dez anos de história nos domingos da TV brasileira.

O orçamento era limitado. O alcance da emissora era reduzido. O horário escolhido para o debut era dos mais complicados – 18h30, quando o processo de ‘migração’ do futebol já havia acabado. Para piorar, não havia atração predecessora. Ou seja, o programa começava no traço. Faltava apenas o apoio público de José Serra para a causa ficar ainda mais impopular.

A invisibilidade durou cerca de nove meses. O ibope, sempre entre um e três pontos, subia à medida que o apoio da crítica crescia. Após oito anos de embate intenso entre Gugu e Faustão, finalmente havia uma novidade para ser indicada aos leitores. Uma possibilidade para a mudança. Deus e os marqueteiros políticos sabem como os brasileiros são apegados ao verbo “mudar”.

Com o sopapo aplicado por Victor Fasano em Repórter Vesgo, o ibope aferiu 9% de pico, primeiro resultado relevante. A esquete de Silvio Santos na praia bateu 10%. A saga para fazer Clodovil calçar as sandálias da humildade garantiu 13%, além do primeiro minuto da história à frente do SBT.

A acidez das piadas e a inconsequência nas abordagens lavavam a alma de um grupo saturado do bom mocismo e da bajulação a atores e cantores que já aporrinhavam a paciência durante a semana. Isso em uma época onde o ápice da subversão era criar uma comunidade marota no Orkut.

O que há de diferente entre aquele “Pânico”, da RedeTV!, e o de hoje, da Band?

Artisticamente, nada. O elenco, na verdade, é o melhor de todas as temporadas. Guilherme Santana, Christian Pior e Eduardo Sterblitch são absolutamente talentosos. A liberdade editorial também é a mesma. O que mudou foi a faixa horária.

A pressão de alguns órgãos populares sem apoio popular resultou, em 2006, na principal ameaça ao futuro da atração. Proibido de ser veiculado antes das 20 horas, o humorístico trocou a concorrência dos programas de auditório pela companhia das revistas eletrônicas. Perfis obviamente díspares.

Agregado a uma faixa ainda mais perigosa, que canibalizou recentemente o tarimbado Gugu, o “Pânico” substituiu as piadas com fio condutor, que valorizavam a inteligente edição de sua equipe, pelas sacadas rápidas. As bundas e o humor físico, igualmente presentes na primeira fase, apenas ganharam mais vitrines. Foi, enfim, uma escolha pela sobrevivência, interpretada como covardia pela absoluta poltronice intelectual de quem desconhece a guerra pela audiência.

Na rádio Jovem Pan, Emílio sempre dizia, quando questionado sobre o rumo dos quadros e integrantes do programa, que o público queria ver o circo pegar o fogo e ver o palhaço morrer queimado. Por todos os serviços prestados nos últimos dez anos ao humor e à TV, é bastante justo que este circo continue intacto.

Há uma década no ar, “Pânico” começou saga na TV com média tímida de audiência

Elenco da primeira formação do "Pânico".

Elenco da primeira formação do “Pânico”.

O “Pânico” completa nesta semana dez anos de trajetória em TV aberta.

Os programas mais vistos na semana de lançamento do humorístico você confere abaixo.

GLOBO
Mulheres Apaixonadas – 50
A Grande Família – 40
Jornal Nacional – 39
Mulheres Apaixonadas – 38
Casseta & Planeta – 37
Curiosidade: O “Fantástico” marcou apenas 17 pontos na edição de 22 de setembro. Em dez anos, a audiência caiu mais de 50%. 

SBT
Cine Espetacular – 21
Quinta no Cinema – 21
Tela de Sucessos – 17
Sessão das Dez – 16
Domingo Legal – 16
Curiosidade: Dez anos depois, apenas “Chiquititas” consegue média de dois dígitos para o SBT.

RECORD
Um Policial da Pesada – 7
Futebol – 7
Série Noturna – 7
Domingo da Gente – 7
Raul Gil – 7
Curiosidade: Nenhuma das atrações “top” de 2003 pertencem à grade de 2013.

BAND
Brasil Urgente Local – 6
Brasil Urgente – 5
Sabadaço – 5
Hora da Verdade – 5
Domingo no Cinema – 5
Curiosidade: O “Brasil Urgente” ainda frequenta o Top 5 da Band. A média não mudou muito – algo em torno de 4.

REDETV!
Repórter Cidadão – 5
Eu Vi Na TV (Sábado) – 4
Eu Vi Na TV (Segunda) – 3
TV Fama – 3
Pânico na TV – 3
Curiosidade: O “Pânico” deu 1 de média em sua segunda exibição. Antes de trocar a RedeTV! pela Band, chegou a picos de 18, recorde histórico da emissora. 

O “Fala Que Eu Te Escuto” também é filho do “Pânico”

Reprodução da cena. A "sentença" da Igreja Universal foi anunciada sexta-feira, dia 2.

Reprodução da cena. A “sentença” da Igreja Universal foi anunciada sexta-feira, dia 2.

“Festas, curtição e exageros: alegria passageira, na noite vale tudo ou só ultrapassa o limite quem bebe muito?”.

Foi com esta pergunta que o “Fala Que Eu Te Escuto” abriu a histórica edição de 2 de agosto.

Vítima de uma bunda branca sem passagens pelo Monte Sinai, o programa religioso mais visto do Brasil escolheu um tema “polêmico”, ligado à juventude, para se pronunciar sobre o trote defenestrado pelos irmãos Consentini.

Como sempre, dezenas de advogados, médicos, diretores-comerciais, acionistas da Telexfree e cientistas sociais enfileiraram-se no telefone e no Skype para prestar assistência intelectual. Apesar do horário, apesar dos temas, apenas profissionais bem-sucedidos, felizes, coerentes e com carro importado pago à vista costumam se manifestar no programa. Prosperidade e intelecto andam lado a lado, afinal.

O Bispo Clodomiro Santos mediava os chamados, as reprises das matérias do “Jornal da Record” e os teasers do trote preparados exatamente para fisgar o pessoal do zapping – prática comum nos áureos tempos de “Superpop” e “Boa Noite, Brasil”. Somente às 2 horas da madrugada, quando surgiu uma vinheta mal feita, idêntica a da finada “Sessão do Descarrego”, a matéria-verdade foi ao ar.

Quase ancorada por um advogado, a fita mais aguardada da semana revelou a parte óbvia da confusão. A Igreja Universal (de maneira legitima, diga-se) vai processar a família dos adolescentes. A surpresa ficou por conta do editorial dos pastores, exibido enquanto a equipe técnica rebobinava o VHS do Law & Order do Brás.

Emulando a Supernanny, o Bispo Clodomiro logo de saída emendou um “Você está vendo, Graziele? O problema que você trouxe pra sua vida? E pra vida do seus pais?”. Em seguida, separou o mundo entre “pessoas sérias” (os profissionais ricos que ligam para o “Fala Que Eu Te Escuto”) e os “bobões” (os desocupados que ligam para o “Fala Que Eu Te Escuto” sem anunciar a profissão e o carro estacionado na garagem). Não satisfeito, colocou na conta do humor a cretinice dos adolescentes, até batizando essa nova geração, descoberta por ele, de “filhos do Pânico”.

Não é a primeira vez que a Igreja Universal virou tema de galhofa na TV. Os pastores já enfrentaram encostos, gente rouca, mulheres boca-suja, vozes do Google Translator. Alguns, confira você mesmo no You Tube, até riem do ridículo a que são expostos. Nunca repudiaram, nunca processaram, nunca recomendaram um copo de água a mais sobre o televisor. A súbita mudança de postura, por mais cristalina que seja, não deixa de demonstrar um temperamento de… “filho do Pânico”.

Nada é mais “Pânico” do que a espetacularização dos fatos. Foi graças a esse expediente que surgiram quadros como “Sandálias da Humildade”, “Volta, Clô”, “Autoriza, Silvio”, entre outros clássicos do humorístico. Até pode existir a carga “sentimental” no coração dos bispos, pastores e afins, mas não deixa de surpreender a coincidência entre dor e furor. A disposição em copiar o “programete” que tão negativamente influencia os jovens. Basta lembrarmos que um dia após o trote, o “Fala Que Eu Te Escuto” pulou para 5 pontos de média, batendo o “Programa do Jô”.

Sobre o tema do programa? Bem, na minha opinião, de noite vale tudo. Até mostrar a bunda via Skype.