Afonso Segretto é o culpado

"Tropa de Elite 2": raro exemplo de sucesso comercial fora das comédias e biografias.

“Tropa de Elite 2”: raro exemplo de sucesso comercial fora das comédias e biografias.

19 de junho de 1898. Um desocupado italiano chamado Afonso Segretto chega ao Brasil. Na falta de algo melhor para fazer, resolve filmar a Baía da Guanabara. Fim.

Esta é a história do nascimento do cinema nacional, cujo “aniversário oficial” começou a ser comemorado para valer somente nos anos 1970, a partir da iniciativa de alguém ainda mais desocupado.

A ideia de celebrar a cultura, seja por razão coletiva ou individual, é muito válida. O problema é que o Brasil nunca produziu um filme decente – conseguiu apenas criar alguns bons documentários. A tentativa mais próxima, “Tropa de Elite”, tem a profundidade intelectual de um filme de ação com baixo orçamento. Não há argumento algum entre os sufocamentos e bordões do Capitão Nascimento. Wagner Moura poderia ser facilmente substituído por Steven Seagal, por exemplo. Tanto no filme quanto naquele tributo à Legião Urbana, aliás.

Um mérito muito particular de “Tropa de Elite” é sua sinergia com o público. Pode ser palerma, pode ser rasteiro, mas o roteiro foi capaz de levar o brasileiro ao cinema mesmo sem prometer sexo ou atrizes peladas. O primeiro longa conseguiu 2,5 milhões de espectadores. O segundo foi além: superou 11 milhões, respondendo por quase metade dos 25,6 milhões de ingressos vendidos em produções nacionais durante 2010, segundo os dados da Filme B. José Padilha teve a capacidade de pensar em algo popular. Raridade entre os cineastas, que mesmo atolados de leis de incentivo e patrocínios estatais são incapazes de garantir bilheterias volumosas ou suficientes pra compensar o investimento.

146,4 milhões de bilhetes foram vendidos nos cinemas do Brasil em 2012, recorde histórico medido pela Ancine. Apenas 10,6% foram para os filmes brasileiros, que fabricaram dois sucessos: A comédia “Até Que a Morte Nos Separe” (3,3 milhões de espectadores) e a comédia que não faz rir “E Aí, Comeu?” (2,5 milhões). Quantos dramas ou comédias originais ultrapassaram a barreira de 1 milhão de espectadores? Zero.

O problema do Brasil não é a falta de formatos. É a eterna repetição. As chanchadas continuam no circuito, mas sem a nudez. A nova geração repete as mesmas piadas do humor pastelão e cansado da época da ditadura. Quando não somos expulsos do Metrô Zorra Total acabamos na central ideológica dos doutrinados por Frei Betto e autores da esquerda anciã. O que muda é a fotografia. O nome dos personagens. A ordem de conclusão dos arcos. O resto é idêntico. Os cineastas sofrem LER.

O cinema nacional quer comemorar seu dia. Os brasileiros querem distância dele. Afonso Segretto poderia ter ignorado a Baía de Guanabara e nos livrado de mais esse fetiche cultural.

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3 pensamentos sobre “Afonso Segretto é o culpado

  1. Discordo de (quase) tudo. Tem muito filme bom brasileiro. Ao longo das décadas o Brasil produziu dezenas, se pá uma centena inteira.

    … E poxa, não dá pra avaliar a questão “investimento/retorno” por ticket vendido. Cultura não se mede assim. Falando especificamente de números, dá pra dizer que o problema do dinheiro investido não trazer retorno financeiro não é exclusivo do Brasil. A França, país que possui a maior quantidade de leis de incentivo para cinema do mundo, quase nunca recupera nas bilheterias o que é investido em produção – mas mesmo assim continuam fazendo filmes (com dinheiro público e privado).

    Outro ponto que é comum no mundo todo é a questão da aceitação do gênero. A comédia, por mais rasa que seja, sempre movimentou o mercado de cinema. Foi assim na Itália e na supracitada França (na época do neo-realismo italiano/nouvelle vague), foi assim na Argentina e é assim até em Bollywood. A repetição de temas também não é algo exclusivo do Brasil. Todo o país sofre disso, até os Estados Unidos.

    E há inovação. Há outras formas de humor. Infelizmente não é tão aceito e não tem tanto apelo. Mas a questão está mais ligada a formação do público do que a qualquer outra razão. (É mais fácil o espectador procurar algo parecido em termos de linguagem com o que ele vê na tv/com as comédias assépticas de Hollywood do que se dispor a ver iniciativas distintas.) Enfim, enfim.

    Acho que cê simplificou a números algo que é muito mais complexo.

  2. Como sempre que se fala que o cinema brasileiro e ruim e nao tem publico logo aparece alguem para dizer que o culpado e o publico. Nao os culpados sao os cineastas e produtores que se acostumaram ao dinheiro estatal facil e sem obrigaçao nenhuma de obter retorno. Em relaçao ao exemplo da França eu discordo, pois na França se produz todo genero de cinema ao contrario do Brasil que praticamente so faz filmes de comedias no estilo Zorra Total ou pessimos dramas com tematica esquerdista. Se pelo menos o investimento estatal funcionasse para gerar algo minimamente parecido com o cinema argentino atual ja seria bem razoavel, mas como estamos no Brasil a Ancine so quer financiar os filmes dos companheiros.

    • Não disse em nenhum momento que o culpado era o público. O que eu disse é que o público não vai costuma ir ao cinema ver filmes brasileiros que não são comédias/favela-movies na maioria das vezes por não estarem acostumados a outras propostas estéticas/gêneros.

      Para muitos, talvez a maioria, cinema nacional ainda é ruim e não se equipara ao padrão-Hollywood-de-qualidade™ – o que faz com que tudo que se pareça distinto do que é visto na tv (que tem alta aceitação) não tenha tanto apelo.

      Logo, se a maioria do público vai ao cinema para ver um produto do tipo X, é óbvio que as empresas que financiam projetos por causa da Lei Rounet vão apostar nesse tipo de produto – já que é esse tipo de filme que dá retorno financeiro. Pessoalmente acho que esse ciclo (que permite que certos filmes se sobressaiam e acabam reforçando essa ideia de temáticas e formulas repetidas) é pobre e que é danoso demais pro cinema enquanto um todo. Algo que deveria ser revisto.

      Mas, entretanto, todavia, contudo… Há outras visões e olhares por aí. Há outras formas de fazer cinema (que infelizmente não chega ao grande público pelos motivos supramencionados). Acho problemático simplificar a questão e dizer que só se faz um tipo de cinema e que só há filme ruim. Não é assim. Tal qual a França, o Brasil produz sim vários tipos de filmes. Tem cinema de ação (2 Coelhos), aventura (Xingu), comentário social (O Som Ao Redor), drama (Linha de Passe), comédia-que-se-assemelha-a-crônica (Confissões de um Liquidificador), teen-movie (As Melhores Coisas do Mundo), estudo de personagem (Era Uma Vez Eu, Verônica), road-movie (Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo), épico (O Tempo e o Vento), filme de época (Lavoura Arcaica), documentários (As Canções) e etc, etc, etc…

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