O pior destino de todos os tempos

O grande mistério de Lost: por que as pessoas levaram a sério?

O grande mistério de Lost: por que as pessoas levaram a sério?

É impossível falar sobre a última década da ficção televisiva sem esbarrar na fila de embarque do Oceanic 815.

Lançada em 2004, “Lost” teve uma primeira temporada até razoável. As personagens eram apresentadas com algum encanto, bem como os mistérios da ilha. Para o gênero em questão, carente de novidades desde “Arquivo X”, tudo ia bem. A partir do segundo ano, porém, a série demonstrou a metalinguagem presente em seu título.

Os passageiros do voo que origina a trama não eram os perdidos na ilha. Nem seus espectadores. As vítimas eram os roteiristas, sufocados pelas centenas de pontas abertas semana após semana.

Neste contexto, quem não se deixou fisgar pelo falso encanto gerado pelos falsos mistérios da série logo notou que apenas dois encerramentos eram possíveis para a história.

A primeira possibilidade, a menos embaraçosa do clã, aproveitaria o ensejo de “Brida”, novela da Manchete encerrada com voz over para ajudar na contenção de gastos da família Bloch – a emissora faliria anos depois. Ou seja, bastaria apenas a entrada de um ator alfabetizado no set. A segunda, indigna como a carreira da filha do Ozzy Osbourne, apelaria ao clichê da morte dos personagens. Qual foi a escolhida, com direito a analogias fantasmagóricas?

Lost se despediu com audiência de 13,5 milhões de telespectadores, índice bastante distante da média obtida na primeira leva de episódios – quase 19 milhões. Deixou, como único legado, a dúvida sobre os rumos da inovação estilística. Porque início, meio e fim ainda são fundamentais para se contar uma boa história, seja ela liderada por vivos ou mortos, passageiros de avião ou ônibus.

HBO exibe season finale de “Mad Men” e estreia de “The Newsroom” em sequência

Jeff Daniels é o protagonista de "The Newsroom".

Jeff Daniels é o protagonista de “The Newsroom”.

A HBO exibe nesta noite (15) a season finale de “Mad Men” e o primeiro episódio da aguardada segunda temporada de “The Newsroom”.

A sequência começa às 21 horas, com o desfecho do sexto ano de “Mad Men”. Parte da política de diminuição das janelas na TV paga, a nova safra de “The Newsroom”, lançada nos Estados Unidos ontem (14), tem estreia programada para a faixa das 22 horas.

Para combater os torrents, a HBO tem investido sistematicamente em transmissões simultâneas e conteúdo sob demanda, por meio dos recentes HBO GO e HBO OD.

“Game Of Thrones”, a série mais pirateada do mundo, e “True Blood” são dois títulos que já possuem no Brasil um calendário de exibição idêntico ao praticado nos Estados Unidos. “Mad Men” não participa do projeto porque é uma produção original da AMC, mas ainda assim possui um dos menores intervalos de veiculação da TV paga: 22 dias.

“Segundas Intenções” é patrimônio do cinema folhetinesco

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Quando afirmamos que Hollywood foi mais interessante no passado, somos chamados de ranzinzas. Rabugentos. Infelizes.

A troca de roteiristas nos grandes estúdios permitiu uma inversão de discurso. Os filmes são para os jovens. Não para os adultos. Textos encorpados e temas de maior densidade deveriam ser procurados pelos papais e titios na Fox ou na HBO. Agora, apenas os adolescentes têm direito ao balde de pipoca e ao copo de refrigerante com gravuras feias. E as crianças, conforme a classificação indicativa. 3D, áudio potente, essas alegorias, são proibidas para quem ultrapassa os 20 ou 25 anos.

Não nego que sou ranzinza, rabugento e infeliz. É bem provável que o leitor deste artigo também o seja. Internet serve pra isso, também. Para quem está triste assistir um vídeo no YouTube e postar algo desagradável em um fórum. No entanto, essa desculpa cada vez mais frequente dos diretores de cinema sobre o gosto de jovens e adultos já ultrapassou todos os limites. E a prova está no próprio circuito comercial. Fechem os olhos e voltem treze anos no tempo. Época de bug do milênio, pagode no Gugu e conexão dial-up. Preparados?

Lançado no Brasil em junho de 1999, “Segundas Intenções” não ganhou prêmio algum da crítica ou da Academia. Fez notável sucesso nas bilheterias, no entanto. E nas videolocadoras, quando o VHS era a vedete. Essencialmente trivial e focado no entretenimento, o drama reunia um punhado de bons nomes da nova geração e uma história de amor com final infeliz.

Ryan Phillippe (Sebastian) e Sarah Michelle Gellar (Kathryn) protagonizam o filme, hoje disponível em DVD e Blu-Ray. Meios-irmãos, eles gastam o tempo irritando e deformando o círculo social em que estão inseridos. Rejeitam valores pernósticos, tiques de bom mocismo. Para combater isto, lançam planos mirabolantes, mesquinhos, sempre ligados ao sexo e à traição. Na interpretação, uma nuance interessantíssima, o trunfo da obra: expressões faciais caricatas. Interpretação quase “mexicanizada”. Em resumo: um toque folhetinesco e caricato em Hollywood.

No filme, o alvo deles é Annette, filha do novo diretor da escola. Uma garota de princípios nobres, impensáveis. A presa perfeita para o insaciável e irremediável Sebastian. Enquanto ele desarma a rede de intrigas e medos de sua vítima, acaba se apaixonando. Pronto. Está cancelada a carreira de mau caráter.

O encerramento da fita é o ponto alto. Sebastian resolve abrir o jogo para Annette. Entrega seu diário e resolve aguardar uma decisão. Kathryn resolve se vingar, instigando uma antiga vítima a agredir seu meio-irmão. Pedido prontamente atendido. Annette reencontra Sebastian justamente no meio da briga forjada. Ao tentar apartar a confusão, é empurrada. Acaba atordoada na rua, prestes a ser atropelada. É salva pelo vilão regenerado. Que morre.

Durante o funeral, uma surpresa. Annette resolve imprimir as cópias do diário de Sebastian e distribuir para os alunos da escola, antes do discurso de Kathryn. Um a um, todos abandonam a catedral durante a fala da Paola Bracho americanizada. Desmascarada, termina com os olhares de desaprovação das pessoas que sempre sustentaram sua popularidade e prestígio. Justiça feita. A alma de Sebastian descansará em paz.

Voltemos para 2013. Quantos filmes destinados ao “grande público” conseguiram contar uma história razoável neste ano? Tudo bem. Pode puxar pela memória títulos de 2012. 2011. 2010. Está difícil?

A piora dos roteiros “comerciais” é latente. Filmes que brincam claramente com a dramaticidade e a profundidade psicológica, exatamente a mecânica do bom “Segundas Intenções”, hoje são superiores até mesmo a indicados em premiações satélites do Oscar. A evolução tecnológica certamente trouxe benefícios inestimáveis para a nossa diversão. Fazer cinema, podemos afirmar, é bem mais fácil. As ideias, infelizmente, não acompanharam esta interessante fase. Um prato cheio para os produtos menos nobres dos anos 90 ganharem atrasadas resenhas elogiosas e, até mesmo, o selo “cult”.

Adeus, Tony Soprano

James Gandolfini em cena de "Família Soprano"

James Gandolfini em cena de “Família Soprano”

TV ligada.

“Woke Up This Morning” começa a tocar.

Nos próximos 60 minutos, tenho a certeza de que nada me aborrecerá.

James Gandolfini é Tony Soprano. Tony Soprano é James Gandolfini. Quando a genialidade aflora, só os deuses conseguem separar a carne da arte.

Mafioso de New Jersey, Tony padece de três males: o trabalho, a família e a síndrome do pânico.

Por ser impossível a dissociação desses problemas, resolve procurar uma psicóloga.

Nas consultas com a Dra. Jennifer Melfi, apenas alimenta a megalomania. O ar primitivo. Com simpatia, é claro. Soprano é simpático. Gandolfini é simpático.

Lá vai o Tony sufocar a mãe no corredor do hospital. Pena os seguranças impedirem-no. Agora, ele resolveu entrar na casa de uma amiga para desferir cintadas um conhecido que resolveu namorá-la. Aquele outro rapaz esqueceu de pagá-lo. É justo que seja perseguido como um animal. Parece que Christopher, seu sobrinho, está confuso. Melhor mesmo matá-lo engasgado no próprio sangue, antes que faça alguma bobagem.

Cumplicidade. Essa é a minha resposta -e a de todo o público- para a brutalidade engendrada por Tony Soprano episódio a episódio. Ele achaca. Ele estapeia. Ele executa. Nós achacamos. Nós estapeamos. Nós executamos. Guiados pelos olhos de Gandolfini, abandonamos a lógica e qualquer senso de pertencimento à humanidade. Porque nem a lógica nem a humanidade nos interessam mais do que o talento ali expressado. É gratificante ser mesquinho.

Tony Soprano não é um simples anti-herói, como outros criados nos últimos anos. Ele está além disso. Tony Soprano é humano. Afinal, é interpretado por um humano. De talento acima da média. Sem a sensibilidade e a capacidade de James Gandolfini, o mundo jamais conferiria fenômeno semelhante a Tony. Uma figura bruta e doce. Estúpida e astuta. Destemperada e comedida.  Poderosa e frágil. Corajosa e covarde. Capaz de representar, sem esforços, a angústia, a tristeza e a impotência que nós, mafiosos ou não, carregamos sem demonstrar.

“Família Soprano” acabou sem falas. Com um brusco corte seco no meio da cena e tela “black”. Para muitos fãs, o recado de David Chase foi de que a história de Tony não parava ali. A vida de James Gandolfini também acabou sem falas. Com um brusco corte seco no meio da cena e tela “black”. A história da TV não vai parar, mas receio que a tela preta ficará no ar por décadas.