Woody Allen tem o direito de se repetir

Woody Allen: quase 50 filmes na carreira.

Woody Allen: quase 50 filmes na carreira.

Quando estreou no Brasil, “Para Roma com Amor” motivou uma série de comentários sobre “o cansaço criativo de Woody Allen”. “De novo na Europa, de novo com personagens apaixonados!”, exclamou o público. Alguns críticos chegaram a sugerir que o cineasta deveria se retirar discretamente. Procurar um paraíso do velho continente para descansar, não para filmar. Outros, como observou João Pereira Coutinho na Folha de São Paulo, preferiram atribuir a ele uma nova função: a de guia de turismo.

Se a fórmula aplicada em “Para Roma com Amor” parece cansada, sua execução de maneira alguma se aproxima da letargia. As quatro histórias, sempre pela genialidade de Woody Allen,  fluem de maneira excepcional, a rigor de seus outros filmes. O que pensamos ser reprise de ideias é, na verdade, a rara capacidade de perpetuar o alto nível. São quase 50 filmes, um por ano, sempre com o “costume” de conduzir histórias com primazia. Vergonhoso?

Em poucas palavras: Woody Allen tem o direito de se repetir. Quem não tem é justamente o cinema daqueles que tanto tem pegado no pé do cineasta. Os filmes do Brasil se repetem demais, quando deveriam esquecer o passado e tentar se modernizar na forma e no conteúdo. Para reparar no infeliz looping que vivemos basta prestar atenção no seguinte dado: o primeiro título tupiniquim a romper a barreira de 1 milhão de visitantes em 2012, ano de “crise”, foi “E Aí… Comeu?”, adaptação de peça do escritor Marcelo Rubens Paiva.

A gloriosa produção liderada por Bruno Mazzeo, o rapaz que no passado roteirizou “Cilada” e julga ter autonomia pra questionar a inteligência do Twitter, é uma pornochanchada.  O sexo é tratado como sempre foi, com as interpretações fuleiras já esperadas. De diferente, só a curiosa decisão de retirar a overdose de cenas de nudez. Escolha pensada, claro, para preservar o intelecto dos brasileiros, sempre atentos às últimas novidades sobre roteiros cinematográficos, memes de Willy Wonka e virais políticos com erros gramaticais.

Os brasileiros querem que Woody Allen mude. Eu não quero. Meu desejo é que o cinema do Brasil mude. Ou desista de uma vez. O que for mais fácil de compartilhar no Facebook sem estragar a timeline dos outros.

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