“O Artista” confunde pieguice com homenagem

Jean Dujardin protagonizou "O Artista".

Jean Dujardin protagonizou “O Artista”.

Nunca foi tão fácil engabelar os milhares de membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e ganhar um Oscar.

Desde as primeiras exibições de “O Artista”, filme do diretor Michael Hazanavicius, vários saudosistas invadiram fóruns e blogs para destacar o caráter contemplativo da produção.

Pudera. Enquanto os estúdios concentram seus investimentos no 3D, uma gloriosa produção francesa teve a ousadia de reunir elementos do cinema clássico. Película sem cores, sem falas. Salas luxuosas, sem espectadores com penteados de jogador de futebol e roupas da coleção da Fergie. E bom humor. Muito bom humor. Aquele que, hoje em dia, ninguém mais suporta, mas finge amar para não decepcionar a trupe cult.

Centrado em Jean Dujardin, uma mistura de Murilo Benício e Tião Macalé, o projeto, raso, conta a história da estrela George Valentim, ator que não aceita a mudança para o cinema com vozes e acaba distante dos holofotes.

Após financiar um fracasso de público para tentar provar seu ponto de vista, ele se descontrola, perde parte de seus bens, acidentalmente incendeia a própria casa e quase morre. O drama pessoal é ampliado com uma tentativa de suicídio, impedida por Peppy Miller, atriz que ajudou a lançar e acaba o convencendo a voltar aos estúdios. Cerca de 90 minutos amarrados a um roteiro linear, exageradamente adocicado, pouco ousado e trabalhado por atores que simplesmente não funcionam, apesar da prerrogativa básica da interpetação: sorrir e fazer expressões capazes de irritar até o elenco de Vila Sésamo.

As cenas “metalinguísticas”, descritas por muitos como agradáveis e bem produzidas pílulas de um passado glorioso, também não se sustentam – acabam por tornar o filme ainda mais aborrecido, após trinta minutos de sessão. Porque os gracejos, os sorrisos ininterruptos e as danças repetidamente apresentadas criam a impressão de que o cinema antigo era um amontoado de ideias estúpidas trabalhadas para fazer rir, quando, na verdade, este era apenas um de seus segmentos. Se a intenção era homenagear o cinema, Hazanavicius acabou, sem querer, ignorando um pouco de sua história. Falha grave pra um “tributo”.

Sobra como único argumento razoável para justificar os votos e a vitória de “O Artista” no Oscar a péssima safra contemporânea, que mesmo com computação gráfica e câmeras 3D não consegue oferecer algo convincente. De fato, é impossível ignorar a inoperância e falta de perícia dos cineastas, nos últimos anos. A palermice tem triunfado sobre as ideias. Porém, querer punir a tecnologia premiando um filme tão canastrão quanto os outros só por ele se livrar dos “vícios” digitais é pura falta de imaginação. Justamente o que não falta em Hollywood: gente sem imaginação.

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