A TV paga da Ancine

Nem Bruno Mazzeo merece isso.

Nem Bruno Mazzeo merece isso.

Mais desimportante que o cinema brasileiro é a agência criada para regular seu setor.

A ANCINE foi criada em 2001. Sua missão,publicada na internet, é promover “o fomento, a regulação e a fiscalização do mercado do cinema e do audiovisual no Brasil”  para “induzir condições isonômicas de competição nas relações dos agentes econômicos da atividade cinematográfica e videofonográfica no Brasil, proporcionando o desenvolvimento de uma indústria forte, competitiva e [sic] auto-sustentada”.

Não é preciso ir muito longe para saber que a produção brasileira continua com a tecnologia do século 20 e aquelas mesmas ideias do século 19, repetidas por todo pretenso intelectual tupiniquim.  Desde a criação da agência reguladora, vinculada ao Ministério da Cultura, só uns filmes que glorificam a pobreza, os espíritas e o Renato Aragão fizeram sucesso. A ANCINE, portanto, falhou em sua promessa. Uma promessa que ninguém conhecia. Ou se importava.

Como ninguém enviou um telegrama para a ANCINE relatando a felicidade em estar longe, bem longe, dos filmes brasileiros, ela decidiu se mobilizar. Por cinco anos, azucrinou o Congresso Nacional para embutir na lei 12.485, que garante às concessionárias de telefonia o direito de comercializar serviços de TV paga, um desagradável adendo bananista: a cota de conteúdo brasileiro.

Para “aumentar a produção e circulação de conteúdo audiovisual brasileiro, diversificado e de qualidade, gerando emprego, renda, royalties, mais profissionalismo e o fortalecimento da cultura nacional”, ela criou, “atendendo aos interesses da sociedade”, duas regras.

A primeira, a menos desagradável, obriga as operadoras a criar uma reserva brasileira nos pacotes comercializados. A cada três canais estrangeiros oferecidos, um nacional deverá ser entregue. Em pacotes maiores, um limite de doze canais nacionais foi estipulado, para o decodificador não virar um carro alegórico e cantar as músicas da Beth Carvalho. Entre esses canais democraticamente embutidos na grade, dois precisarão contar com 12 horas diárias de conteúdo nacional. Depois do “Teatro Dos Oprimidos”, chega no Brasil a “TV Paga dos Oprimidos”.

A segunda regra, esta sim mais incisiva, delega aos canais estrangeiros a exibição semanal obrigatória de 210 minutos de séries e filmes do Brasil – no início, a ANCINE permitirá o atendimento de “apenas” 120 minutos. Canais de jornalismo e esportes estão livres da medida, mas Sony, Warner, HBO e os demais dedicados a séries e filmes, justamente os prediletos do público, que paga pelo conteúdo, não. Entre Sheldon Cooper e Francis Ford Coppola, um pouco de “FDP”. Entre Gregory House e Woody Allen, um pouco de “Cidade de Deus”. Tudo em nome dos interesses da sociedade. Qual sociedade?

Na visão da ANCINE, o fato de ninguém se importar, seja na TV, seja no cinema, com “Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios”, “O Palhaço”, “Lula, o Filho do Brasil”, “Paraísos Artificiais”, e dezenas de lixos em longa metragem financiadas muitas vezes com dinheiro público têm a ver com falta de oportunidade. Quando, na verdade, o que acontece é exatamente o inverso. Os brasileiros pagam o serviço de TV por assinatura pensando em novas oportunidades. Em não depender das redes abertas e públicas, como a TV Brasil, aquela que ainda faz festa quando pica 1% de share em plena madrugada.

A ANCINE tem todo o direito de estudar alternativas para popularizar as gloriosas criações nacionais, apesar de ser desperdício de dinheiro público. Minha sugestão inicial seria matricular todos os roteiristas e cineastas em escolas profissionalizantes, para eles aprenderem a escrever e executar suas obras. Não existe barreira maior para o contato entre o público e as produções nacionais do que a atestada falta de qualidade do que é criado. O público, por mais paradoxal que possa parecer, procura qualidade, não quantidade. Enfiar goela abaixo um pacote de porcarias e reprises não ajudará em nada na atrapalhada intenção estatal de popularizar o Brasil para os brasileiros. É mais provável que o número de televisores ligados simplesmente caia. Efeito curioso para quem dizia, com terminologias técnicas e cínicas, querer aquecer a economia.

Em nome de um “interesse público”, várias figurinhas e grupinhos começaram a afirmar o que é melhor para os brasileiros. Do consumo de roupas e gadgets aos tuítes engraçadinhos, tudo passou a sofrer patrulha de gente que veste o manto das boas intenções para esconder o secreto desejo de controlar a vida alheia. A onda, agora, chegou na procedência da ficção, a mais tresloucada de todas as ofensivas até aqui. Espero que em pouco tempo o Brasil fique independente dessa cota, interessante apenas para os produtores incompetentes, que ganham uma perigosa e nefasta reserva de mercado. Afinal, temos – ou deveríamos ter – o direito de ter uma vida um pouco menos preocupada com o que afirmam ser público e mais preocupada com o que é nosso. Mas não sou muito otimista em meu desejo. No Brasil, a evolução só ocorrerá quando ela se tornar uma cota. O Brasil é um país de cotas.

 

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2 pensamentos sobre “A TV paga da Ancine

  1. Essas séries nacionais (CAOS e O Infiltrado) agora transmitidas pelo History entram nessa regra? CAOS se inspira no bom Trato Feito, também do History. Enquanto o original tem muita informação, CAOS é pobre nesse quesito.
    Já o Infiltrado, aconselho que você veja com os próprios olhos. Daria um bom texto.
    Abs
    Matheus Cunha
    @elmathas

  2. Toda produção nacional, independente de sua “idade”, é aceita no preenchimento dessas cotas. É por isso, inclusive, que a maioria dos canais aposta nos filmes nacionais. É barato e eficiente. Abs.

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