O pior destino de todos os tempos

O grande mistério de Lost: por que as pessoas levaram a sério?

O grande mistério de Lost: por que as pessoas levaram a sério?

É impossível falar sobre a última década da ficção televisiva sem esbarrar na fila de embarque do Oceanic 815.

Lançada em 2004, “Lost” teve uma primeira temporada até razoável. As personagens eram apresentadas com algum encanto, bem como os mistérios da ilha. Para o gênero em questão, carente de novidades desde “Arquivo X”, tudo ia bem. A partir do segundo ano, porém, a série demonstrou a metalinguagem presente em seu título.

Os passageiros do voo que origina a trama não eram os perdidos na ilha. Nem seus espectadores. As vítimas eram os roteiristas, sufocados pelas centenas de pontas abertas semana após semana.

Neste contexto, quem não se deixou fisgar pelo falso encanto gerado pelos falsos mistérios da série logo notou que apenas dois encerramentos eram possíveis para a história.

A primeira possibilidade, a menos embaraçosa do clã, aproveitaria o ensejo de “Brida”, novela da Manchete encerrada com voz over para ajudar na contenção de gastos da família Bloch – a emissora faliria anos depois. Ou seja, bastaria apenas a entrada de um ator alfabetizado no set. A segunda, indigna como a carreira da filha do Ozzy Osbourne, apelaria ao clichê da morte dos personagens. Qual foi a escolhida, com direito a analogias fantasmagóricas?

Lost se despediu com audiência de 13,5 milhões de telespectadores, índice bastante distante da média obtida na primeira leva de episódios – quase 19 milhões. Deixou, como único legado, a dúvida sobre os rumos da inovação estilística. Porque início, meio e fim ainda são fundamentais para se contar uma boa história, seja ela liderada por vivos ou mortos, passageiros de avião ou ônibus.

Teste de Fidelidade, Altamiro Borges e o traço

O novo Teste de Fidelidade

O novo Teste de Fidelidade

Altamiro Borges é jornalista.

Um jornalista que não gosta de jornalismo.

Titular do Blog do Miro, “uma trincheira na luta contra a ditadura midiática”, ele dedica 95% de seu tempo ao noticiário político.

Seu trabalho consiste em acordar, tomar café da manhã e acompanhar os principais veículos de comunicação do país na busca por notícias “negativas” sobre o governo federal, isto é, tudo que pareça crítica.

Feito o clipping, ele perfila uma série de bordões e siglas infames para convencer os leitores de que aquelas matérias não são sérias, de que o conteúdo transmitido por aqueles grupos é contaminado por interesses da iniciativa privada. Não raro, ele recorre ao Blog do Planalto, um grupo ligado à assessoria de imprensa do governo, para desenvolver de maneira plena sua linha de raciocínio, calcificada na eterna desconfiança com a imprensa.

Quando não está brindando o público com suas teorias anacrônicas de perseguição social por parte dos barões da mídia (o PT certamente é o único partido do mundo a vencer três eleições presidenciais consecutivas sem querer desgarrar do rótulo de minoria), Altamiro é comentarista de TV.

No dia 10 de fevereiro, após uma crítica publicada no ótimo blog do Maurício Stycer, ele revelou sua antipatia pelo programa “Teste de Fidelidade”, relançado a toque de caixa pela RedeTV! para substituir o SNL e ampliar os índices de sua grade dominical, desfalcada desde a saída do “Pânico”, em 2012.

Altamiro começa seu desagravo afirmando que a emissora está quase falida – palpite disfarçado de informação – e que João Kléber já havia sido rifado da TV brasileira oito anos atrás, por conta da movimentação de “seis entidades da sociedade civil contra as suas baixarias na emissora”. Transcrevo um trecho do artigo, me desculpando desde já com o leitor pela indelicadeza de forçá-lo a ler as considerações a seguir.

“Em 2005, o Coletivo Intervozes e outras cinco entidades civil conseguiram obter o “direito de resposta” contra o mesmo apresentador, que abusava dos preconceitos no quadro “Tardes Quentes” (…). No lugar do programa de baixaria, a Rede TV! foi obrigada pela Justiça a veicular 30 horas de programação integralmente idealizada e produzida pelas organizações envolvidas na Ação Civil Pública contra a emissora. Durante os 30 dias de exibição, debates, vídeos, entrevistas e até comerciais traziam à telinha os direitos humanos e a voz dos setores historicamente excluídos,  da tevê brasileira”.

O mínimo que se espera de um profissional de comunicação é que ele apure a informação trabalhada. A RedeTV! não foi punida por um quadro, mas sim por um programa de TV. A diferença entre um “quadro” e um “programa” é bastante elementar. Até o Leão Lobo sabe isso. Não bastasse esse lapso, Miro erra o nome da atração. “Tardes Quentes” é o que vive o pessoal de Teresina. João Kléber exibia o “Tarde Quente”. Faz diferença? Faz. Não existe notícia parcialmente correta.

Na sequência, Borges diz que a RedeTV! “foi obrigada” a exibir os programas. É possível imaginar a satisfação dele ao teclar “foi obrigada”. Pois bem, a determinação judicial era outra. 60 horas de conteúdo e multa de R$ 500 mil. A emissora preferiu ter seu sinal suspenso para renegociar a decisão. Pagou multa menor e cortou pela metade o tempo de veiculação dos programas educativos, cujos “debates, vídeos, entrevistas e até comerciais” derrubaram o ibope de 4% para médias entre 0 e 1%. Aparentemente, os setores historicamente excluídos da TV não gostam de ser ver na TV. Faz algum sentido para vocês?

Pimpão, ele finda o artigo sugerindo uma nova ação popular para “barrar não apenas o retorno das baixarias de João Kleber – mas a própria baixaria da RedeTV! Este espaço, que é público, seria muito melhor ocupado por uma emissora pública – ou mais direto, pela TV Brasil.”

Altamiro não tem a menor ideia de audiência, o que é absolutamente coerente. Da turma de blogueiros progressistas, ele é o lanterninha de repercussão. Perde feio para o “Conversa Afiada”, para o “VioMundo”. O Twitter do Emir Sader é mais acessado que seu blog, provavelmente. No entanto, espanta a pretensão em acelerar a morte de uma emissora privada para substituí-la por outra emissora morta – a TV Brasil.

Mesmo em crise, vendendo cerca de 50% de sua grade diária, a RedeTV! deve fechar o ano com 0,9 de média diária de ibope. Quanto soma a TV Brasil? Traço. Traço é a terminologia de TV para “sem audiência”. No Rio de Janeiro, onde não há TV Cultura, a média é discretamente maior, mas abaixo da CNT, a sexta rede fluminense. Curiosa visão democrática esta, em que produtos assistidos pelo público devem ser descartados em detrimento daqueles que batem a defesa do Náutico na categoria “asco”.

Criticar o gosto? Ok. Guilhotinar preferências? Isso sim parece ditadura midiática.

“Saramandaia” tem alma

Sergio Guizé: ator conseguiu se destacar até no insosso "Sessão de Terapia".

Sergio Guizé: ator conseguiu se destacar até no insosso “Sessão de Terapia”.

Livre adaptação da obra homônima de Dias Gomes, exibida pela mesma Rede Globo em 1976, “Saramandaia” suscita uma rara questão: por que as novelas não são sempre assim?

Ricardo Linhares, autor da produção, conseguiu popularizar o “realismo fantástico”, escola literária ainda desconhecida por boa parte dos brasileiros, sem vulgarizar ou depreciar o texto final.

Além da qualidade dos diálogos, contam a favor da novela a sonoridade do “saramandês”, o bom ritmo das cenas e a escolha das referências contemporâneas. Só algumas frases de efeito e as demonstrações de civismo dos manifestantes saramandenses pareceram fora de tom – no capítulo de estreia, pareceu até que os personagens anunciariam uma petição no Avaaz por “mudança”, esta palavra cada vez mais sem significado.

O elenco é outra preciosidade. É muito bom ver Lilia Cabral, Débora Bloch, Fernanda Montenegro, José Mayer, Renata Sorrah, Aracy Balabanian, Vera Holtz (uma pena a maquiagem tê-la deixado com a cara da Mamma Bruschetta), Tarcísio Meira e outros atores veteranos no ar. O grande achado, porém, é Sergio Guizé, ator novato convidado para interpretar o personagem principal da novela, transmitida de terça a sexta-feira.

O oposto dos demais atores de sua geração, que entregam logo no primeiro olhar o caráter, o credo e até a opção sexual de seus personagens, Guizé obriga o público a mergulhar fundo em sua cínica expressividade para liberar alguma pista de seu trabalho. Quem o observa na pele de João Gibão não reconhece um “mocinho” tradicional. Reconhece um homem simultaneamente triste, forte, covarde, apaixonado, sagaz e selvagem. Um ser ambíguo. Se a ambiguidade é o maior dom de um grande ator, ele já pode se considerar um grande ator.

“Saramandaia” é um território perdido no Brasil. Um território perdido na dramaturgia do Brasil. Vamos aproveitar esta breve epifania.

O amadurecimento das séries

Tony Soprano

Tony Soprano, a grande obra de James Gandolfini

John Boy que nos perdoe, mas na televisão moderna ninguém se interessaria no cotidiano da família Walton. Nem suportaria a aborrecida cena do “Boa Noite”. Basta uma passada despretensiosa pelos números de audiência ou pelo volume de downloads para notar uma mudança radical no comportamento dos telespectadores.

O romance, o antagonismo clássico e as comédias com fundo familiar estão decididamente distantes do desejo do grande público, inclusive no Brasil, onde os índices das novelas estão em queda e os dos “enlatados” em alta.

Além da falta de tempo disponível para as pessoas acompanharem religiosamente a novela, ou mesmo um show à moda antiga, tipo Dallas, um fator de nome desconhecido no Brasil foi extremamente determinante para esta reorganização do mercado: a série Hill Street Blues.

Exibida na NBC, HSB não apostava em heróis, vilões ou soldados dotados de coragem absurda ou fonte sobrenatural de força. A aposta era na ordem natural dos acontecimentos. E no desenvolvimento psicológico dos personagens, o que ficou conhecido por ensemble show. 

Tratado quase como um experimento, uma espécie de episódio piloto, o ensemble  ganhou a confiança dos executivos e “enterrou” o formula show, cuja mecânica privilegiava a temática, no ano de 1990, quando a ousadia de David Lynch foi colocada em horário nobre na TV americana. Foi a busca pelo assassino de Laura Palmer, adolescente moradora da pequena e fictícia Twin Peaks, a faísca para a explosão de humor negro e ousadia dos projetos da televisão.

A obra, jamais exibida integralmente na TV aberta brasileira, tinha como temática os sonhos americanos. O caráter dúbio dos personagens, as entrelinhas carregadas e a repercussão, maior que a de HSB, trataram de eliminar a possibilidade de um retrocesso na qualidade das séries e abrir caminho para The Shield, Treme, Dexter, True Blood e A Sete Palmos.

Celio Ceccare, consultor e especialista em séries de televisão, reconhece a primazia conceitual da série policial, indicada pelos críticos mais exagerados como o embrião da espetacular “The Wire”, mas destaca outras duas produções para demonstrar a ascensão da complexidade: Família Soprano e The West Wing.

“As duas foram passadas como projetos autorais. West Wing é pra sempre a série do Aaron Sorkin, assim como David Chase é o criador de Sopranos. A maior parte das séries hoje em dia se configura através disso. Boardwalk Empire foi vendida como a série do Scorsese. Mad Men, do mesmo cara de sopranos. Elas ganharam um timbre”.

“The West Wing”, exibida em TV aberta nos Estados Unidos, foi produzida entre 1998 e 2006. A temática não poderia ser mais interessante: geopolítica. Mais especificamente: Conflitos na Casa Branca. Lançada na Era Clinton, a série atravessou o 11 de setembro, retratado em episódio especial considerado histórico, e a crise – moral, não a econômica – do governo Bush.

“Familia Soprano”, a série de maior sucesso da HBO, ilustra o cotidiano de um outro tipo de poder: a máfia. O sucesso de público e crítica esteve no contexto crítico da produção. As entrelinhas, e isto vale para tudo o que tem a assinatura de Alan Ball, contam mais histórias do que as falas dos atores.

“A série é bem maior do que a história de um mafioso. Ela mostra uma América onde os valores não têm mais importância e a cobiça e a pressão se tornam tamanhas que um chefe da máfia não consegue mais aguentá-la. O Tony Soprano se torna um herói exatamente por isso. Pois mesmo com todo o poder que ele tem, ele não consegue exatamente o que quer, ou saber o que quer”, afirma Ceccare, que realizou um estudo de Filosofia embasado na série.

Telas grandes, ideias não tão grandes assim

Uma questão, lançada de modo muito sutil pelo crítico Cassio Starling Carlos na publicação “Em Tempo Real”, a única de abordagem teórica e crítica sobre o desenvolvimento das séries, envolve diretamente a “moral” do cinema.

O argumento é direto. Se na década de 70 a televisão apostava nas comédias fáceis, nos dramas policiais de solução rápida ou na fantasia desenfreada, o cinema se encarregava de entreter os adultos, com enredos arrojados, originais e realistas. No século 21, houve a inversão destes valores. Os pais ficam em casa conferindo obras primas como A Sete Palmos, Mad Men e Banshee, enquanto os filhos colocam os óculos 3D.

A hipótese, nada pretensiosa, tem uma fundamentação que justifica, em parte, as diferenças entre cinema e seriado. O recurso do tempo, moldado pelos produtores para permitir o desenvolvimento meticuloso de tramas e personagens, tem prazo de validade nos filmes. Enquanto Alan Ball teve algumas horas pra desenvolver Beleza Americana, ele já contou com cinco temporadas para expor o enredo de True Blood – a sexta não contará com participação direta dele.

“Se você imaginar uma tela de pintura, o que acontece: a série se torna um ambiente propício para maior exploração dos personagens, o que o tempo em cinema não propicia. Como você tem uma tela maior, o produto vai ser diferente do que o do cinema, onde você tem de 90 a 120 minutos. O Scorsese foi para a HBO porque a história que ele tem pra contar precisa desse espaço maior para se desenvolver, assim como o Tarantino queria que Bastardos Inglórios fosse uma minissérie.”, diz Celio.

O outro aspecto apontado pelo especialista para ilustrar a diferença entre as estruturas narrativas é de ordem estratégica. O caminho para a recuperação dos recursos investidos na fita foi subvertido, exigindo uma resposta nova e imediata.

“Os grandes estúdios não têm interesse em fazer um grande filme, mas sim um evento, pois o sucesso comercial de um filme não se constrói mais como antigamente, com a crítica e a recepção do filme. Hoje há uma construção de marketing muito anterior ao lançamento, para a construção do hype e a recuperação instantânea do investimento”.

Good Night, John Boy. Good Night, Movies.