“Segundas Intenções” é patrimônio do cinema folhetinesco

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Quando afirmamos que Hollywood foi mais interessante no passado, somos chamados de ranzinzas. Rabugentos. Infelizes.

A troca de roteiristas nos grandes estúdios permitiu uma inversão de discurso. Os filmes são para os jovens. Não para os adultos. Textos encorpados e temas de maior densidade deveriam ser procurados pelos papais e titios na Fox ou na HBO. Agora, apenas os adolescentes têm direito ao balde de pipoca e ao copo de refrigerante com gravuras feias. E as crianças, conforme a classificação indicativa. 3D, áudio potente, essas alegorias, são proibidas para quem ultrapassa os 20 ou 25 anos.

Não nego que sou ranzinza, rabugento e infeliz. É bem provável que o leitor deste artigo também o seja. Internet serve pra isso, também. Para quem está triste assistir um vídeo no YouTube e postar algo desagradável em um fórum. No entanto, essa desculpa cada vez mais frequente dos diretores de cinema sobre o gosto de jovens e adultos já ultrapassou todos os limites. E a prova está no próprio circuito comercial. Fechem os olhos e voltem treze anos no tempo. Época de bug do milênio, pagode no Gugu e conexão dial-up. Preparados?

Lançado no Brasil em junho de 1999, “Segundas Intenções” não ganhou prêmio algum da crítica ou da Academia. Fez notável sucesso nas bilheterias, no entanto. E nas videolocadoras, quando o VHS era a vedete. Essencialmente trivial e focado no entretenimento, o drama reunia um punhado de bons nomes da nova geração e uma história de amor com final infeliz.

Ryan Phillippe (Sebastian) e Sarah Michelle Gellar (Kathryn) protagonizam o filme, hoje disponível em DVD e Blu-Ray. Meios-irmãos, eles gastam o tempo irritando e deformando o círculo social em que estão inseridos. Rejeitam valores pernósticos, tiques de bom mocismo. Para combater isto, lançam planos mirabolantes, mesquinhos, sempre ligados ao sexo e à traição. Na interpretação, uma nuance interessantíssima, o trunfo da obra: expressões faciais caricatas. Interpretação quase “mexicanizada”. Em resumo: um toque folhetinesco e caricato em Hollywood.

No filme, o alvo deles é Annette, filha do novo diretor da escola. Uma garota de princípios nobres, impensáveis. A presa perfeita para o insaciável e irremediável Sebastian. Enquanto ele desarma a rede de intrigas e medos de sua vítima, acaba se apaixonando. Pronto. Está cancelada a carreira de mau caráter.

O encerramento da fita é o ponto alto. Sebastian resolve abrir o jogo para Annette. Entrega seu diário e resolve aguardar uma decisão. Kathryn resolve se vingar, instigando uma antiga vítima a agredir seu meio-irmão. Pedido prontamente atendido. Annette reencontra Sebastian justamente no meio da briga forjada. Ao tentar apartar a confusão, é empurrada. Acaba atordoada na rua, prestes a ser atropelada. É salva pelo vilão regenerado. Que morre.

Durante o funeral, uma surpresa. Annette resolve imprimir as cópias do diário de Sebastian e distribuir para os alunos da escola, antes do discurso de Kathryn. Um a um, todos abandonam a catedral durante a fala da Paola Bracho americanizada. Desmascarada, termina com os olhares de desaprovação das pessoas que sempre sustentaram sua popularidade e prestígio. Justiça feita. A alma de Sebastian descansará em paz.

Voltemos para 2013. Quantos filmes destinados ao “grande público” conseguiram contar uma história razoável neste ano? Tudo bem. Pode puxar pela memória títulos de 2012. 2011. 2010. Está difícil?

A piora dos roteiros “comerciais” é latente. Filmes que brincam claramente com a dramaticidade e a profundidade psicológica, exatamente a mecânica do bom “Segundas Intenções”, hoje são superiores até mesmo a indicados em premiações satélites do Oscar. A evolução tecnológica certamente trouxe benefícios inestimáveis para a nossa diversão. Fazer cinema, podemos afirmar, é bem mais fácil. As ideias, infelizmente, não acompanharam esta interessante fase. Um prato cheio para os produtos menos nobres dos anos 90 ganharem atrasadas resenhas elogiosas e, até mesmo, o selo “cult”.

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2 pensamentos sobre ““Segundas Intenções” é patrimônio do cinema folhetinesco

  1. Muito bom o texto. Mas, sem querer ser chato – e, obviamente, já sendo -, acho que faltou dizer que o filme foi (vagamente) inspirado no livro “As relações perigosas” (Les liaisons dangereuses), de Choderlos de Laclos.

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