“Chiquititas” é herança maldita

Elenco de "Chiquititas". O esforço nem sempre vale a pena.

Elenco de “Chiquititas”. O esforço nem sempre vale a pena.

O SBT quer ser o grande polo da teledramaturgia brasileira. De novo.

Quem tem mais de 20 anos sabe que não é a primeira vez que Silvio Santos acordou entusiasmado com as possibilidades de audiência e faturamento que as novelas podem render. Sabe, também, como isso pode machucar as retinas.

Em 1996, por exemplo,  a “TV mais feliz do Brasil” resolveu lançar três folhetins de uma só vez: “Colégio Brasil”, uma espécie de “Malhação” vivida no Rochdalle, “Razão de Viver”, cujas falas poderiam ilustrar aqueles PPTs com imagens de flores e cães felizes, e “Antônio Alves, Taxista”, o degrau mais desgraçado da carreira de Fábio Jr.  Após dezoito (eu sei, o número é bem maior) mudanças de horário, todas foram sumariamente substituídas pela Thalia. Findava outro projeto de Silvio Santos, o Vanderlei Luxemburgo das telenovelas.

O grande problema da ficção brasileira não é a falta de dinheiro, mas sim a falta de criatividade de quem se mete a desenvolvê-la. O país tem, sim, anunciantes e investidores dispostos a arriscar. Basta alguém oferecer um bom projeto. Como é muito trabalhoso escrever um roteiro original, montar um exército de profissionais, selecionar um bom casting e contratar uma equipe técnica eficiente, a intelligentsia noveleira opta por aplaudir qualquer pateta com capital próprio (no caso, o SBT). No lugar da verdadeira criação, o processo é resumido a manifestações de pura e simples adulação. Esse fenômeno, notado também no cinema, explica, entre outras coisas, porque o Netflix jamais geraria “House Of Cards” ou “Orange Is The New Black” caso fosse brasileiro.

Não quero cravar com este artigo que o conchavo e o corporativismo devem ser apagados do país. Não existe Brasil sem conchavo e corporativismo. Porém, tudo tem um limite. Ninguém precisa entender muito de roteiro ou televisão pra saber que “Chiquititas” é um completo desastre. Cheia de cores e analogias cretinas sobre a imaginação das crianças, a abertura é uma azia visual. O texto, insosso, lembra as deixas do “Telecurso 2º Grau”. A interpretação dos atores veteranos é digna de pena – Carla Fioroni, a zeladora Ernestina, passeia pelo orfanato como se procurasse o banco de Carlos Alberto de Nóbrega. Sem qualquer tino de atuação, os intérpretes mirins, supostas estrelas da novela, parecem aquelas crianças prodígio que repetem “Itaquaquecetuba” para o Raul Gil ajoelhado no palco. Por que parabenizar o SBT? Por que parabenizar Iris Abravanel?

“Chiquititas” deve sair do ar apenas em 2014. Preparem-se para o remake do remake de “Carrossel”. O projeto não tem fim.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s