“Senna” é filme para os fãs menos racionais de Fórmula 1

Idolatria prejudica a produção.

Idolatria prejudica a produção.

Se é difícil escolher qual foi o maior piloto brasileiro de Fórmula 1, é bastante simples apontar o mais querido pela torcida. Nelson Piquet e Emerson Fitipaldi são engolidos por Ayrton Senna quando o tema é idolatria.

O estardalhaço em torno do piloto, morto durante o GP de Ímola, não só é bem apresentado por “Senna” como, infelizmente, é parte dele. As ótimas imagens de arquivo são desperdiçadas no meio de tantas deixas criadas para levar os espectadores às lágrimas.

São vagos e raros os momentos em que o tricampeão é apresentado sem a vestimenta da ética e da bondade. Quando acontecem, a impressão que fica é a de decepção do público – parece ser incompreensível abordar Ayrton Senna sem o selo de herói.

O resultado dessa ânsia de emocionar e entregar aos brasileiros alguém para ser lovado é o esperado: um filme nada racional que mais lembra as novelas do SBT, tamanha a falta de ousadia e originalidade.

Ayrton Senna, especificamente por seu retrospecto nas pistas, merecia algo mais sério e complexo. Algo menos infantilizado.

“Caro Francis”

Francis faleceu em 1997.

Francis faleceu em 1997.

 

O brasileiro é naturalmente adepto ao conchavo. Ao acobertamento. Ao silêncio escuso. Ao oportunismo barato. Este temperamento viciado e covarde, carregado em berço esplêndido, jamais acabará. É fator de identidade nacional. Tão influente quanto o batuque em nossas manifestações artísticas, é o atestado para o fisiologismo de nossos líderes.  Não por acaso, sempre encontrou poucos opositores. Cada vez mais raros.

Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, o Paulo Francis, era um desses incomuns exemplares avessos ao conformismo e ao caráter flexível dos brasileiros. Do trotskismo ao casamento com o capitalismo, nunca traiu o princípio básico para a construção de um país maiúsculo. A manifestação. A troca de ideias. A fundamentação da opinião.

“Caro Francis”, documentário de Nelson Hoineff, carrega em seus 98 minutos a alma do jornalismo opinativo brasileiro. Paulo Francis, por décadas, foi soberano no dever de opinar. Em todas as empresas onde trabalhou, sempre fez uso de uma única matéria-prima: a ousadia de discutir. Debater. Sem medo de mudar de ideia.

Diferentemente do esperado pelos detratores, o roteiro do documentário não foge de tópicos desagradáveis nem romantiza o caso Petrobrás. Os amigos participam, claro, mas não houve qualquer restrição aos inimigos. Até mesmo Fernando Jorge, que sempre acusou o jornalista de ser plagiário, participou. Para repetir a mesma acusação de sempre, mas participou. O fracasso literário de Francis foi outro assunto honestamente abordado. Como era de se esperar, a lente que abordou o profissional da opinião permitiu ao espectador opinar sobre o homem retratado. Crítica é apenas crítica, afinal.

Em um país como o Brasil, onde os blogueiros sentem orgulho de defender o governo,  o jornalismo virou sinônimo de bajulação e o pluralismo se tornou desculpa para perseguir veículos de comunicação com orientações ideológicas diferentes, o Caríssimo Paulo Francis faz mesmo muita falta.