O pior destino de todos os tempos

O grande mistério de Lost: por que as pessoas levaram a sério?

O grande mistério de Lost: por que as pessoas levaram a sério?

É impossível falar sobre a última década da ficção televisiva sem esbarrar na fila de embarque do Oceanic 815.

Lançada em 2004, “Lost” teve uma primeira temporada até razoável. As personagens eram apresentadas com algum encanto, bem como os mistérios da ilha. Para o gênero em questão, carente de novidades desde “Arquivo X”, tudo ia bem. A partir do segundo ano, porém, a série demonstrou a metalinguagem presente em seu título.

Os passageiros do voo que origina a trama não eram os perdidos na ilha. Nem seus espectadores. As vítimas eram os roteiristas, sufocados pelas centenas de pontas abertas semana após semana.

Neste contexto, quem não se deixou fisgar pelo falso encanto gerado pelos falsos mistérios da série logo notou que apenas dois encerramentos eram possíveis para a história.

A primeira possibilidade, a menos embaraçosa do clã, aproveitaria o ensejo de “Brida”, novela da Manchete encerrada com voz over para ajudar na contenção de gastos da família Bloch – a emissora faliria anos depois. Ou seja, bastaria apenas a entrada de um ator alfabetizado no set. A segunda, indigna como a carreira da filha do Ozzy Osbourne, apelaria ao clichê da morte dos personagens. Qual foi a escolhida, com direito a analogias fantasmagóricas?

Lost se despediu com audiência de 13,5 milhões de telespectadores, índice bastante distante da média obtida na primeira leva de episódios – quase 19 milhões. Deixou, como único legado, a dúvida sobre os rumos da inovação estilística. Porque início, meio e fim ainda são fundamentais para se contar uma boa história, seja ela liderada por vivos ou mortos, passageiros de avião ou ônibus.

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Emily Thorne não venceu o ibope

"Revenge" não é unanimidade na TV aberta, mas faz grande sucesso na TV paga. O Sony exibe a produção.

“Revenge” não é unanimidade na TV aberta, mas faz grande sucesso na TV paga. O Sony exibe a produção.

A Globo lançou “Revenge” com honrarias de novela das nove.

Atormentou a todos com repetidas chamadas em sua programação noturna, exibiu declarações dos protagonistas em seu portal, produziu matérias no Fantástico. Até assumiu as semelhanças entre o enlatado e “Avenida Brasil”, último sucesso do Projac. Tudo para aproximar o telespectador desabituado a ver série.

Na primeira semana, a estratégia global obteve sucesso. Exibida após o Fantástico, “Revenge” marcou 15 pontos de média, arrasando SBT, Band e Record. Com o tempo, porém, boa parcela desse ibope  inicial começou a minguar. A liderança folgada virou saudade e, desde 14 de julho, a Globo emenda 2 capítulos seguidos da série, para esgotar o quanto antes a primeira temporada. Victoria Grayson corrompeu os terminais de medição do Ibope?

A Globo é mais responsável pela queda de “Revenge” do que a própria série ou seus concorrentes.  Se foi acertada a decisão de vender o dramalhão como novela, houve também falta de malícia da emissora na hora de examinar a lógica de seu próprio público.

O problema entre o telespectador brasileiro e o formato “série” não tem a ver apenas com a profundidade psicológica ou a estrutura da narrativa. O elemento que realmente influi nessa relação é o entendimento das pessoas a respeito do tempo. No caso, o tempo delas, não o da  ficção.

A audiência brasileira é acostumada a ver nas novelas o desenvolvimento de narrativas extensas, dotadas de começo, meio, fim e alguma linearidade. As séries nunca foram vendidas assim. Neste “palco”, o fator primordial para o reconhecimento de tipos dramatúrgicos é o intervalo de exibição da história. Aquilo transmitido diariamente é, independente de ser boa ou não, novela. Aquilo transmitido semanalmente, independente da embalagem utilizada pela emissora, é série. E ai daquele que tentar enganar a convicção do dono do controle remoto.

Caso “Revenge” fosse exibida de segunda a sexta, como outras séries no passado (Lost, 24 Horas etc.), os 15 pontos do primeiro capítulo dificilmente desapareceriam até a season finale.  Enquanto a Globo não explicar para o público geral o que é uma série, nenhuma estratégia de lançamento surtirá efeito a longo prazo. O primeiro passo talvez tenha sido dado no começo deste ano, com a criação de uma faixa especial de enlatados. Não fosse exibida após o “Programa do Jô”, essa experiência renderia resultados mais rapidamente, beneficiando ela e o telespectador.

Em tempo: “Revenge” só tem graça porque é tosca. Agradeçam a Globo por ter vendido mal o produto.

HBO exibe season finale de “Mad Men” e estreia de “The Newsroom” em sequência

Jeff Daniels é o protagonista de "The Newsroom".

Jeff Daniels é o protagonista de “The Newsroom”.

A HBO exibe nesta noite (15) a season finale de “Mad Men” e o primeiro episódio da aguardada segunda temporada de “The Newsroom”.

A sequência começa às 21 horas, com o desfecho do sexto ano de “Mad Men”. Parte da política de diminuição das janelas na TV paga, a nova safra de “The Newsroom”, lançada nos Estados Unidos ontem (14), tem estreia programada para a faixa das 22 horas.

Para combater os torrents, a HBO tem investido sistematicamente em transmissões simultâneas e conteúdo sob demanda, por meio dos recentes HBO GO e HBO OD.

“Game Of Thrones”, a série mais pirateada do mundo, e “True Blood” são dois títulos que já possuem no Brasil um calendário de exibição idêntico ao praticado nos Estados Unidos. “Mad Men” não participa do projeto porque é uma produção original da AMC, mas ainda assim possui um dos menores intervalos de veiculação da TV paga: 22 dias.

“Saramandaia” tem alma

Sergio Guizé: ator conseguiu se destacar até no insosso "Sessão de Terapia".

Sergio Guizé: ator conseguiu se destacar até no insosso “Sessão de Terapia”.

Livre adaptação da obra homônima de Dias Gomes, exibida pela mesma Rede Globo em 1976, “Saramandaia” suscita uma rara questão: por que as novelas não são sempre assim?

Ricardo Linhares, autor da produção, conseguiu popularizar o “realismo fantástico”, escola literária ainda desconhecida por boa parte dos brasileiros, sem vulgarizar ou depreciar o texto final.

Além da qualidade dos diálogos, contam a favor da novela a sonoridade do “saramandês”, o bom ritmo das cenas e a escolha das referências contemporâneas. Só algumas frases de efeito e as demonstrações de civismo dos manifestantes saramandenses pareceram fora de tom – no capítulo de estreia, pareceu até que os personagens anunciariam uma petição no Avaaz por “mudança”, esta palavra cada vez mais sem significado.

O elenco é outra preciosidade. É muito bom ver Lilia Cabral, Débora Bloch, Fernanda Montenegro, José Mayer, Renata Sorrah, Aracy Balabanian, Vera Holtz (uma pena a maquiagem tê-la deixado com a cara da Mamma Bruschetta), Tarcísio Meira e outros atores veteranos no ar. O grande achado, porém, é Sergio Guizé, ator novato convidado para interpretar o personagem principal da novela, transmitida de terça a sexta-feira.

O oposto dos demais atores de sua geração, que entregam logo no primeiro olhar o caráter, o credo e até a opção sexual de seus personagens, Guizé obriga o público a mergulhar fundo em sua cínica expressividade para liberar alguma pista de seu trabalho. Quem o observa na pele de João Gibão não reconhece um “mocinho” tradicional. Reconhece um homem simultaneamente triste, forte, covarde, apaixonado, sagaz e selvagem. Um ser ambíguo. Se a ambiguidade é o maior dom de um grande ator, ele já pode se considerar um grande ator.

“Saramandaia” é um território perdido no Brasil. Um território perdido na dramaturgia do Brasil. Vamos aproveitar esta breve epifania.