“Avenida Brasil” não transformou a teledramaturgia brasileira

Carminha: o vilão Tex Avery. Um berro para cada queda.

Carminha: o vilão Tex Avery. Um berro para cada queda.

João Emanuel Carneiro, autor de “Avenida Brasil”, não é um gênio.

Adriana Esteves, intérprete da já icônica Carminha, não merece o Emmy.

A Classe C não foi descoberta e reverberada pelos moradores do Divino.

Murilo Benício não tomou jeito. Continua mau ator.

Motivados pelos impressionantes índices de audiência de “Avenida Brasil”, diversos colunistas dispararam uma sequência de elogios sobre o roteiro da novela e seus protagonistas.

Disseram que ela era dinâmica. Fizeram comparações com “Homeland”. Alçaram Carminha ao posto de grande vilã. Sustentaram que a novela tinha ousadia em seu texto.

A novela, de fato, foi dinâmica. Adriana Esteves e Débora Falabella estavam sempre em movimento. Uma tensão localizada, portanto. Os outros núcleos? Ficaram congelados, como os encerramentos dos capítulos. Nem a cruzada pelo beijo gay durou muito tempo – o que foi excelente, pois evitou discussões envolvendo Silas Malafaia e outros nobres intelectuais do Brasil do século 21.

A partir das comparações com “Homeland”, porém, é difícil levar a sério o estardalhaço dos cegos por “Avenida Brasil”.

Vencedora do Emmy, a série liderada por Damian Lewis é fúnebre, tensa e ambígua. O conceito de vingança das tramas brasileiras, sempre ligado ao marido bonito da vizinha e ao dinheiro de alguém, não faz frente alguma ao contexto geopolítico de “Homeland”.

Suspeitar que Carminha promova no Brasil a ideia do anti-herói é outro despropósito. Adriana Esteves foi obrigada a atuar a novela inteira como aquele Lobo que atazanava o “Droopy”. Max fez bobagem? Gritos histéricos. Nina tem as fotos? Berros e puxões de cabelo. Os olhos não saltavam e ela não mudava de cor por impossibilidade.

O texto, por conter uns palavrões, foi logo festejado como emissor das boas novas da dramaturgia tupiniquim. Não sei quem inventou a relação entre ofensas e amadurecimento. Só sei que é um baita equívoco. O que você notou de diferente entre o texto falado pelos atores desta novela e o interpretado em “A Favorita”, última novela de João Emanuel Carneiro? Nada. Nem a relação entre mocinho e vilão foi diferente. A rasa ambiguidade trabalhada pelo autor já estava lá.

O Brasil precisa se decidir. Ou faz novelas à moda antiga ou envereda de uma vez para o ensemble show, o formato das series americanas, em que personagens são pesados pela inteligência psicológica. A tentativa farsesca e acovardada representada por “Avenida Brasil” não pode ser encarada como evolução, nem como modelo. Não faltam bons roteiristas ao Brasil. Mesmo autores de novelas, como o excepcional Silvio de Abreu, criador de “A Próxima Vítima”, última inovação da nossa TV, estão dispostos a experimentar formatos novos, abordagens empolgantes e temas interessantes. Por que não tentar?

Vera Holtz, Otávio Augusto, Marcio Caruso e a própria Adriana Esteves, entre tantos outros nomes da nova e velha guarda, merecem papéis melhores.

Ninguém quer viver de Oi Oi Oi. Ninguém merece viver congelado.

A sociologia de Ivo Holanda

"Vai Fazer O Quê?" mistura jornalismo, comportamento e pegadinhas.

“Vai Fazer O Quê?” mistura jornalismo, comportamento e pegadinhas.

Pobre Ernesto Paglia. Trocou os dias de enjoo no “Globo Mar” por uma azia semanal no “Fantástico”.

Vivendo a pior turbulência desde a “Casa dos Artistas”, o “Show da Vida” (nunca um apelido jogou tão contra) escalou o jornalista para comandar o quadro “Vai fazer o quê?”, em que atores simulam situações controversas para avaliar a reação dos cidadãos.

Desrespeito aos idosos, suspeita de furto, agressão a mendigos, pessoas com a camisa da Portuguesa. Todo tipo de manifestação incomum, marginal, acabou encenada pela produção da Globo. Os atores, muito ruins, pulsavam a polêmica. Os brasileiros, muito confusos, recrudesciam a Lei de Gérson. Ernesto Paglia, muito envergonhado, descia da van para repercutir o teatro. Eis o script, digno dos flagras “ao vivo” do programa de João Kléber.

Para abordar a homofobia, tema do quadro em 1º de setembro, o “teste de dignidade” infiltrou dois homens em um shopping carioca. Eles trocaram carinhos na praça de alimentação até serem interrompidos pelo filho do Valderrama, que fez uns gestos e repetiu o discurso indignado mais clichê da história. Enquanto as câmeras escondidas registram as caras e bocas do público, a edição despeja pequenas entrevistas e uns números de pesquisa googlados provavelmente na véspera da gravação. Quem se comportou bem ganhou parabéns. Quem se comportou mal também ganhou parabéns. O Brasil gosta de dar e receber parabéns.

Não há problema algum em fazer exercícios do tipo e exibi-los na TV. Incomoda apenas a pretensão em transformar essas câmeras escondidas em exercício sociológico.

No mesmo horário do “Fantástico”, por exemplo, RedeTV!  e SBT exibem pegadinhas. Em geral, ou elas arremessam tortas ou colocam pessoas em situações controversas, protagonizadas pelas mesmas caricaturas do quadro de Ernesto Paglia. Aplicando o padrão de “Vai fazer o quê?”, se a Globo comprasse o conteúdo das concorrentes e trocasse as narrações engraçadinhas por intervenções de um repórter qualquer, elas surgiriam como novas peças de “jornalismo verdade”. É como se dissessem que o Ivo Holanda é um gênio incompreendido, impedido de revelar as incoerências da sociedade porque precisava chamar alguém de gordo para poder gritar “produção, produção, me ajuda” antes de apanhar.

2013 pode ficar marcado como o ano da reciclagem em nossa TV. Do canal que reprisa cinco novelas em sequência ao programa que celebra 40 anos agregando filosofia às pegadinhas, todo mundo deixou a inovação de lado para (tentar) reviver os picos de audiência do passado.

Ainda veremos Ernesto Paglia correr de seus testados. Ainda veremos Ivo Holanda enjoado no mar.

A roda do “Esquenta”

Regina Casé conseguiu um programa pior que "Muvuca".

Regina Casé conseguiu um programa pior que “Muvuca”.

Arlindo Cruz acaba de aparecer em meu televisor.

Ele é o anfitrião de “Esquenta”, projeto exibido pela Globo antes do futebol, aos domingos.

Criado para aproximar a maior emissora do país ao grupo socioeconômico objeto do desejo, a classe C, o projeto não economiza nas gírias e gatilhos populares para jurar amor eterno ao povo.

Em 21 de setembro, por exemplo, o espirituoso redator do programa inseriu no script do sambista a frase “entra na roda, Regina Casé”.

A originalíssima tirada era um chamado para o tema daquela edição de “Esquenta”: a capoeira.

Vestida como um atabaque, a apresentadora obedeceu prontamente o pedido do colega de palco, que estava coberto de correntes e atrofiado em um sofá.

Antes de colocar água no feijão, Regina chamou seus convidados famosos, aqueles que, no fim das contas, tomam conta dos quase 90 minutos de gravação.

Paula Fernandes foi a primeira. Ovacionada, parecia não entender a reação do público. O que faz sentido, se considerarmos aquela voz insuportável e as letras enfadonhas.

Rodriguinho veio a seguir. Ex-vocalista do Travessos, grupo de pagode famoso em 2000, ele é um reconhecido compositor de músicas românticas. Ou pensa ser. Ou pretende ser.

MC Marcely, funkeira cheia de atitude, também conversou com Regina. Não escreverei nada sobre o encontro porque o dialeto praticado por elas era impraticável. Deborah Secco também estava lá, perdida em um ponto distante, ao lado de pessoas cujos nomes eu convenientemente deixei de anotar.

Beth Carvalho fechou a escalação. Há muito tempo sem lançar sucessos, ela tem se especializado em conceder entrevistas absurdas. Em 2011, para o iG, afirmou, por exemplo, que as armas nas favelas cariocas são enviadas pelos americanos “para acabar com a cultura dos morros”. E que Cuba não precisa de um segundo partido político porque é um “contra todo o imperialismo dos Estados Unidos”. Democracia na laje.

Sem precisar creditar mais ninguém do império dos artistas, a eterna musa de “Os Sete Gatinhos” começou a importunar os capoeiristas enfileirados no palco, àquela altura atordoados pelas bobagens ali repetidas.

Primeiro, Regina classificou a capoeira como “esporte da liberdade”. Logo depois, mudou o título para “esporte da inclusão”. Quando ensaiava um terceiro poder para o esporte, o que o colocaria em condição de rivalizar com o Capitão Planeta, acabou interrompida por uma demonstração ensaiada pelos coitados dos atletas.

Como nos musicais do Castelo Rá-Tim-Bum, os versos que embalaram a roda de capoeira ganharam legendas coloridas. Não sei se foi uma maneira da Globo chamar a classe C de analfabeta. De fato, há todo um esforço dos presentes em espancar a concordância nominal. Contabilizei dois “As pessoa” durante o show. Um deles rolou durante o merchandising de uma empresa de refrigerantes.  Porém, o pisca-pisca pode, com facilidade, ser também uma tentativa de relacionar o grafismo ao guarda-roupa de Casé.

Infelizmente, o humor em “Esquenta” vai além da coloração do cabelo de Beth Carvalho. No meio do programa, uma personagem (?) resolve implicar com os outros para uma daquelas brincadeiras voluntárias muito voluntárias. É quase o mesmo recurso utilizado pelo Café com Bobagem em 1999, quando os intervalos do “Domingo Legal” eram gravados e redublados. A referência causava riso pela grosseria. A versão nova causa tristeza.

Por fim, há um quadro de sabedoria popular. No caso, nada de português ou matemática, mas sim aquelas sacadas geniais que colocam o país em penúltimo lugar no ranking de conhecimento – e em último no ranking de criatividade.

De olho no talento e no incentivo profissional, a produção se encarregou de trazer três marmanjos vestidos de dinossauro. O festival de pulos e roncos garantiu 15 pontos de audiência – um acima da média obtida pelo programa todo.

Apesar de ilustrar a classe C como uma horda de brasileiros sorridentes, avulsos e interessados em futilidades, “Esquenta” é celebrado pelo público – e pela própria Globo – como uma resposta ao elitismo da TV aberta. Tenho certeza que os americanos têm alguma coisa a ver com essa história.

Caso “Latininho” completa 17 anos

A Veja foi uma das revistas que abordou o fenômeno "mundo cão" da TV. Um ano depois apareceria o "Sushi Erótico" e o "Sentindo Na Pele".

A Veja foi uma das revistas que abordou o fenômeno “mundo cão” da TV. Um ano depois apareceria o “Sushi Erótico” e o “Sentindo Na Pele”.

Rafael Pereira do Santos é capixaba.

Portador da Síndrome de Seckel, falha genética irreversível que ocasiona microcefalia, retardo mental e nanismo, ele visitou, em 8 de setembro de 1996, o Rio de Janeiro. Não para se consultar com um médico. Não para conhecer o Cristo Redentor. A razão de sua viagem era artística.

Acompanhado por um enfermeiro, o cidadão, no suporte de seus 15 anos, 8 quilos e 87 cm, protagonizaria o “Domingão do Faustão”, que, arrastado para um novo horário, enfrentava dificuldades para bater Gugu e seu “Domingo Legal”.

Caracterizado como o cantor Latino (blusa das Paquitas, camiseta sem estampa, bigode de cobrador de ônibus e penteado feio), sucesso das rádios FM naquela época, ele foi entregue no palco pela produção do programa sob o pseudônimo “Latininho”.

Obviamente sem entender o que acontecia ao seu redor, Rafael se movimentou no palco, tentando acompanhar a versão tupiniquim do Prince e ignorando os cortes de Faustão, que repetia a todo instante “esta fera foi descoberta (sic) pelo Zezé Di Camargo e Luciano”, em uma clara tentativa de desvincular sua imagem do freak show ali apresentado.

Responsável por um pico de 30 pontos de audiência, o garoto fez mais do que dançar no palco. Serviu de escada para gracejos, focalizado generosamente pelas câmeras e, vejam só, foi brincar no colo do Caçulinha.

A repercussão, claro, não foi positiva. Até mesmo o pedido de suspensão das atividades da Rede Globo foi encaminhado para o juiz Siro Darlan, da Vara da Infância e da Juventude.

Na tentativa de apagar o gigantesco incêndio, Faustão concedeu diversas entrevistas.

Três dias após o freak show, ele afirmou à Folha de São Paulo, por exemplo, que o seu diretor, Carlos Manga, havia solicitado a criação de um código de ética envolvendo a Globo e o SBT ainda em agosto. Também disse que eles detestavam apelar, porém “a concorrência nos pressiona, e a gente tem que enveredar pelo sensacionalismo”. Por fim, destacou: “Acabamos optando por mostrar Rafael porque achamos que isso deverá ajudá-lo. Ele pode vir a fazer sucesso como o Nelson Ned”.

Rafael não fez sucesso como o Nelson Ned. Na verdade, só ocupou páginas dos jornais e revistas para repercutir a falta de limites da equipe do “Domingão do Faustão” e deflagrar o debate sobre a influência do ibope na qualidade das atrações – quórum este, que, a julgar pelo sushi erótico, não serviu para nada.

O último registro de Latininho na imprensa data de 2001. Processada pela família de Rafael, a Rede Globo acabou condenada a pagar uma indenização de R$ 1 milhão, somada a juros retroativos. Foi, por tabela, também a última aparição de alguém debilitado pela Síndrome de Seckel em nossa TV. “Mais comportada”, hoje ela deixa de lado as pessoas doentes para reformar casas e acompanhar o cotidiano de anões – mais propensos a fazerem sucesso, como o Nelson Ned.