Clássico dos cursinhos, “A Hora da Estrela” é cabelo na sopa do cinema

Trecho de "A Hora da Estrela"

Trecho de “A Hora da Estrela”

A Câmara dos Deputados aprovou em junho de 2012 um projeto que obriga a aplicação de 10% do PIB do Brasil em políticas educacionais. A apreciação do Senado, a última que faltava, veio no dia 28 de maio

Para quem não sabe, o governo nunca gostou muito desta história de enterrar 10% do orçamento na educação. Meio sem jeito, promoveu, ano passado, movimentações para diminuir a fração do investimento fixo. Causou um tremendo mal estar, inclusive. Um mal estar sem motivo. Ele poderia ter engabelado deputados e representantes dos movimentos sociais obrigando-os a ler um livro. Um artigo. Qualquer coisa. O desejo de interferir cessaria imediatamente.

Nada causa mais ojeriza aos brasileiros do que o hábito da leitura. Os números do mercado editorial até dão a ideia de um país em processo de amadurecimento, mas basta saber que os campeões de venda são títulos do calibre de “50 Tons de Cinza” e “Jogos Vorazes” para tudo voltar à realidade. Apesar dos excelentes autores, temos péssimos leitores. Nossa capacidade em colocar batuque e percussão em qualquer versinho parece ser proporcional à capacidade de criar analfabetos funcionais. Tum-tum-tum de pai para filho. Erros de concordância de pai para filho.

Um ótimo indicador da letargia intelectual que persegue o Brasil está, paradoxalmente, na sala de aula. Mais especificamente nas carteiras dos cursinhos preparatórios para vestibular. Basta um professor de literatura aventar a possibilidade dos alunos lerem um dos livros exigidos nas provas de Fuvest e Unicamp para um verdadeiro massacre começar. As reclamações só acabam quando a leitura é substituída pela exibição da adaptação cinematográfica da obra. Prova de que o governo deveria investir integralmente em telecursos.

Nesta desagradável sessão corrida de adaptações, dificilmente existe filme mais infeliz do que “A Hora da Estrela”. Não existe um clássico da literatura tão ou mais destroçado por nossos cineastas do que este romance de Clarice Lispector. Nem “O Cortiço”, transformado em softporn, foi tão descaracterizado.

Suzana Amaral despiu Macabéa da sutileza de sua ignorância. A naturalidade da trama de Clarice Lispector acabou transformada em grosseira caricatura na tela do cinema. A burrice patológica da personagem serve apenas de escada para cenas embaraçosas. A profundidade dos personagens, fundamental para entendermos o significado do universo criado por Lispector, é suprimida. Mesmo a cena final, ironia simples e pura, é mal executada – parece teatro de rua.

Premiado no Festival de Brasília, celebrado no Festival de Havana (Cuba entende de cinema tanto quanto entende de liberdade de expressão) e lembrado no Festival de Berlim (acredito na hipótese do voto de protesto), “A Hora da Estrela” de Suzana Amaral é um cabelo na sopa do cinema brasileiro. Macabéa ri. Eu choro.

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