Globo mistura 7 de setembro com futebol para passar a maior vergonha do ano

A chamada preparada pela Globo para a divulgação do amistoso entre Brasil e Austrália atualizou as definições de amadorismo e vergonha alheia da TV brasileira.

A peça, disponível abaixo, começa com Dom Pedro I cochilando em um quadro.

Ele repousa tranquilamente até a edição da emissora liberar uma versão especial do hino nacional, gravada com um cavaquinho e uns batuques.

Segundos depois, nosso salvador luso é exposto ao grito de “gol” da azia oficial da Copa, Galvão Bueno.

O Brasil precisa acabar com o cavaquinho, os batuques e a azia.

Em seguida, algumas imagens de brasileiros fantasiados preenchem a tela. Um tem peruca verde. Um outro está enrolado na bandeira. Pelas expressões de contentamento, desconfio que os dois consigam colocar o dedo na ponta do nariz enquanto andam em linha reta.

No take seguinte, surge a reprise de um gol de Neymar, a deixa pensada para Dom Pedro cumprir a hercúlea missão de dublar o cacoete “éééééé”.

A ideia certamente pareceu ruim, mas dificilmente superará sua expectativa. Isso porque pintaram o rosto do monarca para destacar o esforço vocal.

Para encerrar, a tecnologia dos anos 1960 deu as mãos para a redação dos anos 1960.

15 segundos bastaram para a voz padrão da Globo anunciar as pérolas “futebol arte” e “cores vivas do Brasil”.

Imagine na Copa.

Pode ser futebol. Pode ser assessoria de imprensa.

Carlinhos Brown

Carlinhos Brown

A primeira partida da seleção brasileira no remodelado Maracanã não teve show dentro de campo. Nem caxirolas arremessadas na cabeça do Carlinhos Brown (uma pena). Em compensação, teve a melhor aula de assessoria de imprensa aplicada no país.

A transmissão da Globo começou bem antes do início do amistoso contra a Inglaterra. Vários repórteres foram escalados para apresentar o Rio de Janeiro cenográfico da Copa. O transporte público foi elogiado. O entorno foi elogiado. As vans com insulfilm não foram elogiadas porque Eduardo Paes proibiu o uso da película nos veículos – uma agressiva medida contra a violência da cidade.

A Cidade Maravilhosa da mentira recebeu os melhores figurantes do país, para garantir a coerência do espetáculo. Debochamos por décadas da imagem do americano feliz, de avental, assando hambúrgueres no quintal para saciar a fome da família perfeita e dos vizinhos vestidos como imbecis. Nosso castigo demorou, mas chegou. Durante o “pré-jogo”, um sorridente repórter encontrou torcedores fotografando passarelas, no passo a passo para a entrada no estádio. O orgulho de ser brasileiro sempre oferece um espetáculo de profundo estupor. De profunda vergonha.

Na cabine da Globo, não havia ninguém tirando foto. Mas abundava a tal felicidade. Galvão celebrou mais de uma vez a nova cultura que o Maracanã trazia para o país. Por muito tempo tentei adivinhar qual era a tal nova cultura. Cogitei ser o desperdício de dinheiro público essa nova cultura, mas descartei a hipótese logo em seguida, porque isso é bem velho.

Outra novidade agitada foi a estreia de Ronaldo na função de comentarista. O ex-jogador foi muito competente. Poucos jogadores conseguiriam emendar os eufemismos do Fenômeno, por exemplo. Poucos conseguiriam mudar de assunto como ele, também. A cada falha do meio de campo da seleção, um elogio descabido surgia. Era a cadeira com certificação Fifa, a beleza… até o barulho da torcida serviu pra cobrir os muitos erros dos volantes, sobretudo no segundo tempo.

Os velhos vícios, claro, não cessaram. Pioraram, na verdade. Galvão ainda narra gols do adversário com o entusiasmo de um disco do Smashing Pumpkins. Casagrande continua generoso demais em relação a Neymar. Disse, após o segundo gol da Inglaterra, que o jogador não consegue render,  mas que a culpa não é dele, nem do treinador e nem dos colegas. É de quem? Do capital? Da publicidade? Do outono? Do Barcelona? Muricy Ramalho era mais criativo.

Para a alegria da TV e da torcida presente no estádio, autêntica como a plateia do programa do Celso Portioli, o segundo gol da Inglaterra não foi o derradeiro. O Brasil conseguiu empatar. Dentro de campo. Fora de campo, continuamos levando de goleada. Com muito orgulho, com muito amor. Porque somos brasileiros.