O passado mascarado de Luciano Huck

Tiazinha: personagem garantia picos de 8 pontos ao "H".

Tiazinha: personagem garantia picos de 8 pontos ao “H”.

O homem que hoje constrói casas um dia construiu fetiches.

Luciano Huck não brotou do asfalto rumo à Globo, em 2000. Ele teve um passado na TV. Um passado mascarado. Depilado. E rebolativo.

Aposta da Band no fim dos anos 1990, o jovem apresentador galgou um lugar ao sol estimulando o público adolescente, especificamente o masculino.

Acompanhado pelo indecifrável Théo Werneck, o Liminha das pick-ups, Huck comandou por boas temporadas o “H”, versão softporn do “Programa Livre”.

No lugar dos convidados engravatados sabatinados por Groisman, a alma dos aniversários infinitos, mulheres (quase) peladas tomavam o palco, interagindo com o host.

De todas as modelos, a mais famosa atendia pelo simpático apelido “Tiazinha”, que  garantia picos de quase 10 pontos à Band quando tirava o roupão.

Dotada de máscara e chicote, ela depilava os adolescentes que erravam perguntas de atualidades.

A performance rendeu uma capa da Playboy, homenagens variadas (não pergunte o tipo) e um disco, com apoio do Vinny.

O hit “Uh! Tiazinha”, aliás, abre o espetáculo abaixo.

 

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A TV precisa de provocação

Frame da campanha "provocativa" da Band.

Frame da campanha “provocativa” da Band.

A Band tem um projeto de expansão bastante claro.

A chegada do “Pânico”, entregue de mão beijada pela RedeTV!, o retorno de Datena, os projetos da Cuatro Cabezas e a inserção das séries nas madrugadas ajudaram consideravelmente a emissora, tanto no mercado paulista quanto no mercado nacional. Se o desordenado aluguel religioso permanecer adormecido, superará o ibope do SBT rapidamente.

Além do óbvio ganho aos telespectadores, guarnecidos de mais atrações, essa inesperada reação devolveu um fator quase esquecido entre as redes abertas: a provocação.

Em um post da série “Grandes Momentos da TV”, reprisei a festa que Ratinho armou há mais de uma década quando talhou o leite global. É um espetáculo absolutamente vergonhoso, mas notável sob o ponto de vista da competição. A TV competitiva gera casos abissais, como o Latininho, porém, também serve para evitar o congestionamento de vídeos da internet, pois atiça egos.

Ao inundar suas chamadas com o peteleco “Por que aqui e não lá?”, a Band convida o telespectador a reparar a falta de criatividade de suas concorrentes, sem citá-las. O “lá” pode ser a RedeTV!, antiga rival, agora em sérios apuros para se aproximar da Cultura. Ou o SBT, conhecido pela grade itinerante. Ou, ainda, a Record, constantemente atrapalhada em seu plano primordial, a liderança do mercado.

Aqui, a ação. Lá, a reação. Porque neste meio ninguém confere provocações em silêncio.

Os dez anos do “Pânico”

"Pânico" trocou a RedeTV! pela Band em 2012.

“Pânico” trocou a RedeTV! pela Band em 2012.

Quem acompanhou a estreia do “Pânico” em 28 de setembro de 2003, na RedeTV!, dificilmente imaginaria que Emilio Surita e seus comandados celebrariam dez anos de história nos domingos da TV brasileira.

O orçamento era limitado. O alcance da emissora era reduzido. O horário escolhido para o debut era dos mais complicados – 18h30, quando o processo de ‘migração’ do futebol já havia acabado. Para piorar, não havia atração predecessora. Ou seja, o programa começava no traço. Faltava apenas o apoio público de José Serra para a causa ficar ainda mais impopular.

A invisibilidade durou cerca de nove meses. O ibope, sempre entre um e três pontos, subia à medida que o apoio da crítica crescia. Após oito anos de embate intenso entre Gugu e Faustão, finalmente havia uma novidade para ser indicada aos leitores. Uma possibilidade para a mudança. Deus e os marqueteiros políticos sabem como os brasileiros são apegados ao verbo “mudar”.

Com o sopapo aplicado por Victor Fasano em Repórter Vesgo, o ibope aferiu 9% de pico, primeiro resultado relevante. A esquete de Silvio Santos na praia bateu 10%. A saga para fazer Clodovil calçar as sandálias da humildade garantiu 13%, além do primeiro minuto da história à frente do SBT.

A acidez das piadas e a inconsequência nas abordagens lavavam a alma de um grupo saturado do bom mocismo e da bajulação a atores e cantores que já aporrinhavam a paciência durante a semana. Isso em uma época onde o ápice da subversão era criar uma comunidade marota no Orkut.

O que há de diferente entre aquele “Pânico”, da RedeTV!, e o de hoje, da Band?

Artisticamente, nada. O elenco, na verdade, é o melhor de todas as temporadas. Guilherme Santana, Christian Pior e Eduardo Sterblitch são absolutamente talentosos. A liberdade editorial também é a mesma. O que mudou foi a faixa horária.

A pressão de alguns órgãos populares sem apoio popular resultou, em 2006, na principal ameaça ao futuro da atração. Proibido de ser veiculado antes das 20 horas, o humorístico trocou a concorrência dos programas de auditório pela companhia das revistas eletrônicas. Perfis obviamente díspares.

Agregado a uma faixa ainda mais perigosa, que canibalizou recentemente o tarimbado Gugu, o “Pânico” substituiu as piadas com fio condutor, que valorizavam a inteligente edição de sua equipe, pelas sacadas rápidas. As bundas e o humor físico, igualmente presentes na primeira fase, apenas ganharam mais vitrines. Foi, enfim, uma escolha pela sobrevivência, interpretada como covardia pela absoluta poltronice intelectual de quem desconhece a guerra pela audiência.

Na rádio Jovem Pan, Emílio sempre dizia, quando questionado sobre o rumo dos quadros e integrantes do programa, que o público queria ver o circo pegar o fogo e ver o palhaço morrer queimado. Por todos os serviços prestados nos últimos dez anos ao humor e à TV, é bastante justo que este circo continue intacto.

O saco cheio de risadas

TV paga também aderiu fortemente às pegadinhas. Compactos do Candid Camera e Sérgio Mallandro têm grande cartaz nos canais Viva e Multishow.

TV paga também aderiu fortemente às pegadinhas. Compactos do Candid Camera e Sérgio Mallandro têm grande cartaz nos canais Viva e Multishow.

Antes limitadas ao “Programa Silvio Santos”, as pegadinhas têm conquistado espaço e investimento entre as redes abertas.

Desde a estreia, em abril, de um compilado de câmeras escondidas velhas da RedeTV!, pelo menos um programa criado e dois quadros do gênero foram ressuscitados. Assim, temos, considerando somente as atrações dedicadas exclusivamente à “arte”, nove horas semanais de situações ridículas.

Criado para servir de escada ao “Teste de Fidelidade”, o “Te Peguei” precisou de apenas duas transmissões para se tornar a estrela da emissora osasquense.

Os picos de até 5 pontos e os minutos à frente do “Pânico” serviram de passaporte para a programação diária da emissora, que reserva a ele a faixa das 18h às 18h45.

Há duas semanas, a edição dominical do show recebeu uma ligeira turbinada.

Além do pacote gráfico diferenciado, o apanhadão do humor ganhou apresentação de João Kléber, gravações inéditas e trinta minutos extras. Na edição de 8 de setembro, conseguiu média de quase 3 pontos e picos de 4.

Principal vítima da reciclagem da concorrente, a Band respondeu o ataque adquirindo um bloco de pegadinhas internacionais, o “Só Risos”.

Com índices entre 2 e 3 pontos, retomou seu estimado quarto lugar no ranking sem causar estardalhaços ou demandar estratégias mais elaboradas. Abandonará a grade dominical a partir de 15 de setembro para ceder espaço a Datena, mas acaba de estrear uma edição de 45 minutos, exibida de segunda a sexta-feira após a mesa redonda do Neto.

Os programas de Tina Roma e Celso Portioli também compõem esta odisseia.

Os quadros “Sorria, você está na Record” e “Telegrama Legal”, exibidos respectivamente por “Tudo A Ver” e “Domingo Legal”, têm conquistado, semana a semana, mais espaço e audiência, apesar de seguirem a fórmula de reprises bancada pela RedeTV!.

É o Brasil do século 21 morrendo de rir com as sacadas do século 20.