A sociologia de Ivo Holanda

"Vai Fazer O Quê?" mistura jornalismo, comportamento e pegadinhas.

“Vai Fazer O Quê?” mistura jornalismo, comportamento e pegadinhas.

Pobre Ernesto Paglia. Trocou os dias de enjoo no “Globo Mar” por uma azia semanal no “Fantástico”.

Vivendo a pior turbulência desde a “Casa dos Artistas”, o “Show da Vida” (nunca um apelido jogou tão contra) escalou o jornalista para comandar o quadro “Vai fazer o quê?”, em que atores simulam situações controversas para avaliar a reação dos cidadãos.

Desrespeito aos idosos, suspeita de furto, agressão a mendigos, pessoas com a camisa da Portuguesa. Todo tipo de manifestação incomum, marginal, acabou encenada pela produção da Globo. Os atores, muito ruins, pulsavam a polêmica. Os brasileiros, muito confusos, recrudesciam a Lei de Gérson. Ernesto Paglia, muito envergonhado, descia da van para repercutir o teatro. Eis o script, digno dos flagras “ao vivo” do programa de João Kléber.

Para abordar a homofobia, tema do quadro em 1º de setembro, o “teste de dignidade” infiltrou dois homens em um shopping carioca. Eles trocaram carinhos na praça de alimentação até serem interrompidos pelo filho do Valderrama, que fez uns gestos e repetiu o discurso indignado mais clichê da história. Enquanto as câmeras escondidas registram as caras e bocas do público, a edição despeja pequenas entrevistas e uns números de pesquisa googlados provavelmente na véspera da gravação. Quem se comportou bem ganhou parabéns. Quem se comportou mal também ganhou parabéns. O Brasil gosta de dar e receber parabéns.

Não há problema algum em fazer exercícios do tipo e exibi-los na TV. Incomoda apenas a pretensão em transformar essas câmeras escondidas em exercício sociológico.

No mesmo horário do “Fantástico”, por exemplo, RedeTV!  e SBT exibem pegadinhas. Em geral, ou elas arremessam tortas ou colocam pessoas em situações controversas, protagonizadas pelas mesmas caricaturas do quadro de Ernesto Paglia. Aplicando o padrão de “Vai fazer o quê?”, se a Globo comprasse o conteúdo das concorrentes e trocasse as narrações engraçadinhas por intervenções de um repórter qualquer, elas surgiriam como novas peças de “jornalismo verdade”. É como se dissessem que o Ivo Holanda é um gênio incompreendido, impedido de revelar as incoerências da sociedade porque precisava chamar alguém de gordo para poder gritar “produção, produção, me ajuda” antes de apanhar.

2013 pode ficar marcado como o ano da reciclagem em nossa TV. Do canal que reprisa cinco novelas em sequência ao programa que celebra 40 anos agregando filosofia às pegadinhas, todo mundo deixou a inovação de lado para (tentar) reviver os picos de audiência do passado.

Ainda veremos Ernesto Paglia correr de seus testados. Ainda veremos Ivo Holanda enjoado no mar.

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