É entrevista

José Roberto de Toledo assumiu o "É Notícia". Emissora estuda o substituto definitivo para Kennedy Alencar, que decidiu dedicar mais tempo ao seu blog.

José Roberto de Toledo assumiu o “É Notícia”. Emissora estuda o substituto definitivo para Kennedy Alencar, que decidiu dedicar mais tempo ao seu blog.

A RedeTV! iniciou ontem, 6 de outubro, o rodízio de apresentadores para o jornalístico “É Notícia”, exibido após o “Dr.Hollywood”.

José Roberto de Toledo, comentarista político da emissora e de “O Estado de São Paulo”, abriu a bateria de testes entrevistando o filósofo Renato Janine Ribeiro, da USP. Em pauta, a eleição de 2014.

Comparado a Kennedy Alencar, que se desligou da emissora após cinco anos à frente do programa, o desempenho em frente às câmeras deixou muito a desejar, como esperado. No que efetivamente interessa, porém, o desempenho foi melhor.

Quem acompanhou o último programa de Alencar testemunhou vários picos de discordância (únicos possíveis, pois o ibope é uma dízima periódica aberta por 0) dele, o entrevistador, em relação à posição de Aécio Neves, o entrevistado, perante o PT.

A insistência do jornalista em contrapor as esperadas críticas do tucano transformou a combatividade em permissividade. Situação desconfortável aos emissores e receptores da mensagem.

Com Toledo, a julgar por esta primeira experiência, disponível aqui, as preferências políticas não prestarão deferência nem à direita (?) nem à esquerda (?) do Brasil. Um passo preciso rumo ao legítimo jornalismo opinativo – o que incentiva contraposições, não posições.

A turma da dízima periódica merece.

Os dez anos do “Pânico”

"Pânico" trocou a RedeTV! pela Band em 2012.

“Pânico” trocou a RedeTV! pela Band em 2012.

Quem acompanhou a estreia do “Pânico” em 28 de setembro de 2003, na RedeTV!, dificilmente imaginaria que Emilio Surita e seus comandados celebrariam dez anos de história nos domingos da TV brasileira.

O orçamento era limitado. O alcance da emissora era reduzido. O horário escolhido para o debut era dos mais complicados – 18h30, quando o processo de ‘migração’ do futebol já havia acabado. Para piorar, não havia atração predecessora. Ou seja, o programa começava no traço. Faltava apenas o apoio público de José Serra para a causa ficar ainda mais impopular.

A invisibilidade durou cerca de nove meses. O ibope, sempre entre um e três pontos, subia à medida que o apoio da crítica crescia. Após oito anos de embate intenso entre Gugu e Faustão, finalmente havia uma novidade para ser indicada aos leitores. Uma possibilidade para a mudança. Deus e os marqueteiros políticos sabem como os brasileiros são apegados ao verbo “mudar”.

Com o sopapo aplicado por Victor Fasano em Repórter Vesgo, o ibope aferiu 9% de pico, primeiro resultado relevante. A esquete de Silvio Santos na praia bateu 10%. A saga para fazer Clodovil calçar as sandálias da humildade garantiu 13%, além do primeiro minuto da história à frente do SBT.

A acidez das piadas e a inconsequência nas abordagens lavavam a alma de um grupo saturado do bom mocismo e da bajulação a atores e cantores que já aporrinhavam a paciência durante a semana. Isso em uma época onde o ápice da subversão era criar uma comunidade marota no Orkut.

O que há de diferente entre aquele “Pânico”, da RedeTV!, e o de hoje, da Band?

Artisticamente, nada. O elenco, na verdade, é o melhor de todas as temporadas. Guilherme Santana, Christian Pior e Eduardo Sterblitch são absolutamente talentosos. A liberdade editorial também é a mesma. O que mudou foi a faixa horária.

A pressão de alguns órgãos populares sem apoio popular resultou, em 2006, na principal ameaça ao futuro da atração. Proibido de ser veiculado antes das 20 horas, o humorístico trocou a concorrência dos programas de auditório pela companhia das revistas eletrônicas. Perfis obviamente díspares.

Agregado a uma faixa ainda mais perigosa, que canibalizou recentemente o tarimbado Gugu, o “Pânico” substituiu as piadas com fio condutor, que valorizavam a inteligente edição de sua equipe, pelas sacadas rápidas. As bundas e o humor físico, igualmente presentes na primeira fase, apenas ganharam mais vitrines. Foi, enfim, uma escolha pela sobrevivência, interpretada como covardia pela absoluta poltronice intelectual de quem desconhece a guerra pela audiência.

Na rádio Jovem Pan, Emílio sempre dizia, quando questionado sobre o rumo dos quadros e integrantes do programa, que o público queria ver o circo pegar o fogo e ver o palhaço morrer queimado. Por todos os serviços prestados nos últimos dez anos ao humor e à TV, é bastante justo que este circo continue intacto.

O dono do espetáculo é Silvio Luiz

Silvio Luiz

Silvio Luiz

Desde sua fundação, em 1999, a RedeTV! transmitiu Champions League, UEFA Europa League, Campeonato Italiano, Campeonato Inglês, Copa do Brasil, NBA, UFC, Superliga de Vôlei e Fórmula Indy.

Com a saída do Pânico, a emissora trocou estes grandes eventos por investimentos de menor impacto. AFC, Fórmula 1 Aquática, X-Games, motocross e campeonatos de futebol Sub-20 são as atuais estrelas da grade nos sábados e domingos. Apesar do reduzido apelo das novas atrações, a audiência não desabou. E a explicação para o milagre da manutenção do ibope é bastante simples.

A grande contratação da RedeTV! nos últimos anos aconteceu em 2009. A chegada de Silvio Luiz, profissional com extensa experiência na TV brasileira, gerou a credibilidade e a relevância que inexistiam na emissora desde a saída de Jorge Kajuru, até hoje conhecido por seu magnetismo com o público.

Não importa se ele está em Milão para transmitir Inter x Milan ou se ele está no “tubo”, preparando o gogó para narrar Santo André x Grêmio Osasco. Ele confere entusiasmo a qualquer partida. É justamente por isso que as partidas da série A2 atingiram picos de 2 pontos algumas vezes na temporada 2013. Afinal, ninguém liga a TV para ver a partida. Liga para ver a capacidade de improvisação de Silvio Luiz. Seu inesgotável repertório. É “Olho no narrador”, não “olho no lance”.

Atualmente, Silvio está no ar todos os dias da semana. Além dos jogos de futebol, ele comanda o “Bola Dividida”, debate esportivo exibido após o programa matinal do João Kléber. A audiência, mais uma vez, tem correspondido. Ela sabe o nome do craque. E o número da camisa.

Teste de Fidelidade, Altamiro Borges e o traço

O novo Teste de Fidelidade

O novo Teste de Fidelidade

Altamiro Borges é jornalista.

Um jornalista que não gosta de jornalismo.

Titular do Blog do Miro, “uma trincheira na luta contra a ditadura midiática”, ele dedica 95% de seu tempo ao noticiário político.

Seu trabalho consiste em acordar, tomar café da manhã e acompanhar os principais veículos de comunicação do país na busca por notícias “negativas” sobre o governo federal, isto é, tudo que pareça crítica.

Feito o clipping, ele perfila uma série de bordões e siglas infames para convencer os leitores de que aquelas matérias não são sérias, de que o conteúdo transmitido por aqueles grupos é contaminado por interesses da iniciativa privada. Não raro, ele recorre ao Blog do Planalto, um grupo ligado à assessoria de imprensa do governo, para desenvolver de maneira plena sua linha de raciocínio, calcificada na eterna desconfiança com a imprensa.

Quando não está brindando o público com suas teorias anacrônicas de perseguição social por parte dos barões da mídia (o PT certamente é o único partido do mundo a vencer três eleições presidenciais consecutivas sem querer desgarrar do rótulo de minoria), Altamiro é comentarista de TV.

No dia 10 de fevereiro, após uma crítica publicada no ótimo blog do Maurício Stycer, ele revelou sua antipatia pelo programa “Teste de Fidelidade”, relançado a toque de caixa pela RedeTV! para substituir o SNL e ampliar os índices de sua grade dominical, desfalcada desde a saída do “Pânico”, em 2012.

Altamiro começa seu desagravo afirmando que a emissora está quase falida – palpite disfarçado de informação – e que João Kléber já havia sido rifado da TV brasileira oito anos atrás, por conta da movimentação de “seis entidades da sociedade civil contra as suas baixarias na emissora”. Transcrevo um trecho do artigo, me desculpando desde já com o leitor pela indelicadeza de forçá-lo a ler as considerações a seguir.

“Em 2005, o Coletivo Intervozes e outras cinco entidades civil conseguiram obter o “direito de resposta” contra o mesmo apresentador, que abusava dos preconceitos no quadro “Tardes Quentes” (…). No lugar do programa de baixaria, a Rede TV! foi obrigada pela Justiça a veicular 30 horas de programação integralmente idealizada e produzida pelas organizações envolvidas na Ação Civil Pública contra a emissora. Durante os 30 dias de exibição, debates, vídeos, entrevistas e até comerciais traziam à telinha os direitos humanos e a voz dos setores historicamente excluídos,  da tevê brasileira”.

O mínimo que se espera de um profissional de comunicação é que ele apure a informação trabalhada. A RedeTV! não foi punida por um quadro, mas sim por um programa de TV. A diferença entre um “quadro” e um “programa” é bastante elementar. Até o Leão Lobo sabe isso. Não bastasse esse lapso, Miro erra o nome da atração. “Tardes Quentes” é o que vive o pessoal de Teresina. João Kléber exibia o “Tarde Quente”. Faz diferença? Faz. Não existe notícia parcialmente correta.

Na sequência, Borges diz que a RedeTV! “foi obrigada” a exibir os programas. É possível imaginar a satisfação dele ao teclar “foi obrigada”. Pois bem, a determinação judicial era outra. 60 horas de conteúdo e multa de R$ 500 mil. A emissora preferiu ter seu sinal suspenso para renegociar a decisão. Pagou multa menor e cortou pela metade o tempo de veiculação dos programas educativos, cujos “debates, vídeos, entrevistas e até comerciais” derrubaram o ibope de 4% para médias entre 0 e 1%. Aparentemente, os setores historicamente excluídos da TV não gostam de ser ver na TV. Faz algum sentido para vocês?

Pimpão, ele finda o artigo sugerindo uma nova ação popular para “barrar não apenas o retorno das baixarias de João Kleber – mas a própria baixaria da RedeTV! Este espaço, que é público, seria muito melhor ocupado por uma emissora pública – ou mais direto, pela TV Brasil.”

Altamiro não tem a menor ideia de audiência, o que é absolutamente coerente. Da turma de blogueiros progressistas, ele é o lanterninha de repercussão. Perde feio para o “Conversa Afiada”, para o “VioMundo”. O Twitter do Emir Sader é mais acessado que seu blog, provavelmente. No entanto, espanta a pretensão em acelerar a morte de uma emissora privada para substituí-la por outra emissora morta – a TV Brasil.

Mesmo em crise, vendendo cerca de 50% de sua grade diária, a RedeTV! deve fechar o ano com 0,9 de média diária de ibope. Quanto soma a TV Brasil? Traço. Traço é a terminologia de TV para “sem audiência”. No Rio de Janeiro, onde não há TV Cultura, a média é discretamente maior, mas abaixo da CNT, a sexta rede fluminense. Curiosa visão democrática esta, em que produtos assistidos pelo público devem ser descartados em detrimento daqueles que batem a defesa do Náutico na categoria “asco”.

Criticar o gosto? Ok. Guilhotinar preferências? Isso sim parece ditadura midiática.