O dia em que o Cinema em Casa deu 47 pontos de audiência

"Férias do Barulho": recorde absoluto

“Férias do Barulho”: recorde absoluto

Sinônimo de reprises infinitas, o “Cinema em Casa” já teve seu dia de “Tela de Sucessos”, atual faixa premium de filmes na grade do SBT.

A sessão obteve 47 pontos de audiência em 21 de outubro de 1988, quando exibiu “Férias do Barulho”, uma comédia estilo “Porky’s” protagonizada pelo Johnny Depp.

Na lista abaixo, você confere as maiores audiências das emissoras abertas entre os dias 17 e 23 de outubro daquele ano.


GLOBO

Vale Tudo – 60
Jornal Nacional – 53
Tela Quente – 52
SP TV – 51
Bebê a Bordo – 50

Curiosidade: “Vale Tudo” era exibida fora de seu horário normal (20h30) por conta do Horário Eleitoral.


SBT
Cinema em Casa (Férias do Barulho) – 47
A Praça É Nossa – 38
Show de Calouros – 29
Cidade contra Cidade – 28
Pião da Casa Própria – 26

Curiosidade: O Cinema em Casa era exibido uma vez por semana em 1988. Silvio Santos exibia filmes às sextas-feiras, na clássica estratégia “grudadinho com a novela da Globo”.


BAND

Futebol Italiano – 7
Bolinha – 6
Futebol Sênior – 5
Agildo no País das Maravilhas – 3
Quinta Espetacular – 3

Curiosidade: “Agildo no País das Maravilhas” é lembrado até hoje como um dos programas humorísticos mais experimentais da TV. Vários fragmentos dele estão disponíveis no You Tube. O “Bronco” também era exibido naquela época. Sua média era idêntica: 3 pontos.


RECORD

Especial Sertanejo – 6
Gigantes do Ringue – 6
Poltrona R – 6
Quarta em Ação – 4
Operação Resgate – 4

Curiosidade: O Jornal da Record atravessava uma de suas piores fases em 1988. Oscilava entre 1 e 2 pontos no ibope. 


MANCHETE

Clube da Criança – 6
Milk Shake – 6
Jaspion – 4
Automan – 4
Rural – 2

Curiosidade: A Manchete sempre teve o hábito de copiar a grade da Globo. “Manchete Rural” era exibida aos domingos, na faixa das 11 horas. Só não era derrotada pela MTV porque não existia MTV em 1988. Destaque para Jaspion, que era o Viagra da Manchete em 1988. Servia de alavanca pra toda a grade.

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O que você não deve assistir no fim de semana #5

Zac Efron em "Um Homem de Sorte". Sortudo é o cidadão sem TV.

Zac Efron em “Um Homem de Sorte”. Sortudo é o cidadão sem TV.

Roupa Nova, animais em pânico e Zac Efron.

Saque o controle remoto, a faixa de protesto e fique de olho na lista da semana. 


Fique longe de…

“Behind The Music: Ice Cube”
VH1, sexta, 21h

Por que não assistir? O Behind The Music foi inventado para contar “vida, carreira, sucesso e tragédia” dos artistas. Ice Cube não é artista nem nos Estados Unidos nem no palco do Raul Gil. Logo, qual a lógica do programa?


“Vídeos Divertidos do Animal Planet”

Animal Planeta, sábado, 14h

Por que não assistir? É uma reunião de imbecis. Tem o imbecil que filma, o imbecil que acha bonito testemunhar o próprio cão levar um tombo, o imbecil com voz irritante que narra passo a passo a infelicidade do animal e o imbecil que assiste e acha graça. Reserve este horário para lavar o quintal. Quem sabe você escorrega e lança o “Vídeos Divertidos do Cretino”.


“Um Homem de Sorte”

HBO, sábado, 22h

Por que não assistir? Sargento da Marinha americana encontra uma foto durante sua passagem pelo Iraque. Encantado, decide carregar a imagem da jovem consigo. Conforme escapava dos ataques, reforçava a ideia de que a fotografia era uma espécie de amuleto que o livrava do mal. De volta aos Estados Unidos, decide encontrar a desconhecida mulher impressa naquele pedaço de papel. Após localizá-la, começa a trabalhar para ela. Subitamente se apaixonam. Não, não é a sinopse da próxima novela da esposa do Silvio Santos. É  a sinopse do filme que a HBO resolveu exibir às 22h de um sábado. “Um Homem de Sorte”, neste caso, é aquele sem televisão.


“Music Box In Concert – Roupa Nova Acústico”
Music Box Brazil, domingo, 10h30

Por que não assistir? Porque você não precisa assumir pra ninguém que ficou pra titio (a). Encare sua ruína amorosa de maneira digna. Se você é casado, não assista porque seus filhos precisam de um exemplo legal.

 

“Olívias na TV”
Multishow, domingo, 22h

Por que não assistir? É uma versão ficcional (e piorada) do “Saia de Justa”. Mais urgente que a reforma política é a reforma da dramaturgia no Multishow.

“Segundas Intenções” é patrimônio do cinema folhetinesco

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Quando afirmamos que Hollywood foi mais interessante no passado, somos chamados de ranzinzas. Rabugentos. Infelizes.

A troca de roteiristas nos grandes estúdios permitiu uma inversão de discurso. Os filmes são para os jovens. Não para os adultos. Textos encorpados e temas de maior densidade deveriam ser procurados pelos papais e titios na Fox ou na HBO. Agora, apenas os adolescentes têm direito ao balde de pipoca e ao copo de refrigerante com gravuras feias. E as crianças, conforme a classificação indicativa. 3D, áudio potente, essas alegorias, são proibidas para quem ultrapassa os 20 ou 25 anos.

Não nego que sou ranzinza, rabugento e infeliz. É bem provável que o leitor deste artigo também o seja. Internet serve pra isso, também. Para quem está triste assistir um vídeo no YouTube e postar algo desagradável em um fórum. No entanto, essa desculpa cada vez mais frequente dos diretores de cinema sobre o gosto de jovens e adultos já ultrapassou todos os limites. E a prova está no próprio circuito comercial. Fechem os olhos e voltem treze anos no tempo. Época de bug do milênio, pagode no Gugu e conexão dial-up. Preparados?

Lançado no Brasil em junho de 1999, “Segundas Intenções” não ganhou prêmio algum da crítica ou da Academia. Fez notável sucesso nas bilheterias, no entanto. E nas videolocadoras, quando o VHS era a vedete. Essencialmente trivial e focado no entretenimento, o drama reunia um punhado de bons nomes da nova geração e uma história de amor com final infeliz.

Ryan Phillippe (Sebastian) e Sarah Michelle Gellar (Kathryn) protagonizam o filme, hoje disponível em DVD e Blu-Ray. Meios-irmãos, eles gastam o tempo irritando e deformando o círculo social em que estão inseridos. Rejeitam valores pernósticos, tiques de bom mocismo. Para combater isto, lançam planos mirabolantes, mesquinhos, sempre ligados ao sexo e à traição. Na interpretação, uma nuance interessantíssima, o trunfo da obra: expressões faciais caricatas. Interpretação quase “mexicanizada”. Em resumo: um toque folhetinesco e caricato em Hollywood.

No filme, o alvo deles é Annette, filha do novo diretor da escola. Uma garota de princípios nobres, impensáveis. A presa perfeita para o insaciável e irremediável Sebastian. Enquanto ele desarma a rede de intrigas e medos de sua vítima, acaba se apaixonando. Pronto. Está cancelada a carreira de mau caráter.

O encerramento da fita é o ponto alto. Sebastian resolve abrir o jogo para Annette. Entrega seu diário e resolve aguardar uma decisão. Kathryn resolve se vingar, instigando uma antiga vítima a agredir seu meio-irmão. Pedido prontamente atendido. Annette reencontra Sebastian justamente no meio da briga forjada. Ao tentar apartar a confusão, é empurrada. Acaba atordoada na rua, prestes a ser atropelada. É salva pelo vilão regenerado. Que morre.

Durante o funeral, uma surpresa. Annette resolve imprimir as cópias do diário de Sebastian e distribuir para os alunos da escola, antes do discurso de Kathryn. Um a um, todos abandonam a catedral durante a fala da Paola Bracho americanizada. Desmascarada, termina com os olhares de desaprovação das pessoas que sempre sustentaram sua popularidade e prestígio. Justiça feita. A alma de Sebastian descansará em paz.

Voltemos para 2013. Quantos filmes destinados ao “grande público” conseguiram contar uma história razoável neste ano? Tudo bem. Pode puxar pela memória títulos de 2012. 2011. 2010. Está difícil?

A piora dos roteiros “comerciais” é latente. Filmes que brincam claramente com a dramaticidade e a profundidade psicológica, exatamente a mecânica do bom “Segundas Intenções”, hoje são superiores até mesmo a indicados em premiações satélites do Oscar. A evolução tecnológica certamente trouxe benefícios inestimáveis para a nossa diversão. Fazer cinema, podemos afirmar, é bem mais fácil. As ideias, infelizmente, não acompanharam esta interessante fase. Um prato cheio para os produtos menos nobres dos anos 90 ganharem atrasadas resenhas elogiosas e, até mesmo, o selo “cult”.

Adeus, Tony Soprano

James Gandolfini em cena de "Família Soprano"

James Gandolfini em cena de “Família Soprano”

TV ligada.

“Woke Up This Morning” começa a tocar.

Nos próximos 60 minutos, tenho a certeza de que nada me aborrecerá.

James Gandolfini é Tony Soprano. Tony Soprano é James Gandolfini. Quando a genialidade aflora, só os deuses conseguem separar a carne da arte.

Mafioso de New Jersey, Tony padece de três males: o trabalho, a família e a síndrome do pânico.

Por ser impossível a dissociação desses problemas, resolve procurar uma psicóloga.

Nas consultas com a Dra. Jennifer Melfi, apenas alimenta a megalomania. O ar primitivo. Com simpatia, é claro. Soprano é simpático. Gandolfini é simpático.

Lá vai o Tony sufocar a mãe no corredor do hospital. Pena os seguranças impedirem-no. Agora, ele resolveu entrar na casa de uma amiga para desferir cintadas um conhecido que resolveu namorá-la. Aquele outro rapaz esqueceu de pagá-lo. É justo que seja perseguido como um animal. Parece que Christopher, seu sobrinho, está confuso. Melhor mesmo matá-lo engasgado no próprio sangue, antes que faça alguma bobagem.

Cumplicidade. Essa é a minha resposta -e a de todo o público- para a brutalidade engendrada por Tony Soprano episódio a episódio. Ele achaca. Ele estapeia. Ele executa. Nós achacamos. Nós estapeamos. Nós executamos. Guiados pelos olhos de Gandolfini, abandonamos a lógica e qualquer senso de pertencimento à humanidade. Porque nem a lógica nem a humanidade nos interessam mais do que o talento ali expressado. É gratificante ser mesquinho.

Tony Soprano não é um simples anti-herói, como outros criados nos últimos anos. Ele está além disso. Tony Soprano é humano. Afinal, é interpretado por um humano. De talento acima da média. Sem a sensibilidade e a capacidade de James Gandolfini, o mundo jamais conferiria fenômeno semelhante a Tony. Uma figura bruta e doce. Estúpida e astuta. Destemperada e comedida.  Poderosa e frágil. Corajosa e covarde. Capaz de representar, sem esforços, a angústia, a tristeza e a impotência que nós, mafiosos ou não, carregamos sem demonstrar.

“Família Soprano” acabou sem falas. Com um brusco corte seco no meio da cena e tela “black”. Para muitos fãs, o recado de David Chase foi de que a história de Tony não parava ali. A vida de James Gandolfini também acabou sem falas. Com um brusco corte seco no meio da cena e tela “black”. A história da TV não vai parar, mas receio que a tela preta ficará no ar por décadas.