Os melhores filmes dos últimos 20 anos

Guilherme Fontes, a "Sessão do Descarrego" da Ancine.

Guilherme Fontes, a “Sessão do Descarrego” da Ancine.

A equipe de “O Globo” descobriu semana passada que, nos últimos 20 anos, o Brasil investiu R$ 18,7 milhões em filmes nunca finalizados. O dinheiro, claro, também não foi devolvido – nem existe previsão de quando ele retornará aos cofres.

Entre os títulos perdidos estão uma adaptação de “Alice no País das Maravilhas” (a qual, espero, tenha referências a Diadema no roteiro), uma versão de “Memorial de Maria Moura” (a série já não foi ruim o suficiente?) e o longa “Chatô, o rei do Brasil”, dono de mais de 40% do montante incinerado com o velho, caro e desnecessário fetiche cultural tupiniquim.

A Ancine explicou para “O Globo” que as empresas envolvidas na farra estão proibidas de “aprovar novos projetos, prorrogar, redimensionar, remanejar ou obter autorização para movimentar recursos já aprovados”. E “impedidas de contratar com o Fundo Setorial do Audiovisual ou receber apoio de fomento direto da agência”. Pronto. Pode subir o letreiro.

É obviamente um absurdo essas produtoras espertinhas saírem como mocinhas da história. O Brasil tem vocação pra cretinice, mas é importante criar um limite. Se profissionais sem criatividade, como nossos pretensos cineastas, conseguem engabelar o governo é porque estamos em sérios apuros. Assim, resta constatar o único -e intangível- lucro neste thriller de corrupção e trambique.

Vamos supor que todos os filmes da lista negra descoberta por “O Globo” tivessem recebido uma chance nos cinemas. Qual seria a renda deles? Pagaria o investimento? Dificilmente. Até porque falamos de roteiros escritos entre 1995 e 2003, quando a noção de bilheteria era mais modesta.

Capital deixado de lado, vamos para o aspecto cultural. O que esses filmes agregariam? Novas alegorias para bajular a pobreza? Porque a grande mudança do fim da Embrafilme para cá foi a substituição dos peitos caídos por olhares lânguidos de miseráveis. Fazer poesia para a desigualdade como desculpa para nunca encerrá-la. Ou para a violência, para nunca combatê-la.

Você consegue imaginar Guilherme Fontes interpretando algo? Ele era incapaz de viver um atormentado em “A Viagem”, novela de temática espírita. Poderia fazer laboratório nos programas religiosos exibidos na Record, mas nem isso conseguiu pensar. Por que seríamos obrigados a pagar – e assistir, problema mais grave – “Chatô”, sua frustrada estreia como diretor? Eu pagaria outros R$ 8,6 milhões a ele para me certificar de que ele nunca mais pisaria em um set de filmagem. Ou abriria o Word para trabalhar em um roteiro. O dinheiro foi embora, porém a dor é inegavelmente menor sem a experiência da sessão.

Os cineastas insistem que o Brasil só terá cinema se alguém pagar. Alguém, no caso, que mexa com verbas. Eu sou contra o investimento estatal de qualquer atividade cinematográfica. Se o brasileiro não está disposto a pagar pelo ingresso, não é justo o brasileiro pagar pelo roteiro, as gravações e interpretações. Parece lógico, mas há quem implique.

Aos implicantes, faço poucas sugestões. Poucas e quase utópicas. A primeira: contratar pessoas que entendam de cinema – e consumo – para avaliar roteiro a roteiro e definir quem merece receber investimentos. Importamos cubanos para diagnosticar virose, podemos importar argentinos para diagnosticar fracassos de bilheteria. E cineastas de ocasião.

Outra pauta necessária é negar fundos a diretores e produtores de visibilidade. Guilherme Fontes era bastante crescidinho e popular quando formatou “Chatô”. Poderia fazer um PPT no velho Compaq, calçar um All Star e vender o projeto sozinho. Sem recursos públicos. Se o grande delírio é financiar produtos que não lembrem os roteiros comerciais, quero ver gente fora da TV ser beneficiada, não os coadjuvantes inanimados da novela das seis.

Financiar filmes que não existem. Eis a melhor história do cinema nacional em 20 anos.

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O que você não deve assistir no fim de semana #4

A expressão do cão explica tudo.

A expressão do cão explica tudo.

Comédias, “prestação de serviço” e azia em hospital.

Eis o resumo do que você deve evitar ao zapear neste fim de semana.

Fique longe de…


Missão Madrinha de Casamento

TC Pipoca, Sexta, 23h50

Por que não assistir? É um “Diário de Bridget Jones” com gente mais chata. Aqui, o objetivo da protagonista nem é o amor, mas sim ser madrinha de casamento da melhor amiga – daí o título, que lembra produções da Disney. Ao que parece, as mulheres encalhadas não se contentam em ter azar no amor. Elas também fazem questão de ter azar na hora de virar filme.


Billi Pig

TC Fun, Sábado, 20h05

Por que não assistir? Só considera positivo o derrame de filmes nacionais quem não os assiste. Prova cabal de minha teoria é o filme “Billi Pig”. Grazi Massafera e Selton Mello (quando ele vai parar?) interpretam um casal que se envolve com um traficante para realizar o sonho da vida mansa. Seu sonho ao cruzar com este longa vai ser o de apertar o “power” do controle remoto em tempo recorde.


Marley & Eu 2

TC Fun, Sábado, 22h

Por que não assistir? Porque assistir sequência de filme ruim não diminui a passagem pelo purgatório. Faça como Owen Wilson e Jennifer Aniston: ignore.


Missão Pet

NatGeo, Domingo, 12h

Por que não assistir? A versão “made in Brazil” de “O Encantador de Cães” é liderada por um veterinário mais new age que a Enya.


Grey’s Anatomy

Sony, Domingo, 20h

Por que não assistir? “Grey’s Anatomy” devolveu às séries médicas uma porção de estereótipos que nunca deveriam ter saído da quarentena.