Caso “Latininho” completa 17 anos

A Veja foi uma das revistas que abordou o fenômeno "mundo cão" da TV. Um ano depois apareceria o "Sushi Erótico" e o "Sentindo Na Pele".

A Veja foi uma das revistas que abordou o fenômeno “mundo cão” da TV. Um ano depois apareceria o “Sushi Erótico” e o “Sentindo Na Pele”.

Rafael Pereira do Santos é capixaba.

Portador da Síndrome de Seckel, falha genética irreversível que ocasiona microcefalia, retardo mental e nanismo, ele visitou, em 8 de setembro de 1996, o Rio de Janeiro. Não para se consultar com um médico. Não para conhecer o Cristo Redentor. A razão de sua viagem era artística.

Acompanhado por um enfermeiro, o cidadão, no suporte de seus 15 anos, 8 quilos e 87 cm, protagonizaria o “Domingão do Faustão”, que, arrastado para um novo horário, enfrentava dificuldades para bater Gugu e seu “Domingo Legal”.

Caracterizado como o cantor Latino (blusa das Paquitas, camiseta sem estampa, bigode de cobrador de ônibus e penteado feio), sucesso das rádios FM naquela época, ele foi entregue no palco pela produção do programa sob o pseudônimo “Latininho”.

Obviamente sem entender o que acontecia ao seu redor, Rafael se movimentou no palco, tentando acompanhar a versão tupiniquim do Prince e ignorando os cortes de Faustão, que repetia a todo instante “esta fera foi descoberta (sic) pelo Zezé Di Camargo e Luciano”, em uma clara tentativa de desvincular sua imagem do freak show ali apresentado.

Responsável por um pico de 30 pontos de audiência, o garoto fez mais do que dançar no palco. Serviu de escada para gracejos, focalizado generosamente pelas câmeras e, vejam só, foi brincar no colo do Caçulinha.

A repercussão, claro, não foi positiva. Até mesmo o pedido de suspensão das atividades da Rede Globo foi encaminhado para o juiz Siro Darlan, da Vara da Infância e da Juventude.

Na tentativa de apagar o gigantesco incêndio, Faustão concedeu diversas entrevistas.

Três dias após o freak show, ele afirmou à Folha de São Paulo, por exemplo, que o seu diretor, Carlos Manga, havia solicitado a criação de um código de ética envolvendo a Globo e o SBT ainda em agosto. Também disse que eles detestavam apelar, porém “a concorrência nos pressiona, e a gente tem que enveredar pelo sensacionalismo”. Por fim, destacou: “Acabamos optando por mostrar Rafael porque achamos que isso deverá ajudá-lo. Ele pode vir a fazer sucesso como o Nelson Ned”.

Rafael não fez sucesso como o Nelson Ned. Na verdade, só ocupou páginas dos jornais e revistas para repercutir a falta de limites da equipe do “Domingão do Faustão” e deflagrar o debate sobre a influência do ibope na qualidade das atrações – quórum este, que, a julgar pelo sushi erótico, não serviu para nada.

O último registro de Latininho na imprensa data de 2001. Processada pela família de Rafael, a Rede Globo acabou condenada a pagar uma indenização de R$ 1 milhão, somada a juros retroativos. Foi, por tabela, também a última aparição de alguém debilitado pela Síndrome de Seckel em nossa TV. “Mais comportada”, hoje ela deixa de lado as pessoas doentes para reformar casas e acompanhar o cotidiano de anões – mais propensos a fazerem sucesso, como o Nelson Ned.

“Sushi Erótico” marcou a carreira de Faustão

"Sushi Erótico": pico de 29 pontos. Vestido de mendigo, Gugu bateu 33.

“Sushi Erótico”: pico de 29 pontos. Vestido de mendigo, Gugu bateu 33.

O “Domingão do Faustão” de 26 de outubro de 1997 não liderou o ibope. 

Na média, perdeu de 23 a 26 para o SBT, que exibia o “Domingo Legal”.

Apesar da derrota, nenhuma edição do programa obteve tamanha repercussão dentro e fora da Rede Globo.

Com a exibição do quadro “sushi erótico”, em que mulheres serviam de base para o banquete nipônico, Faustão virou tema de um extenso debate sobre os limites para se obter audiência.  

A atração foi transmitida ao vivo, por meio de link, em um restaurante paulistano.

Nair Belo era uma das comentaristas do show. Oscar Magrini e Marcio Garcia, os anfitriões. 

Gugu superou o reality gastronômico desnudo trajando uns trapos, “sentindo na pele” o drama de ser mendigo, mesmo expediente praticado por Rodrigo Faro semanas atrás.

Prova inequívoca de que a TV brasileira não se renova pelo menos desde os anos 1990. 

O Domingão do Faustão foi mais divertido do que o esperado

Domingão do Faustão é exibido aos domingos, das 18h às 20h40.

Domingão do Faustão é exibido aos domingos, das 18h às 20h40.

Artigo de Felipe Portes

Eu gosto de ver TV. Não tenho tido tanto tempo assim pra fazer isso, com o trabalho, as viagens e meu vício no videogame. Mas se tem alguma coisa que eu consigo assistir além dos jogos são os pequenos seriados que a Globo passa na sua grade semanal.

Saramandaia tem sido interessante, como o próprio Sarubo comentou aqui, A Grande Família abandonou o rótulo de comédia e virou uma bela série de drama com pitadas de humor. Mas o que mais me surpreendeu na programação global foi eu ter parado para assistir ao Faustão no domingo passado.

Fala sério, você não optaria por ver o ex-gordachão na tela se a sua família não estivesse vendo na sala. Sozinho em casa e no poder do controle você certamente deve ficar zapeando a TV (se só tiver a aberta, tenho más notícias) atrás de algo para assistir. Para quem se acostumou a ser multitarefas em casa, não presta atenção nem no jogo, nem no Faustão e nem nas conversas da internet. Mas, e quando você não tem o futebol e as redes sociais à disposição?

Eu estava viajando e me hospedei num hotel em Porto Alegre com minha namorada, Luíza. Até aí vocês devem pensar que a gente tinha coisa melhor pra fazer, mas não é disso que vim falar. Só tínhamos cinco canais funhebas para escolher e, no domingo, depois de um horrível Cruzeiro x Santos, deixamos no Faustão para ver se o clima de depressão pré-segunda não nos tomaria de assalto.

Num determinado quadro, entre uma conversa e outra, Fausto chamou o João bobo mais famoso da Globo, Bruno de Luca, para ser o diretor de uma espécie de show de improviso com Fabio Rabin, Lúcio Mauro Filho e outras duas atrizes desconhecidas. Aí você pensa: diabos, isso vai dar errado. Não deu tanto assim, e explico o porquê: todo esse show babaquinha seria num cenário intencionalmente íngreme. Era uma sala de estar com móveis fixos, só que completamente inclinada. Só de ver aquilo fiquei intrigado e pensei: o que a produção tem na cabeça?

A verdade é que foi bem engraçado ver o pessoal se matando para entrar na sala e se manter lá para atender às ordens do crianção Bruno, que só sabia rir e não falava nada com nada, pois é um ameba. Os convidados se saíram bem, mas eram mais engraçados ainda quando tentavam se manter em pé. Lúcio Mauro foi o destaque no papel de cunhado chato. Seu ponto alto aconteceu quando tentou entrar pela porta da frente segurando algumas pizzas, capotando pra fora do cenário e derrubando tudo. Estava tão difícil simplesmente andar sem cair pra trás, que eu e a Luíza não conseguíamos parar de rir.

Parei pra pensar porque estava rindo tanto num Domingão e cheguei a várias conclusões: ninguém quer ver nada muito complexo num domingo à noite; esse tipo de humor videocassetada ainda funciona com o público; você não é burro só por rir de como o Bruno De Luca é retardado; quando não se tem muitas opções de canal, o Faustão se torna uma boa saída; as pessoas quando em casal ficam mais suscetíveis a rir de patetices na TV.

O que há de se elogiar no Faustão é que ele pode até ter esses quadros toscões e nos fazer sentir saudade até das olimpíadas bobocas, da ponte do rio que cai e das vinhetas que faziam ele ser o godzilla brasileiro na chegada ao Projac, mas nunca perde o jeitão de comunicador. É um cara que, mesmo irritado, sabe divertir o seu público, por mais que o gordão tenha ficado na mesa de cirurgia.

E Fausto faz isso tudo sem desrespeitar explicitamente os seus convidados, como outros programas humorísticos fazem sempre, na tentativa de provar que “incomodam”. Humor não é incomodar, é saber fazer rir. E hoje pouca gente sabe como causar isso.