O pior destino de todos os tempos

O grande mistério de Lost: por que as pessoas levaram a sério?

O grande mistério de Lost: por que as pessoas levaram a sério?

É impossível falar sobre a última década da ficção televisiva sem esbarrar na fila de embarque do Oceanic 815.

Lançada em 2004, “Lost” teve uma primeira temporada até razoável. As personagens eram apresentadas com algum encanto, bem como os mistérios da ilha. Para o gênero em questão, carente de novidades desde “Arquivo X”, tudo ia bem. A partir do segundo ano, porém, a série demonstrou a metalinguagem presente em seu título.

Os passageiros do voo que origina a trama não eram os perdidos na ilha. Nem seus espectadores. As vítimas eram os roteiristas, sufocados pelas centenas de pontas abertas semana após semana.

Neste contexto, quem não se deixou fisgar pelo falso encanto gerado pelos falsos mistérios da série logo notou que apenas dois encerramentos eram possíveis para a história.

A primeira possibilidade, a menos embaraçosa do clã, aproveitaria o ensejo de “Brida”, novela da Manchete encerrada com voz over para ajudar na contenção de gastos da família Bloch – a emissora faliria anos depois. Ou seja, bastaria apenas a entrada de um ator alfabetizado no set. A segunda, indigna como a carreira da filha do Ozzy Osbourne, apelaria ao clichê da morte dos personagens. Qual foi a escolhida, com direito a analogias fantasmagóricas?

Lost se despediu com audiência de 13,5 milhões de telespectadores, índice bastante distante da média obtida na primeira leva de episódios – quase 19 milhões. Deixou, como único legado, a dúvida sobre os rumos da inovação estilística. Porque início, meio e fim ainda são fundamentais para se contar uma boa história, seja ela liderada por vivos ou mortos, passageiros de avião ou ônibus.

Aquele da sitcom mais popular de todos os tempos

Friends: todo ano a Warner lança uma caixa comemorativa de DVDs e Blurays.

Friends: todo ano a Warner lança uma caixa comemorativa de DVDs e Blu-rays.

Friends é a pior sitcom da TV americana. Repito. Friends é a pior sitcom da TV americana.

Por que eu repeti a frase acima? Pra ilustrar a estratégia – bem sucedida, reconheço – da série produzida pela Warner entre 1994 e 2004.

Quantas vezes Joey, Phoebe, Ross, Chandler, Monica e Rachel viveram as mesmas situações? É muito comum os jornais brasileiros classificarem as sitcoms como produtos imutáveis. Isto é enganar o leitor. Sitcom não é sinônimo de repetição de situações. O “situation” é cenário, local, o ecossistema da história, não um déjà-vu de roteirista preguiçoso. Vide The Office, série de Ricky Gervais que conseguia um excelente resultado na versão americana (a original é inglesa, protagonizada pelo próprio Gervais) até Steve Carell se despedir do elenco.

Ela é a única sitcom a trabalhar na base da rebobinagem? Claro que não. “Two And A Half Men”, “Dharma & Greg”, “Reba”, “Son Of A Beach” e outras dezenas fazem uso do mesmo truque.  Porém, nenhuma das produções citadas é fraca como “Friends” no conjunto artístico.

Matt LeBlanc é uma espécie de André Marques brasileiro. Consegue, sem esforço, bater Billy Gardell e Thomas Gibson na escala Augusto Boal de vergonha alheia.  Lisa Kudrow e Courtney Cox nem parecem atrizes.  Mesmo enfiadas em roteiros fraquíssimos, como “PS Eu Te Amo” e “Cougar Town”, foram incapazes de obter destaque. Se elas se aposentaram, ninguém reparou.

Para compensar o looping de piadas e a charlatanice dos intérpretes, os fãs de Friends abusam do argumento “a série é boa porque simboliza a amizade”. Amizade não é isso. Série boa não é isso.

As vidas de Rafinha Bastos

Rafinha Bastos voltou para a Band. Ele participará da temporada 2013 de "A Liga".

Rafinha Bastos voltou para a Band. Ele participará da temporada 2013 de “A Liga”.

Rafinha Bastos é um cara azarado.

Quando, no CQC, vivia sua melhor fase na TV, acabou rifado do programa – e da Band – por fazer uma piada (ruim, mas ainda assim uma piada).

Porque a ironia não tem limites, ganhou, em 2012, um contrato na RedeTV!.

Meses depois, comandaria o primeiro “Saturday Night Live” dominical do mundo.

Exibido durante o tiroteio entre “Pânico”, Silvio Santos, “Fantástico” e “Domingo Espetacular”, não conseguiu passar dos 2 pontos de audiência.

Sem contrato com a emissora de Osasco (a rescisão, pelo divulgado na imprensa, foi amigável), ancorou seu primeiro projeto ficcional.

Na tranquilidade da TV paga, lançou, em junho de 2012, “A Vida de Rafinha Bastos”.

O episódio piloto foi um dos melhores produzidos no Brasil nos últimos anos.

Centrado na função social da piada, repercutiu o “case” Wanessa Camargo. Das engraçadas entradas de Minotauro, mais afeito às câmeras do que o Bruno Mazzeo, à participação”filosofal” de Marília Gabriela, responsável pelo gancho realista da história, tudo apontava para um mesmo (raro) rumo: o equilíbrio do roteiro.

Não abusava do humor rasteiro. Não patinava na dramaticidade rala. Não se apresentava como uma novela, com aquele didatismo insuportável para apresentar história e personagens. Se havia algum problema, era a artificialidade dos amigos humoristas de Bastos. Ainda assim, nada ruim como Bruno Mazzeo.

A boa repercussão nas redes sociais e a relevante audiência da “pré-estreia” motivaram o FX a reapresentar o conteúdo outras vezes. Como acompanhamento, incessantes chamadas, sempre prometendo para um insondável “em breve” a exibição dos doze episódios restantes. Bastou pouco tempo para, apesar do retrospecto positivo de crítica e público, o “em breve” virar “em construção”.

De orçamento novo e meta nova (o FX trocou a produtora da série para “melhorar o ritmo”), “A Vida de Rafinha Bastos” só respirou de verdade em julho de 2013.

Os tais doze episódios viraram oito. Os quarenta e tantos minutos de arte encolheram para vinte dois.

Se a duração dos capítulos ficou equiparada a das sitcoms, a qualidade, felizmente, não ficou.

A acidez cessou um bocado, mas a capacidade de misturar realidade e ficção, híbrido dominado por Larry David, permaneceu no roteiro – e com execução acima de todas as expectativas.

Fixa em seu propósito de posicionar a piada como piada, posição polêmica para o Brasil da Dilma Bolada, do financiamento público de trocadilhos e da espionagem de cacófatos, “A Vida de Rafinha Bastos” apresentou seu último número no dia 7 de setembro.

O ciclo da independência foi renovado.

Falta apenas renovar o ciclo de Rafinha. Dentro e fora do script.

Porque, de todos os azares, nenhum é maior do que viver em um país cinicamente correto. Em um país que rejeita a autenticidade do humor para privilegiar a ficção. Que só é bela porque é de mentira.

“The Walking Dead” empobrece a TV

Cena de "The Walking Dead".

Cena de “The Walking Dead”.

“The Walking Dead” encerrou sua terceira temporada em alta no Brasil.

Principal audiência da categoria no canal pago Fox e o único enlatado a obter médias acima dos 5 pontos na Band, a produção é sucesso também nas livrarias e megastores, onde seus DVDs, Blu-rays e HQs sempre figuram entre os mais vendidos.

Diferentemente do que se imagina, a relação entre o público e a série nada tem a ver com a monstruosidade dos zumbis, os efeitos especiais ou a crueldade presente nas sequências. O ar “blockbuster” é mero acessório na hora de colher o resultado final. O que gera tamanha aproximação é a simplicidade da história.

Divulgada mundo afora como obra cult, “The Walking Dead” é a antítese da propagada premissa.

De um lado da história, sobreviventes. Do outro, mortos-vivos. De um lado, frases feitas. Do outro, grunhidos. De um lado, consequentemente, mocinhos. Do outro, bandidos. Em resumo, “The Walking Dead” é um novelão com cadáveres, sob medida para interessados em sangue. Não há profundidade. Não há evolução. Apenas gemidos e atores desesperados por cachê. Em comparação aos filmes de terror lado B dos anos 1980, nada de novo, com exceção da maquiagem.

Os últimos anos apresentaram um notável amadurecimento entre os dramas americanos. “Família Soprano”, “Mad Men” e, mais recentemente, “Homeland” ilustram bem essa evolução.  A ascensão de “The Walking Dead” é o primeiro indício de regressão neste quadro.

Nós vamos virar reféns dos mortos-vivos.