O passado mascarado de Luciano Huck

Tiazinha: personagem garantia picos de 8 pontos ao "H".

Tiazinha: personagem garantia picos de 8 pontos ao “H”.

O homem que hoje constrói casas um dia construiu fetiches.

Luciano Huck não brotou do asfalto rumo à Globo, em 2000. Ele teve um passado na TV. Um passado mascarado. Depilado. E rebolativo.

Aposta da Band no fim dos anos 1990, o jovem apresentador galgou um lugar ao sol estimulando o público adolescente, especificamente o masculino.

Acompanhado pelo indecifrável Théo Werneck, o Liminha das pick-ups, Huck comandou por boas temporadas o “H”, versão softporn do “Programa Livre”.

No lugar dos convidados engravatados sabatinados por Groisman, a alma dos aniversários infinitos, mulheres (quase) peladas tomavam o palco, interagindo com o host.

De todas as modelos, a mais famosa atendia pelo simpático apelido “Tiazinha”, que  garantia picos de quase 10 pontos à Band quando tirava o roupão.

Dotada de máscara e chicote, ela depilava os adolescentes que erravam perguntas de atualidades.

A performance rendeu uma capa da Playboy, homenagens variadas (não pergunte o tipo) e um disco, com apoio do Vinny.

O hit “Uh! Tiazinha”, aliás, abre o espetáculo abaixo.

 

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A roda do “Esquenta”

Regina Casé conseguiu um programa pior que "Muvuca".

Regina Casé conseguiu um programa pior que “Muvuca”.

Arlindo Cruz acaba de aparecer em meu televisor.

Ele é o anfitrião de “Esquenta”, projeto exibido pela Globo antes do futebol, aos domingos.

Criado para aproximar a maior emissora do país ao grupo socioeconômico objeto do desejo, a classe C, o projeto não economiza nas gírias e gatilhos populares para jurar amor eterno ao povo.

Em 21 de setembro, por exemplo, o espirituoso redator do programa inseriu no script do sambista a frase “entra na roda, Regina Casé”.

A originalíssima tirada era um chamado para o tema daquela edição de “Esquenta”: a capoeira.

Vestida como um atabaque, a apresentadora obedeceu prontamente o pedido do colega de palco, que estava coberto de correntes e atrofiado em um sofá.

Antes de colocar água no feijão, Regina chamou seus convidados famosos, aqueles que, no fim das contas, tomam conta dos quase 90 minutos de gravação.

Paula Fernandes foi a primeira. Ovacionada, parecia não entender a reação do público. O que faz sentido, se considerarmos aquela voz insuportável e as letras enfadonhas.

Rodriguinho veio a seguir. Ex-vocalista do Travessos, grupo de pagode famoso em 2000, ele é um reconhecido compositor de músicas românticas. Ou pensa ser. Ou pretende ser.

MC Marcely, funkeira cheia de atitude, também conversou com Regina. Não escreverei nada sobre o encontro porque o dialeto praticado por elas era impraticável. Deborah Secco também estava lá, perdida em um ponto distante, ao lado de pessoas cujos nomes eu convenientemente deixei de anotar.

Beth Carvalho fechou a escalação. Há muito tempo sem lançar sucessos, ela tem se especializado em conceder entrevistas absurdas. Em 2011, para o iG, afirmou, por exemplo, que as armas nas favelas cariocas são enviadas pelos americanos “para acabar com a cultura dos morros”. E que Cuba não precisa de um segundo partido político porque é um “contra todo o imperialismo dos Estados Unidos”. Democracia na laje.

Sem precisar creditar mais ninguém do império dos artistas, a eterna musa de “Os Sete Gatinhos” começou a importunar os capoeiristas enfileirados no palco, àquela altura atordoados pelas bobagens ali repetidas.

Primeiro, Regina classificou a capoeira como “esporte da liberdade”. Logo depois, mudou o título para “esporte da inclusão”. Quando ensaiava um terceiro poder para o esporte, o que o colocaria em condição de rivalizar com o Capitão Planeta, acabou interrompida por uma demonstração ensaiada pelos coitados dos atletas.

Como nos musicais do Castelo Rá-Tim-Bum, os versos que embalaram a roda de capoeira ganharam legendas coloridas. Não sei se foi uma maneira da Globo chamar a classe C de analfabeta. De fato, há todo um esforço dos presentes em espancar a concordância nominal. Contabilizei dois “As pessoa” durante o show. Um deles rolou durante o merchandising de uma empresa de refrigerantes.  Porém, o pisca-pisca pode, com facilidade, ser também uma tentativa de relacionar o grafismo ao guarda-roupa de Casé.

Infelizmente, o humor em “Esquenta” vai além da coloração do cabelo de Beth Carvalho. No meio do programa, uma personagem (?) resolve implicar com os outros para uma daquelas brincadeiras voluntárias muito voluntárias. É quase o mesmo recurso utilizado pelo Café com Bobagem em 1999, quando os intervalos do “Domingo Legal” eram gravados e redublados. A referência causava riso pela grosseria. A versão nova causa tristeza.

Por fim, há um quadro de sabedoria popular. No caso, nada de português ou matemática, mas sim aquelas sacadas geniais que colocam o país em penúltimo lugar no ranking de conhecimento – e em último no ranking de criatividade.

De olho no talento e no incentivo profissional, a produção se encarregou de trazer três marmanjos vestidos de dinossauro. O festival de pulos e roncos garantiu 15 pontos de audiência – um acima da média obtida pelo programa todo.

Apesar de ilustrar a classe C como uma horda de brasileiros sorridentes, avulsos e interessados em futilidades, “Esquenta” é celebrado pelo público – e pela própria Globo – como uma resposta ao elitismo da TV aberta. Tenho certeza que os americanos têm alguma coisa a ver com essa história.

Teste de Fidelidade, Altamiro Borges e o traço

O novo Teste de Fidelidade

O novo Teste de Fidelidade

Altamiro Borges é jornalista.

Um jornalista que não gosta de jornalismo.

Titular do Blog do Miro, “uma trincheira na luta contra a ditadura midiática”, ele dedica 95% de seu tempo ao noticiário político.

Seu trabalho consiste em acordar, tomar café da manhã e acompanhar os principais veículos de comunicação do país na busca por notícias “negativas” sobre o governo federal, isto é, tudo que pareça crítica.

Feito o clipping, ele perfila uma série de bordões e siglas infames para convencer os leitores de que aquelas matérias não são sérias, de que o conteúdo transmitido por aqueles grupos é contaminado por interesses da iniciativa privada. Não raro, ele recorre ao Blog do Planalto, um grupo ligado à assessoria de imprensa do governo, para desenvolver de maneira plena sua linha de raciocínio, calcificada na eterna desconfiança com a imprensa.

Quando não está brindando o público com suas teorias anacrônicas de perseguição social por parte dos barões da mídia (o PT certamente é o único partido do mundo a vencer três eleições presidenciais consecutivas sem querer desgarrar do rótulo de minoria), Altamiro é comentarista de TV.

No dia 10 de fevereiro, após uma crítica publicada no ótimo blog do Maurício Stycer, ele revelou sua antipatia pelo programa “Teste de Fidelidade”, relançado a toque de caixa pela RedeTV! para substituir o SNL e ampliar os índices de sua grade dominical, desfalcada desde a saída do “Pânico”, em 2012.

Altamiro começa seu desagravo afirmando que a emissora está quase falida – palpite disfarçado de informação – e que João Kléber já havia sido rifado da TV brasileira oito anos atrás, por conta da movimentação de “seis entidades da sociedade civil contra as suas baixarias na emissora”. Transcrevo um trecho do artigo, me desculpando desde já com o leitor pela indelicadeza de forçá-lo a ler as considerações a seguir.

“Em 2005, o Coletivo Intervozes e outras cinco entidades civil conseguiram obter o “direito de resposta” contra o mesmo apresentador, que abusava dos preconceitos no quadro “Tardes Quentes” (…). No lugar do programa de baixaria, a Rede TV! foi obrigada pela Justiça a veicular 30 horas de programação integralmente idealizada e produzida pelas organizações envolvidas na Ação Civil Pública contra a emissora. Durante os 30 dias de exibição, debates, vídeos, entrevistas e até comerciais traziam à telinha os direitos humanos e a voz dos setores historicamente excluídos,  da tevê brasileira”.

O mínimo que se espera de um profissional de comunicação é que ele apure a informação trabalhada. A RedeTV! não foi punida por um quadro, mas sim por um programa de TV. A diferença entre um “quadro” e um “programa” é bastante elementar. Até o Leão Lobo sabe isso. Não bastasse esse lapso, Miro erra o nome da atração. “Tardes Quentes” é o que vive o pessoal de Teresina. João Kléber exibia o “Tarde Quente”. Faz diferença? Faz. Não existe notícia parcialmente correta.

Na sequência, Borges diz que a RedeTV! “foi obrigada” a exibir os programas. É possível imaginar a satisfação dele ao teclar “foi obrigada”. Pois bem, a determinação judicial era outra. 60 horas de conteúdo e multa de R$ 500 mil. A emissora preferiu ter seu sinal suspenso para renegociar a decisão. Pagou multa menor e cortou pela metade o tempo de veiculação dos programas educativos, cujos “debates, vídeos, entrevistas e até comerciais” derrubaram o ibope de 4% para médias entre 0 e 1%. Aparentemente, os setores historicamente excluídos da TV não gostam de ser ver na TV. Faz algum sentido para vocês?

Pimpão, ele finda o artigo sugerindo uma nova ação popular para “barrar não apenas o retorno das baixarias de João Kleber – mas a própria baixaria da RedeTV! Este espaço, que é público, seria muito melhor ocupado por uma emissora pública – ou mais direto, pela TV Brasil.”

Altamiro não tem a menor ideia de audiência, o que é absolutamente coerente. Da turma de blogueiros progressistas, ele é o lanterninha de repercussão. Perde feio para o “Conversa Afiada”, para o “VioMundo”. O Twitter do Emir Sader é mais acessado que seu blog, provavelmente. No entanto, espanta a pretensão em acelerar a morte de uma emissora privada para substituí-la por outra emissora morta – a TV Brasil.

Mesmo em crise, vendendo cerca de 50% de sua grade diária, a RedeTV! deve fechar o ano com 0,9 de média diária de ibope. Quanto soma a TV Brasil? Traço. Traço é a terminologia de TV para “sem audiência”. No Rio de Janeiro, onde não há TV Cultura, a média é discretamente maior, mas abaixo da CNT, a sexta rede fluminense. Curiosa visão democrática esta, em que produtos assistidos pelo público devem ser descartados em detrimento daqueles que batem a defesa do Náutico na categoria “asco”.

Criticar o gosto? Ok. Guilhotinar preferências? Isso sim parece ditadura midiática.

Caso “Latininho” completa 17 anos

A Veja foi uma das revistas que abordou o fenômeno "mundo cão" da TV. Um ano depois apareceria o "Sushi Erótico" e o "Sentindo Na Pele".

A Veja foi uma das revistas que abordou o fenômeno “mundo cão” da TV. Um ano depois apareceria o “Sushi Erótico” e o “Sentindo Na Pele”.

Rafael Pereira do Santos é capixaba.

Portador da Síndrome de Seckel, falha genética irreversível que ocasiona microcefalia, retardo mental e nanismo, ele visitou, em 8 de setembro de 1996, o Rio de Janeiro. Não para se consultar com um médico. Não para conhecer o Cristo Redentor. A razão de sua viagem era artística.

Acompanhado por um enfermeiro, o cidadão, no suporte de seus 15 anos, 8 quilos e 87 cm, protagonizaria o “Domingão do Faustão”, que, arrastado para um novo horário, enfrentava dificuldades para bater Gugu e seu “Domingo Legal”.

Caracterizado como o cantor Latino (blusa das Paquitas, camiseta sem estampa, bigode de cobrador de ônibus e penteado feio), sucesso das rádios FM naquela época, ele foi entregue no palco pela produção do programa sob o pseudônimo “Latininho”.

Obviamente sem entender o que acontecia ao seu redor, Rafael se movimentou no palco, tentando acompanhar a versão tupiniquim do Prince e ignorando os cortes de Faustão, que repetia a todo instante “esta fera foi descoberta (sic) pelo Zezé Di Camargo e Luciano”, em uma clara tentativa de desvincular sua imagem do freak show ali apresentado.

Responsável por um pico de 30 pontos de audiência, o garoto fez mais do que dançar no palco. Serviu de escada para gracejos, focalizado generosamente pelas câmeras e, vejam só, foi brincar no colo do Caçulinha.

A repercussão, claro, não foi positiva. Até mesmo o pedido de suspensão das atividades da Rede Globo foi encaminhado para o juiz Siro Darlan, da Vara da Infância e da Juventude.

Na tentativa de apagar o gigantesco incêndio, Faustão concedeu diversas entrevistas.

Três dias após o freak show, ele afirmou à Folha de São Paulo, por exemplo, que o seu diretor, Carlos Manga, havia solicitado a criação de um código de ética envolvendo a Globo e o SBT ainda em agosto. Também disse que eles detestavam apelar, porém “a concorrência nos pressiona, e a gente tem que enveredar pelo sensacionalismo”. Por fim, destacou: “Acabamos optando por mostrar Rafael porque achamos que isso deverá ajudá-lo. Ele pode vir a fazer sucesso como o Nelson Ned”.

Rafael não fez sucesso como o Nelson Ned. Na verdade, só ocupou páginas dos jornais e revistas para repercutir a falta de limites da equipe do “Domingão do Faustão” e deflagrar o debate sobre a influência do ibope na qualidade das atrações – quórum este, que, a julgar pelo sushi erótico, não serviu para nada.

O último registro de Latininho na imprensa data de 2001. Processada pela família de Rafael, a Rede Globo acabou condenada a pagar uma indenização de R$ 1 milhão, somada a juros retroativos. Foi, por tabela, também a última aparição de alguém debilitado pela Síndrome de Seckel em nossa TV. “Mais comportada”, hoje ela deixa de lado as pessoas doentes para reformar casas e acompanhar o cotidiano de anões – mais propensos a fazerem sucesso, como o Nelson Ned.