O resultado do Dia Sem Globo

O Dia sem Globo falhou por... 16,8 pontos.

O Dia sem Globo falhou por… 17 pontos.

Segundo a medição prévia de audiência, o Dia sem Globo foi outro… fracasso.

Das 7h às 23h59, período calculado para a média diária, a emissora carioca deu 17 pontos de audiência.

A Record marcou 7 (6.8). O SBT conseguiu 6 (5.8).  Em alta, a Band obteve 4 (3.6).

Se a campanha fosse “Dia sem Cultura”, por mais incrível que possa parecer, o movimento também teria naufragado. Ela marcou 1 (1.4), mesmo índice da RedeTV! considerando o arredondamento decimal.

No traço, como sempre, só a TV estatal.

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ATUALIZAÇÃO

O resultado consolidado pelo ibope apontou um décimo a mais de audiência pra Globo. Assim, ela obteve 17.1 (o arredondamento prossegue 17).

A Cultura foi a única emissora a ter seu resultado alterado significativamente. Pulou para 2 pontos (1.6).

Adeus, Globo

Sorria, você viu a peça revolucionária mais popular do Brasil

Sorria, você viu a peça revolucionária mais popular do Brasil.

Assisti ao programa do Marcelo Rezende por quase um mês. Esforço mínimo se comparado ao embate de doze horas com a TV Brasil, registrado aqui. Afinal, a TV estatal não tem um apresentador mal humorado – só um comentarista meio caduco. Ou o lente nervosa (não é o Michael J. Fox). Ou a menina que se esquece de botar “exclusivo” na tela. Eu, por exemplo, trocaria o Guido Mantega por qualquer um desses seres. E o Ministro da Pesca, cujo nome nem a Dilma Rousseff sabe.

Sou um quebrado do tipo que leva jornal do Extra ao Carrefour pra cobrir o preço do sabonete, mas não me obriguei a ver o “Cidade Alerta” porque cortaram a TV a cabo de casa. Ok, cortaram sim. Mas havia uma razão sociológica embasando essa escolha. Queria entender a “onda de protestos” tupiniquim. Compreender a primavera brasileira. Pena o esforço ter sido inútil.

Entre a cobertura da Record e as informações colhidas na internet, aprendi somente três coisas. A primeira: o GC atrapalha a visão do Marcelo Rezende. A segunda: o discurso das manifestações foi sequestrado mais vezes que o Silvio Santos. A terceira: qualquer grupelho com faixas pode bloquear uma via pública para defender algo estúpido – da esquerda CHAUÍnista à direita bolsonariana.

Hoje, 1º de julho, o gigante inicia uma nova batalha. Agora é a TV Globo quem aparece na mira. Segundo os participantes cadastrados na página do Facebook, ponto de encontro dos revolucionários, a luta encampava a alienação, a manipulação e o direito à livre informação. Um dos mais atuantes do grupo, que ainda não consegui identificar se era homem, mulher ou o Laerte, alertava sobre uma grave conspiração das elites. Como eu fui o último do colégio a reparar que Bentinho sentia ciúme do Escobar – quando eu enfim caí na real um pessoal da minha sala já tinha até redigido um manifesto pela ausência do beijo gay -, resolvi não me pronunciar. Apenas imaginei Amaury Jr e o elenco de “Mulheres Ricas” engatando um golpe regado a champanhe. É a temida elite brasileira, amigos.

De fato, existem vários motivos para se detestar a Globo. Eles nunca acertaram uma série dramática em quase 50 anos de trajetória. Editaram “Twin Peaks” com as mãos do Edward.  Exibiram “Damages” às 3 da madrugada. Nunca orientaram o Arnaldo Jabor a incendiar as matrizes daqueles filmes horríveis dele. Deixaram a Regina Casé apresentar um programa dominical.

Conforme as queixas foram surgindo, notei que nada esbarrava na alienação, na manipulação. ou no direito à livre informação. Diferentemente do chamado no Facebook, ninguém fantasiado aparece na tela da Globo me obrigando a fazer algo. Diferentemente do chamado no Facebook, a Globo não adultera grosseiramente números para referendar suas ideias, por piores que elas eventualmente possam ser. Diferentemente do Facebook, a Globo nunca pediu a expulsão de concorrentes com linha editorial dissonante. No máximo, esticou a novela das 9 para ampliar a liderança. Preservou um jogador do BBB.

Os jovens – sim, sempre são os jovens – metidos no tal “Dia sem Globo” querem expulsar a emissora do país porque “ela é danosa para a mente e o coração progressista do povo”. Não sei quem inventou que o brasileiro é um progressista de corpo e alma, mas este  estúpido argumento, mais rodado que a frota da Viação Sambaíba, é evocado pelo menos quatro vezes por ano. Você talvez não se recorde, mas já estamos no segundo “Dia sem Globo” de 2013. O primeiro aconteceu em abril, puxado pelos evangélicos, cansados com o – segura o riso – progressismo da emissora a respeito do casamento gay. O resultado? Nenhum. A Globo, progressista no trajeto de ida, reacionária no trajeto de volta, continuou líder.

Apesar do insucesso do “passe livre” do ibope, é preciso reconhecer: nem tudo é balela dentro do “Dia sem Globo”. Ele também tem seu lado versado. No país da poltronice intelectual, o mais sábio é aquele que cria conflito no centro da poltrona. Sem precisar levantar a bunda. Ler jornal é um choque de realidade. Abandonar o romantismo político do professor de Geografia do Ensino Médio está fora de cogitação. Enxergar o mundo sem o antagonismo entre esquerda boa e direita má é um ultraje ao projeto folhetinesco, poético, dos neologismos e protofascismos. Neste sentido, estes brasileiros com ânsia cidadã coçam as frieiras dos dedos do pé na mais santa paz. Porque combatem a própria preguiça e a própria ignorância restringindo os próprios vícios e mazelas à inerte imagem do Louro José.

No fim das contas, a única conclusão possível é a de que o “Dia sem Globo” não foi inventado para dar certo. Ele existe apenas para fingir que alguém se importa com o país. É a ficção do gigante que poderia ter sido, mas optou pelo “nunca vou ser”. No Brasil, o verbo mudar só é empregado nas causas que não podem ser executadas. Não por acaso. Ninguém quer ter trabalho. Ninguém quer perder a novela do nosso retumbante fracasso.