A revolução foi televisionada

A população visitou o Congresso. Essa é a imagem que vai estampar as casas dos jornais e revistas semanais.

A população visitou o Congresso. Essa é a imagem que vai estampar as casas dos jornais e revistas semanais.

O “5º Grande ato contra o aumento das passagens” teve extensa cobertura de Record, Globo News e Band, canais que já haviam dedicado bom espaço de suas grades nas primeiras manifestações realizadas.

A transmissão da Record teve início às 17h00, ainda no “Programa da Tarde”, revista eletrônica vespertina. Britto Jr. recebeu um dos comentaristas de segurança da rede, exibiu imagens do Comandante Hamilton e se despediu às 17h20 para dar lugar ao “Cidade Alerta”, ancorado por Marcelo Rezende.

A Globo News, primeira a exibir imagens também dos protestos de Brasília, Rio de Janeiro, Salvador e Belo Horizonte, iniciou os trabalhos às 17h15, quando cancelou a reprise do programa “Manhattan Connection”.

A Band foi a última a integrar este “pool”, por volta das 17h45, com o “Brasil Urgente”, em horário alternativo por conta da Copa das Confederações – as demais emissoras promoveram coberturas menores ou inseriram boletins em suas programações, caso da Globo, que, em algumas praças, mutilou “Flor do Caribe”.

Última a entrar no ar, a Band compensou os cerca de 60 minutos perdidos por Datena cancelando o culto de RR Soares e promovendo uma espécie de “Brasil Urgente 2”.

Cabreiro desde a quinta-feira (13), quando sofreu na mão de uma pesquisa interativa, o apresentador dosou bastante seus posicionamentos, para evitar novas surpresas. Limitou-se a informar, em parceria com Márcio Campos, os passos das manifestações nas capitais, e a divulgar mensagens para conscientizar os telespectadores sobre as situações de tensão que devem ser evitadas. Ou seja, promoveu a prestação de serviço, sempre boa opção quando o assunto é TV ao vivo.

A Globo News, disparada a melhor transmissão da TV paga, repetiu sua fórmula tradicional: espalhou a cobertura ao longo de seus programas. A transmissão começou com Sidney Rezende, foi transferida para Leilane Neubarth e obedeceu normalmente a escala de apresentadores até a entrada do “Jornal das 10”. O “Em Pauta” e a faixa segmentada das 21 horas não foram levados ao ar.

O preparo da equipe de externas chamou positivamente a atenção na maratona até as 22 horas. Os links eram bem distribuídos e aconteciam com muita agilidade. As confusões em Brasília e Rio de Janeiro evidentemente ganharam mais atenção. O ímpeto em demonstrar que uma minoria perdeu o bom senso na manifestação carioca foi o único ponto aborrecido.  Sobretudo porque o telespectador é sensível e sabe diferenciar ações planejadas e descontroles – uma multidão de 100 mil pessoas, sabemos, é muito suscetível a descontroles.

A Record fez o melhor trabalho da noite. Muito pelo desempenho de Marcelo Rezende. Existe, para alguns, a ideia de que jornalistas como ele e Datena não servem para outra coisa que não seja gritar. Ledo engano. Porque o conhecimento popular que eles ostentam é uma ferramenta invejável na hora de examinar um movimento popular.

Em sua overdose de “corta pra mim”, ele costurou o melhor relato da segunda-feira.

Apesar de brigar pelo ibope paulistano, Rezende exibiu com destaque imagens de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre e Salvador.

Nos trechos opinativos, demonstrou profundo envolvimento com o tema do transporte público. Citou reportagem da Folha de São Paulo que calculava o tempo de trabalho gasto pelo paulistano para pagar a tarifa, relacionou as incoerências governamentais e avaliou os passos dos protestantes objetivamente, sem demonizar ou romancear a notícia. Chegou a 13 pontos de pico, o que incentivou a Record a prosseguir a cobertura dentro do “Jornal da Record”.

100 mil pessoas no Rio de Janeiro. Pelo menos 70 mil pessoas em São Paulo. Mais dezenas de milhares de pessoas espalhadas país afora. A revolução foi orgulhosamente televisionada. Com seus deslizes, com seus destemperos e, mais relevante, com seus trunfos. Um dia de transparência. Com a Record, na voz de Marcelo Rezende, citando a Globo. Com a Globo, em link no Jornal Nacional, assumindo-se como objeto de protesto.

O Brasil, às vezes, nos surpreende. Para o bem.