Adeus, MTV Brasil

A MTV volta ao ar em 1º de outubro. A Viacom será responsável pela programação.

A MTV americana só retirou os clipes de sua programação após o lançamento de seus canais alternativos: MTV2,  MTV3  e MTV Hits. 

Último diretor de conteúdo e programação da MTV Brasil, Zico Goes publicou em “Serafina”, revista da Folha de São Paulo, o epitáfio da emissora musical, que a partir de 1º outubro inicia vida no universo da TV por assinatura.

Entre referências a um piti de Caetano Veloso, o músico irrelevante mais relevante do Brasil contemporâneo, e sacadinhas chulas sobre os sucessos exibidos pela emissora nos anos 1990 e 2000, o antigo manda-chuva da casa musical definiu assim a ousadia de quem “botou essa porra pra funcionar” por quase 23 anos:  “Experimentou sem medo de errar -e, quando errou, errou gostoso”.

Não sei em que momento o Brasil passou a ter fetiche pelas falhas. O tesão por carga tributária elevada eu já conhecia. A estima por políticos calhordas também. Mas a paixão crescente pelo erro, confesso, me pegou no contrapé. Parece que não demorará muito para criarmos um feriado em celebração ao confisco da poupança. E um outro para homenagear a discografia do Padre Fábio de Melo. Talvez seja a hora de amadurecer um pouco. Fazer samba para algo mais produtivo.

De todos os erros “gostosos” praticados pela MTV, o mais emblemático partiu exatamente da mente visionária do executivo. Escorado no argumento “o videoclipe não pertence mais à televisão”, Goes retirou da programação 2007 o Disk e os demais títulos dedicados à matéria-prima da emissora. Quem desejasse ver os marginalizados videoclipes poderia sintonizar o canal às 2h00. Ou acessar o YouTube, lançado como algoz da história.

A ousada ideia durou poucos meses. Perdendo o resto de sua audiência para a PlayTV, que inteligentemente ampliou sua carga de clipes nas faixas da tarde e da noite, a MTV contratou um VJ a toque de caixa, lançou um tal “MTV Box” e colocou Penélope para apresentar uma parada temática chamada “MTV5”. Assim, como se nada tivesse acontecido, a música voltaria a pertencer à televisão – mas não à MTV, que havia jogado fora de uma vez por todas sua influência na cultura pop e nas rádios.

A internet tem sido muito mal interpretada no Brasil. Nossas intenções perante ela são inversamente proporcionais à velocidade da conexão. A mídia impressa não vai desaparecer. Os blogs não vão exterminar o tal golpismo dos veículos conservadores, esse fenômeno propagado por quem no passado construiu esses mesmos veículos conservadores. O máximo que o clã da banda larga e das redes sociais ofereceu para nós, até agora, foi um perfil fake institucional da Presidenta da República e as esquetes de “Porta dos Fundos”, que, não se enganem, poderiam ser exibidas em qualquer lugar. Ou seja, nada para abalar a estrutura das redes abertas, líderes de audiência até entre os assinantes de TV paga.

Ninguém precisará assistir à programação da nova MTV para saber que ela será a antítese de sua precursora. O filho do Fábio Jr. será apresentador de uma revista eletrônica. O filho do Eduardo Suplicy comandará um reality show. O resto do espaço será ocupado por reprises, reprises e mais reprises de conteúdo importado da MTV americana. Nunca mais encontraremos uma Sabrina. Uma Cuca. Uma Astrid. Um Zeca. Um Mion. Um João Gordo. Nem assistiremos outro “Piores Clipes”. Outro “Lado B”. Outro “Gordo a Go Go”. Ou outro “Hermes & Renato”.

O fim da MTV está longe de ser é um erro gostoso. É um erro doloroso. Do qual nunca nos recuperaremos.

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Um pensamento sobre “Adeus, MTV Brasil

  1. Sem dúvida. Não há como concordar sobre a falta que a velha MTV vai fazer para a televisão e o publico jovem no país, não querendo apelar para uma nostalgia cega. Era um dos poucos, se não o único, canal a oferecer um pouco de transgressão e novidade para servir de contraponto à essa aridez que é a programação das outras emissoras. E quanto ao “impacto” fulminante da internet, não pude deixar de concordar com sua afirmação, Leandro. Os clipes que passam no youtube possuem definição de imagem muito pior que a velha transmissão UHF da qual a MTV se servia nos primórdios. Sem falar que nenhum deles tem a Sabrina ou Cuca os apresentando…

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