O Movieline tem razão: não temos estrelas de cinema

Bate forte o tambor.

Bate forte o tambor.

Em 2012, Amy Nicholson mexeu com o brio dos brasileiros. Integrante do “Movieline”, site especializado em cinema, ela visitou Manaus em novembro para cobrir a 9ª edição do Amazonas Film Festival, um dos principais eventos do circuito nacional. Descontente com o que assistiu, escreveu um artigo com ferozes críticas sobre nosso país. Sua primeira frase: “There are no movie stars in Brazil”. Ávida em destruir nosso orgulho, disse que as celebridades de São Paulo e Rio de Janeiro sentiam vergonha de Manaus, repetindo a todo o momento que o Brasil era “diferente”. Quem você pensa que é, yankee?

É perfeitamente compreensível o tom empregado por Nicholson em seu relato. Visitar Manaus, com todo o respeito, não deve mesmo ser muito fascinante. As referências sobre a cidade e Amazonas são sempre as piores possíveis. Seja em filme, música ou novela, sempre as mesmas ideias brejeiras são apresentadas. A região precisa urgentemente deixar a natureza em paz e esquecer os pés descalços, as fantasias coloridas, as coreografias engraçadas e aqueles artesanatos fuleiros para ser respeitada. Viver o século retrasado não é cult. Já basta viver em um país com economia do século retrasado. É hora de evoluir. Bater forte o tambor e querer tic tic tic tac.

Um dos aspectos que mais chamou atenção da crítica americana em sua visita foi o excesso de astros de telenovelas e a inexistência de estrelas do cinema. De fato, tirando Fernanda Montenegro, reconhecida no mundo inteiro por “Central do Brasil”, e Rodrigo Santoro, galã que emendou uma sequência de trabalhos nos Estados Unidos, não exportamos muitos nomes nos últimos anos. O problema na observação de Nicholson é que os “astros de telenovelas” notados não são exatamente astros. Você conhece, por exemplo, Bia Nunes? E Juliana Didone? Antônio Pitanga todos conhecem, é o pai de Camila Pitanga, um senhor simpático que nos últimos anos se especializou em interpretar ele mesmo. Toni Garrido é ex-ator, ex-vocalista do Cidade Negra e ex-jurado de reality show, ninguém dá muita bola. Felipe Dylon não é ator. Nem cantor. Felipe Dylon é um holograma com sotaque arrastado. Ou seja, não é uma exclusividade do cinema a falta de estrelas ou talentos. Vamos derrubar o mito da “nobreza da TV”. Somos broncos artisticamente em todos os aspectos. Os filmes são ruins, é verdade. Mas as novelas são ainda piores. Bia Nunes e Juliana Didone não me deixam mentir.

Pior que o repetido devaneio sobre nossa identidade cultural, os filmes de Cacá Diegues ou as novelas de Glória Perez é a ideia do Brasil evoluído. Do Brasil “diferente”. Todo mundo sabe que não existe um Brasil para cada região do país. Existem cidades com mais e menos saneamento básico. Manaus, por acaso, está na categoria “menos saneamento básico”. Mas o fato é que Amy afirmou ter ouvido essa lorota de algumas celebridades, provavelmente envergonhadas com o jeitinho rústico de Manaus. Os brasileiros adoram se enrolar na bandeira nacional, mas, em geral, não suportam viver aqui. Chamamos de atrevidos os americanos e europeus que debocham de nossos hábitos e ideias, mas, em troca de uns cacos de espelho e status, entregaríamos tudo o que supostamente amamos, exatamente como João Romão fez em “O Cortiço”. Bertoleza é nossa cultura.

O Amazonas Film Festival terminou com um bando de famosos e umas modelos com peças indígenas no palco, dançando algo entre o Gangnam Style e a velha “Dança do Vampiro”. Uma peça simbólica sobre a alegria de ser brasileiro. Sobre o orgulho de ser manauense. O cinema? Esse fica para o ano que vem. Ou para o próximo. Se eu fosse Amy Nicholson, já prepararia o espírito. Somos insistentes. Não vamos desistir até acertar a mão e criar bons filmes e festivais. Faz parte do nosso brio. Não desistir nunca. Por mais que todos já tenham desistido de nós.

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