Quando o Brasil parecia Brasil

Globo de Ouro: só a Kátia não via.

Globo de Ouro: só a Kátia não via.

O Brasil tinha axé de protesto.

Esta foi a primeira lição que recebi ao conferir uma edição de 1986 do “Globo de Ouro”, hit parade que a Globo exibia nos anos 70 e 80 e agora reprisa, com sucesso, no canal Viva.

César Filho, hoje leitor de notícias amanhecidas no SBT, era o ator da vez no rodízio de apresentadores do programa. Isabela Garcia, a atriz. Entre sorrisos, brincadeiras e alguma informação sobre o sobe e desce das paradas eles anunciavam as atrações do programa.

Bell Marques saudou o público trajando uma camisa jeans à la Roberto Carlos, moleton de pintor e uns sapatos que não combinam muito com o clima de Salvador. A cada 30 segundos, gritava “eu sou brasileiro”. Depois gritava “aiaiaiaiai”. Tudo para provar que é um cavaleiro do juízo final. Um guerreiro – o que faz sentido, pois é preciso mesmo ser muito guerreiro pra aturar o Chiclete com Banana.

Derrotado pelo mal, o axé deu espaço para umas crianças feias, outra especialidade dos anos 1980. O grupo “Os Abelhudos” penava para seguir o playback, enquanto o público penava para não dormir.

Evandro Mesquita, em outra incursão solo, deu sequência ao festival. Vestido de Billy Idol, tentava inovar, criar algo próximo da Blitz. Sorte a dele ter virado ator, pois terminaria como Supla se dependesse da voz e das composições.

O primeiro momento contagiante do programa foi protagonizado pelo quinto colocado da parada. Roberto Leal, torcedor da Portuguesa e semblante de eleitor do Eymael, cantou um dos temas de corno mais agitados do cancioneiro popular, “Fatamorgana”, com um terno que faria o Prince mudar de nome umas dezessete vezes. Ele pontuava: “Será que ela me quer?”. Os convidados rebatiam: “Divina ou é mulher?”.

O saxofone, Delfim Netto dos instrumentos musicais, fez duo com Patrícia, mas ninguém deu muita bola, porque todo mundo colocava sopro em single naquela época. Até a Rosana, que ficou em segundo lugar, um posto à frente da “Infinita Highway” de Humberto Gessinger e seu cabelo de coxinha.

Próxima a um punhado de paquitas vestidas de soldadinho de chumbo, Xuxa brindou a todos com a voz fofa e fina de seu tempo de programa infantil. Enquanto conferi “a rainha dos baixinhos e dos altinhos”, inevitavelmente pensei na lenda do pacto demoníaco firmado pela apresentadora. Se eu nunca levei a sério essa crendice, foi no momento em que o Dengue simulou um riff que eu enterrei de uma vez por todas a lenda. Ninguém entregaria a alma para, anos depois, passar vergonha assim.

Mais que um termômetro das rádios AM e FM, o “Globo de Ouro” é a orquestra desafinada de um Brasil sem ordem, sem lógica, sem cifras. A letra de um Brasil que não tinha desejo de se esconder em frases feitas, ideias de ocasião, ideologias de cisão. De um Brasil que não tinha vergonha de ser Brasil, apesar do moleton velho, o sotaque luso, a roupa do Prince e o rapaz vestido de mosquito.

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