Teste de Fidelidade, Altamiro Borges e o traço

O novo Teste de Fidelidade

O novo Teste de Fidelidade

Altamiro Borges é jornalista.

Um jornalista que não gosta de jornalismo.

Titular do Blog do Miro, “uma trincheira na luta contra a ditadura midiática”, ele dedica 95% de seu tempo ao noticiário político.

Seu trabalho consiste em acordar, tomar café da manhã e acompanhar os principais veículos de comunicação do país na busca por notícias “negativas” sobre o governo federal, isto é, tudo que pareça crítica.

Feito o clipping, ele perfila uma série de bordões e siglas infames para convencer os leitores de que aquelas matérias não são sérias, de que o conteúdo transmitido por aqueles grupos é contaminado por interesses da iniciativa privada. Não raro, ele recorre ao Blog do Planalto, um grupo ligado à assessoria de imprensa do governo, para desenvolver de maneira plena sua linha de raciocínio, calcificada na eterna desconfiança com a imprensa.

Quando não está brindando o público com suas teorias anacrônicas de perseguição social por parte dos barões da mídia (o PT certamente é o único partido do mundo a vencer três eleições presidenciais consecutivas sem querer desgarrar do rótulo de minoria), Altamiro é comentarista de TV.

No dia 10 de fevereiro, após uma crítica publicada no ótimo blog do Maurício Stycer, ele revelou sua antipatia pelo programa “Teste de Fidelidade”, relançado a toque de caixa pela RedeTV! para substituir o SNL e ampliar os índices de sua grade dominical, desfalcada desde a saída do “Pânico”, em 2012.

Altamiro começa seu desagravo afirmando que a emissora está quase falida – palpite disfarçado de informação – e que João Kléber já havia sido rifado da TV brasileira oito anos atrás, por conta da movimentação de “seis entidades da sociedade civil contra as suas baixarias na emissora”. Transcrevo um trecho do artigo, me desculpando desde já com o leitor pela indelicadeza de forçá-lo a ler as considerações a seguir.

“Em 2005, o Coletivo Intervozes e outras cinco entidades civil conseguiram obter o “direito de resposta” contra o mesmo apresentador, que abusava dos preconceitos no quadro “Tardes Quentes” (…). No lugar do programa de baixaria, a Rede TV! foi obrigada pela Justiça a veicular 30 horas de programação integralmente idealizada e produzida pelas organizações envolvidas na Ação Civil Pública contra a emissora. Durante os 30 dias de exibição, debates, vídeos, entrevistas e até comerciais traziam à telinha os direitos humanos e a voz dos setores historicamente excluídos,  da tevê brasileira”.

O mínimo que se espera de um profissional de comunicação é que ele apure a informação trabalhada. A RedeTV! não foi punida por um quadro, mas sim por um programa de TV. A diferença entre um “quadro” e um “programa” é bastante elementar. Até o Leão Lobo sabe isso. Não bastasse esse lapso, Miro erra o nome da atração. “Tardes Quentes” é o que vive o pessoal de Teresina. João Kléber exibia o “Tarde Quente”. Faz diferença? Faz. Não existe notícia parcialmente correta.

Na sequência, Borges diz que a RedeTV! “foi obrigada” a exibir os programas. É possível imaginar a satisfação dele ao teclar “foi obrigada”. Pois bem, a determinação judicial era outra. 60 horas de conteúdo e multa de R$ 500 mil. A emissora preferiu ter seu sinal suspenso para renegociar a decisão. Pagou multa menor e cortou pela metade o tempo de veiculação dos programas educativos, cujos “debates, vídeos, entrevistas e até comerciais” derrubaram o ibope de 4% para médias entre 0 e 1%. Aparentemente, os setores historicamente excluídos da TV não gostam de ser ver na TV. Faz algum sentido para vocês?

Pimpão, ele finda o artigo sugerindo uma nova ação popular para “barrar não apenas o retorno das baixarias de João Kleber – mas a própria baixaria da RedeTV! Este espaço, que é público, seria muito melhor ocupado por uma emissora pública – ou mais direto, pela TV Brasil.”

Altamiro não tem a menor ideia de audiência, o que é absolutamente coerente. Da turma de blogueiros progressistas, ele é o lanterninha de repercussão. Perde feio para o “Conversa Afiada”, para o “VioMundo”. O Twitter do Emir Sader é mais acessado que seu blog, provavelmente. No entanto, espanta a pretensão em acelerar a morte de uma emissora privada para substituí-la por outra emissora morta – a TV Brasil.

Mesmo em crise, vendendo cerca de 50% de sua grade diária, a RedeTV! deve fechar o ano com 0,9 de média diária de ibope. Quanto soma a TV Brasil? Traço. Traço é a terminologia de TV para “sem audiência”. No Rio de Janeiro, onde não há TV Cultura, a média é discretamente maior, mas abaixo da CNT, a sexta rede fluminense. Curiosa visão democrática esta, em que produtos assistidos pelo público devem ser descartados em detrimento daqueles que batem a defesa do Náutico na categoria “asco”.

Criticar o gosto? Ok. Guilhotinar preferências? Isso sim parece ditadura midiática.

Audiência da TV Brasil cai para 0,1 em São Paulo

TV Brasil: só aparece na tela alheia em montagens.

TV Brasil: só aparece na tela alheia em montagens.

O Teleguiado questionou no dia 21 de julho o investimento de R$ 9 milhões realizado pela TV Brasil para a obtenção dos direitos de transmissão da Série C do Brasileirão.

Naquela data, a emissora alcançou 0,2% de audiência em São Paulo. Ocupou a penúltima posição do ranking aferido pelo Ibope. A transmissão do futebol teve desempenho ligeiramente pior, algo possível graças à dízima periódica. Bancou 0,03% de média. Atrás de “Circo do Atchim e Espirro”, na Rede Brasil.

Seis semanas depois, a TV Brasil conseguiu perder 50% de sua média de ibope aos sábados.

Segundo o monitoramento minuto a minuto de 24 de agosto, a rede da EBC (Empresa Brasil de Comunicação) marcou 0,1 ponto entre 7h e 23h59. Empatou com a Rede Brasil e a RIT na lanterna da capital paulista.

Confira o ranking completo do dia 24 de agosto

GLOBO – 12,8
SBT – 5,2
RECORD – 4,9
BAND – 2,0
CULTURA – 1,1
REDETV – 0,9
RECORD NEWS – 0,3
GAZETA – 0,2
REDE VIDA – 0,2
MTV – 0,2
MIX – 0,2
CNT – 0,2
RIT – 0,1
REDE BRASIL – 0,1
TV BRASIL – 0,1

Nem o futebol tira a TV Brasil do traço

TV Brasil: ninguém sabe, ninguém, viu

TV Brasil: ninguém sabe, ninguém viu.

Principal investimento realizado em 2013, as partidas da Série C do Brasileirão não ajudaram a TV Brasil a sair do zero no ibope paulistano.

Conforme monitoramento obtido no site ExperTV, a emissora estatal marcou no sábado, 20 de julho, 0,2 pontos de média diária (audiência calculada entre 7h e 0h).

A TV Brasil perdeu para Globo, Record, SBT, Band, RedeTV!, Cultura e Rede Vida. No arredondamento, empatou com seis nanicas: Record News, MTV, Rit, CNT, Gazeta e Mix. Só a Rede Brasil, dona de clássicos como “Maçonaria na TV”, “Semana da Presidenta” e “Circo do Atchim & Espirro” conseguiu a proeza de ser menos sintonizada.

O pico de audiência da TV Brasil foi de 0,5 ponto, alcançado às 17h49. A Série C, adquirida por R$ 10 milhões, obteve média de 0,03 em sua faixa (18h30-21h), o equivalente a 1.860 domicílios.

Confira o ranking completo do sábado (20/7)

GLOBO – 12,4
RECORD – 5
SBT – 4,5
BAND – 2,1
REDETV! – 0,8
CULTURA – 0,8
REDE VIDA – 0,3
RECORD NEWS – 0,2
MTV – 0,2
CNT – 0,2
MIX – 0,2
RIT – 0,2
GAZETA – 0,2
TV BRASIL – 0,2
REDE BRASIL – 0,1

Leia Também: Um dia com a TV Brasil

Um dia com a TV Brasil

tv-brasil

Monica Bergamo publicou na edição de 22 de maio da Folha de São Paulo dados “confidenciais” sobre a audiência da TV Brasil.

Os números em questão, enviados aos conselheiros da EBC (Empresa Brasileira de Comunicação), são bastante desalentadores.

Lançado em 2008 para colaborar com a “democratização da mídia”, o canal marcou na capital paulista apenas 0.05 de ibope entre os dias 15 e 21 de abril. No dia 14 de abril, durante a programação infantil, o melhor resultado do mês: uma hora seguida com 0.6 – a única sem “traço” (leia-se zero audiência). Protofascismo de controle remoto?

A publicação destes números me causou um grande e sincero espanto. 0.05 é um resultado muito ruim, mesmo para quem não tem compromisso de fazer sucesso. A MTV, emissora segmentada, não fecha uma semana com 0.05. O culto da Igreja Universal exibido durante a madrugada na RedeTV! não marca 0.05. Para aplacar minha dúvida sobre a repulsa do público, resolvi fazer o que ninguém faz com frequência. Eu sintonizei a emissora. Por um longo período. Doze horas. Um diagnóstico certamente surgiria. E, de fato, surgiu.

Comecei a maratona às 10h00. A primeira coisa que surgiu na tela foi uma batata. Antes que eu pudesse raciocinar, mais três batatas surgiram. Após uma piada muito ruim, elas começaram a cantar. A música era pior que a piada. No fim da apresentação, outra piada. Vibrei com os créditos finais. Cinco demorados minutos. Um detalhe chamou minha atenção.  A animação não era brasileira, mas sim americana. Paradoxal, diria.

Até a hora do almoço, vi uma porção de desenhos educativos. Todos muito adequados às crianças. Até uma versão genérica de Mafalda eu descobri. Chama-se Cedric. Tenho certeza que ele seria candidato a deputado pelo partido da Marina Silva. Escrevo isso porque, sem desmerecer o desenho, os dois pensam de maneira parecida.  Entre uma e outra atração, as batatas “American Idol” voltavam. E com elas, uma questão: por que o país da cota nacional na TV paga não incentiva as produções tupiniquins em uma TV pública?

A grade infantil da TV Brasil teve uma breve pausa entre 12h00 e 12h30. É nesta faixa que o canal exibe a primeira edição de seu telejornal, o “Repórter Brasil”. Como eu sabia que a edição principal era exibida às 21h00, não fiz uma análise muito crítica. Mas não deixei de reparar no cuidado dos repórteres com os releases do Governo.

Como eu já suspeitava, as batatas retornaram assim que o noticiário acabou. Após outra piada desastrada, resolvi chamar uma delas de “Bruno Mazzeo”. Era a metida a intelectual. No fim da canção, pensei na regressão do mercado musical. De 1998 para cá, tivemos padres cantores, pastores cantores, o Otto e as batatas.

Se a boa vontade na hora de apostar em novidades locais inexiste, a TV Brasil me pareceu bem esperta na hora de escolher os produtos consagrados. Para inflar a grade vespertina, ela exibiu “Cocoricó” e “Peixonauta”, duas grifes da animação para as crianças. Às 16h00, após “Clube do Travesseiro”, um seriado americano ruim como os folhetins de Iris Abravanel, a maratona infantil teve um ponto final.

Mais seis horas

O primeiro programa adulto que eu pude conferir não foi exatamente uma novidade. O “Sem Censura” é um velho conhecido. Exibido desde os tempos de TVE, seu formato jamais mudou. Vários figurões da cultura e da política ficam reunidos em torno de uma mesa.  Por 90 minutos, fazem uma acirrada competição para definir quem fala mais bobagem. O empate é o placar mais frequente. Leda Nagle decide o campeão.

Às 18h00, depois de um programa sobre esportes radicais, conferi um experimento chamado “Estúdio Móvel”. Nele, a apresentadora, um protótipo de moradora cool da Vila Madalena, convida o público para uma expedição em busca de novos talentos e elementos de resistência criativa. Peguei no sono quando os convidados começaram a falar sobre “pensamento corrente da população”. Acordei às 20h35, no meio da propaganda eleitoral obrigatória. Segundo a grade de programação, deixei de conferir alguns enlatados e um programa de Ancelmo Gois.  Fiquei aliviado.

A primeira risada do dia custou para aparecer. Só às 20h40 eu gargalhei. Foi no momento em que uma senhora apareceu (pensei ser a batata cantora nos primeiros segundos) para anunciar o início de um programa chamado “O Púbico na TV”. Achei bem sacada a ironia. Colocar a palavra “público” no título de um programa que dá traço de ponta a ponta. Não sei se eu pensaria nisso.

O tema do tal programa, criado para a ouvidoria da EBC responder dúvidas do público (aqueles e-mails dos participantes do “Teste de Fidelidade” parecem mais verossímeis que e-mails de telespectadores da TV Brasil), era teledramaturgia.

Três minutos bastaram para a apresentadora do “O Público na TV” e a convidada, cujo nome felizmente não me recordo, enveredarem para o fetiche do controle de mídia.

Para elas, o grande problema da teledramaturgia brasileira é a influência da iniciativa privada. Pelo que eu entendi, o país tem gente mal educada e despreparada porque as novelas exibem sacolas do Carrefour quando deveriam propagar a ética e a moralidade. A classificação indicativa não daria conta desta questão porque ela não é suficiente pro governo avaliar quais programas influenciam o jeito de ser das pessoas. A EBC tem muito apreço a valores, desde que nenhum deles seja a liberdade.

Durante o intervalo comercial, a preocupação da TV Brasil em oferecer dramaturgia de qualidade foi ilustrada com o anúncio de um seriado francês. Enquanto importuna as emissoras, que mal ou não produzem novelas e séries, movimentando o mercado, a rede estatal exibe produções francesas. E produções francesas ruins, como “O Conde de Monte Cristo”.

No retorno do programa, a apresentadora, apanhando do teleprompter, chamou algumas gravações do público. Em um momento, a expressão “influência maléfica da TV e da internet” foi utilizada. Nem a lepra foi tão ofendida. Outra telespectadora, e parabenizo a equipe do programa pelo esforço de localizá-la, perguntou o total de horas que uma criança pode ser exposta à TV. Como se a TV fosse Césio 137.

A última parada da noite foi a edição principal do “Repórter Brasil”. Mesmo sem sua estrela, Emir Sader,  o jornal é bastante interessante.  A vinheta de abertura, por exemplo, reúne todos os elementos da identidade nacional.  Da nossa diversidade de fachada, da nossa união fantasiosa. Em flashes, aparecem índios, crianças e as bicicletas, promovidas à condição de resistência no ano passado.

As pautas eram pouco informativas. Para um jornal de 60 minutos, a única cobertura bem feita foi a de esportes. Uma feira de “comércio justo” foi o grande destaque. Não sei quanto custou essa feira, mas ela não trazia nenhuma inovação. Difícil entender a novidade na negociação entre produtor e consumidor. Só mesmo quem vê maléfica influência da TV e da internet pode desconhecer princípios básicos do mercado.

Outro destaque foi uma feira de cultura LGBT. Procurei o Laerte em todos os momentos, mas não encontrei. Vai artesanato, vem artesanato, a matéria mostrou algumas pessoas encenando esquetes contra as doenças sexualmente transmissíveis. Foi possivelmente a maior ofensiva brasileira contra a AIDS desde sempre.

Aguardei a despedida dos três âncoras – o jornal tem mais apresentadores do que telespectadores – para trocar de canal. Conferir algo sem batatas, Leda Nagle e gente descolada.

A TV Brasil foi inventada para atender a “antiga aspiração da sociedade brasileira por uma televisão pública nacional, independente e democrática”, uma dessas máximas graciosamente inventadas para conferir um pouco de superioridade aos brasileiros.  Ela não é nacional, porque abusa do conteúdo estrangeiro. Também não é democrática, porque apenas implica com a iniciativa privada. Só é independente. Independente de público.  E vai continuar assim por um bom tempo. Porque é feita por gente que não entende a TV. Por gente que não entende o público. Por gente que entende e avalia a semiótica do traço. Traço que não sai barato.